DIÁRIO DE BORDO, 18 de Agosto de 2012

Os dirigentes dos chamados países ocidentais parecem andar nervosos. Nos últimos dias tivemos a Inglaterra, pelo seu chanceler William Hague, parece ter chegado a ameaçar invadir a Embaixada do Equador para deitar a mão (a expressão até que é suave) a Julian Assange, e Laurent Fabius, ministro francês terá sugerido que Assad, presidente da Síria, não devesse estar na Terra (talvez conheça um ovni que o queira levar). É importante debruçarmo-nos sobre estas questões , até para conseguirmos perceber alguma coisa do que nos anda a acontecer.

No caso de Julian Assange o inglês Hague nega qualquer intenção de o mandar para os EUA, e declara ser necessária a sua extradição para a Suécia por causa dos crimes de violação de que ele é acusado naquele país. Sobre a seriedade destas acusações parece haver muitas dúvidas  (só a título de exemplo vejam o que Jean-Marc Manach escreveu, já há mais de ano e meio sobre o assunto, em http://bugbrother.blog.lemonde.fr/2010/12/08/wikileaks-julian-assange-nest-pas-un-violeur/), e quanto à celeridade e rigor da justiça inglesa veja-se só a situação do nosso compatriota Vale e Azevedo. Este afã dos responsáveis britânicos é mais um forte indício de que pretendem que Assange pague pelas denúncias feitas pelo Wikileaks, e de que o seu castigo sirva de exemplo a outros temerários que se atrevam a divulgar as manobras obscuras dos estados mais poderosos do mundo.

Quando a Fabius e aos seus démêlés (Diário de Bordo espera que estar a empregar bem o termo) com Assad, é preciso esclarecer que Assad é um ditador muito mau, culpado de muitas crueldades, mas as potências ocidentais (agora com Laurent Fabius à cabeça, e os americanos a rirem-se) vão por um caminho que talvez leve à sua deposição e à sua morte violenta, mas não à melhoria da situação da Síria e dos sírios em geral. A estratégia ocidental de lançar sunitas contra xiitas, e não só, destina-se sobretudo a isolar o Irão, mas o que está a conseguir é levar o caos a toda a região. Isso talvez seja do agrado de extremistas israelitas, de comerciantes da guerra, ou de fanáticos religiosos de várias tendências, mas nunca trará melhorias para a maioria da população. O derrube de Assad deste modo levará à sua substituição por outro poder ditatorial, mesmo que sufragado em alguma eleição feita para contentar a opinião pública ocidental. A oposição ameaça já aliar-se à Al-Qaeda, a seita cuja chefia se atribuía ao executado Bin Laden, que será seguidora do mais puro fanatismo sunita, e apoiada pela Arabia Saudita, país aliado dos EUA. E se a actual guerra na Síria já é um banho de sangue, por este caminho arrisca-se a ser muito pior.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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