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DIÁRIO DE BORDO, 6 de Agosto de 2012

 

Está claro para toda a gente que o desenrolar dos acontecimentos na Síria está sob a influência de uma série de factores. Desde as ambições dos países vizinhos, a começar pelas de Israel, passando pelos conflitos religiosos tradicionais, até os sentimentos imperialistas ocidentais. Muitos governantes ocidentais julgam importante apresentar-se como mentores políticos à escala universal. Embora isso não passe de um resquício (mas um senhor resquício) da mentalidade colonial, não hesitam em proferir lições e emitir ameaças.  Entretanto, essas atitudes parecem ter acolhimento nos respectivos eleitores. Efectivamente, na proximidade de eleições redobram as manifestações públicas dos candidatos, sobre procedimentos em diversas partes do mundo que adoptariam  caso vençam as eleições em que são parte.

 

As eleições presidenciais norte-americanas, que deverão decorrer no outono, são um exemplo claro. A recente viagem de Romney à Europa e Israel foi pródiga em exemplos de como se aproveitam as problemáticas do mundo para tentar ganhar eleições. O candidato republicano  disparatou por todo o lado, mas parece que conseguiu angariar apoios substanciais para as suas pretensões.  Temos de ter muita atenção. Obama não provou grande coisa (muito pouco…), e este promete ser ainda pior. O que mais nos irá cair em cima?

 

Entretanto, sucede que Harry Reid, líder democrata no Senado, acusou Romney de não ter pago impostos durante uma data de anos. Este Harry Reid parece ser um tipo curioso. Natural do Nevada, fez uma longa carreira da política. De origem modesta, aparenta ser o que nos EUA se considera um homem de sucesso. Parece tratar-se de um tipo sem papas na língua. Há tempos, recomendou a James Dimon, patrão do JP Morgan, que perdeu uma data de dinheiro em grande parte por erros de gestão, que fosse jogar para Las Vegas. Curiosamente, pertence à igreja mórmon, tal como Romney.

 

Sobre a questão dos impostos há que ter em conta que nos EUA é levada muito a sério. É uma questão de peso. Talvez ainda mais do que a política internacional, apesar, por exemplo, da força em Washington do chamado lobby de Israel. Criou-se um suspense sobre a situação, que provavelmente vai obrigar Romney a provar que cumpriu as suas obrigações. A dúvida é se ele mostra, ou não a sua declaração de impostos. Ele ganhou imenso dinheiro com uma empresa especializada na recuperação de outras empresas, que estivessem em dificuldades. Este caso pode contribuir para o enfraquecer muito, ou pelo contrário, se se sair bem, para o fortalecer.

 

Assim a guerra civil na Síria vai ter o seu curso influenciado pela folha de impostos de Romney. A poucos meses das eleições, não é seguro que Obama queira intervir directamente no terreno, mesmo em conjunto com a Turquia ou Israel. Romney apresenta-se como um tipo duro, o que é apreciado por muita gente, nos EUA e não só. Mas os episódios eleitorais vão influenciar as decisões governamentais, de que maneira. Outros factores pesam na balança, como a notícia de que muitos iranianos têm entrado na Síria para combater ao lado de Assad.

 

A conclusão mais grave é a de que os sírios ainda vão ter muito que sofrer. E também por causa dos impostos de Romney. 

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