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Há 98 anos, começava a I Guerra Mundial. Por Carlos Loures.

Em 3 de Agosto de 1914, a França, a Bélgica e a Grã-Bretanha declaravam guerra à Alemanha. A Primeira Guerra Mundial começava. Quando, em 1918, o Armistício lhe pôs termo, o saldo era devastador – 10 milhões de mortos, 30 milhões de feridos, explorações agrícolas e instalações industriais destruídas – um caos económico generalizado.

E, no entanto, os motivos que conduziram à deflagração do conflito, eram de natureza económica. Após a guerra anterior, entre a França e a Prússia, a divisão dos territórios coloniais criara numerosos atritos. A Alemanha, entretanto constituída pela união política dos estados germânicos, e Itália, tinham sido marginalizadas na atribuição de colónias, em benefício da Grã-Bretanha, da França, da Bélgica e até de Portugal, a quem não era internacionalmente reconhecida capacidade para gerir um tão vasto império colonial.

A obtenção de territórios ricos em matérias-primas e em mão de obra escrava (embora não fosse assim designada) era um dos motivos da animosidade entre as potências mais desenvolvidas. O outro motivo era a luta pela hegemonia nos mercados consumidores. Somando a esta concorrência económica, a corrida aos armamentos e a propaganda belicista que, nomeadamente a exaltação dos ideais nacionalistas que, no rescaldo deste conflito, começou a dar lugar aos movimentos fascistas, temos um labirinto caótico cuja única saída era (ou parecia ser) a guerra. E pretextos pontuais  não faltavam. A França fora duramente humilhada após a sua derrota em 1870 na guerra com a Prússia. Os alemães tinham-se dado ao luxo de escolher o palácio de Versalhes para proclamar a união dos estado germânicos, ou seja, a constituição da Alemanha. A Alsácia-Lorena fora anexada ao novo estado.

O revanchismo francês explodia a cada momento, em cada página de jornal, em cada conversa de café. E os alemães não tentavam sequer dissimular o seu arrogante triunfalismo. E também se criara na sociedade alemã uma forte corrente de opinião favorável à solução militar. O pan-germanismo, a crença na superioridade alemã em todos os campos – da cultura à indústria, imperava sobre o temor pela guerra.

E os focos de incêndio eram abundantes. Os eslavos estavam em ebulição, o Império Otomano procurava ocultar os sinais evidentes da decomposição… Na Rússia fermentava a revolução bolchevique. Lá longe, do outro lado do Atlântico, os grandes grupos capitalistas observavam e faziam contas. Aos olhos de todos, a guerra ia assumindo o carácter de resposta a uma situação de crise insanável.

Quando em Serajevo o príncipe do império austro-húngaro foi assassinado num atentado que se veio a descobrir ter sido perpetrado por um grupo sérvio, as coisas complicaram-se. A Sérvia contestava a presença do Império na região balcânica e embora a iniciativa de matar o príncipe tenha partido de uma organização clandestina, e a Sérvia tenha apresentado desculpas, a Àustria-Hungria declarou-lhe guerra. O que accionou múltiplos tratados de aliança e envolveu no conflito quase todas as nações europeias e não só. Portugal foi arrastado devido à sua secular aliança com Inglaterra. Dos Balcãs o conflito passou para a escala planetária.

Em 1917, os Estados Unidos entraram na guerra o que desequilibrou a balança a favor da chamada Triplice Entente e levou a uma derrota germânica. Em Versalhes, onde Bismarck espezinhara o orgulho francês, a Alemanha seria em 1918 humilhada e forçada a aceitar fortes medidas restritivas. O que iria alimentar o revanchismo alemão e propiciar a subida de Hitler ao poder –  prometia mil anos de hegemonia germânica sobre o mundo. Sabemos qual foi o resultado.

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