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A VIDA DOS SONS”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (VI) – 4– por Álvaro José Ferreira

1973 (Continuação)

10. Falecimento do dramaturgo e actor britânico Noël Coward; filho de um vendedor de pianos, foi muito cedo encorajado pela mãe, de natureza ambiciosa, nas suas aspirações teatrais; a sua primeira peça completa levada à cena, no Verão de 1920, seria “I’ll Leave It To You”, que contava a história de um tio que prometeu deixar a sua choruda herança ao sobrinho que conseguisse ganhar mais dinheiro; o sucesso obtido foi modesto e grandemente ultrapassado pela espectacularidade de “The Vortex”, estreada no Hampstead’s Everyman Theatre, em 1924, por ocasião do vigésimo quinto aniversário de Noël Coward; tratando abertamente os temas da droga e do sexo, e contando com a sua participação no elenco, encarnando Nicky Lancaster, a peça estabeleceu Coward como actor e dramaturgo; por volta de 1930, é o dramaturgo mais bem pago de todo o mundo; para além da comédia excêntrica – sendo “Fallen Angels” (1925) e “Hay Fever” (1925), “Private Lives” (1930) e “Design For Living” (1933) exemplo da sofisticação inteligente e da provocação às convenções sociais –, Coward dedicou-se também a outros géneros; assim, em 1933 estreou “Cavalcade”, obra de cariz patriótico, e, já em plena Segunda Guerra Mundial, foi a vez de “This Happy Breed” (1942); no pós-guerra, Noël Coward continuou a escrever prolificamente mas já sem obter mesmo sucesso junto do público; só em 1963, uma onda de revivalismo fez ressurgir o interesse pela sua obra, quando “Private Lives” foi reposta em cena no Hampstead Theatre Club, originando uma sucessão de representações, incluindo algumas produções de prestígio no National Theatre; várias das suas peças tiveram versão cinematográfica, destacando-se “Vidas Íntimas” (“Private Lives”, 1931, de Sidney Franklin) [>> YouTube], “Cavalgada” (“Cavalcade”, 1933, de Frank Lloyd) [>> YouTube] e três filmes realizados por David Lean: “Esta Nobre Raça” (“This Happy Breed”, 1944) [>> YouTube], “Uma Mulher do Outro Mundo” (“Blithe Spirit”, 1945) [>> YouTube] e “Breve Encontro” (“Brief Encounter”, 1945) [>> YouTube];

11. Falecimento da actriz italiana Anna Magnani; filha de pai egípcio e de mãe italiana, nasceu em Alexandria e foi educada pela avó materna em Roma; estudou interpretação e, aos 20 anos, iniciou a sua carreira artística como cantora em “night-clubs” e bares; em 1928, fez uma pequena figuração no filme “A Migalha” (“Scampolo”, 1928), mas a falta de oportunidades cinematográficas levaram-na a optar, nos anos seguintes, pelo trabalho no teatro musicado; em San Remo, conheceu o produtor Goffredo Alessandri com quem veio a contrair matrimónio em 1933, e por influência dele conseguiu importantes papéis em “A Cega de Sorrento” (“La Cieca di Sorrento”, 1934) [>> YouTube], “Regresso à Vida” (“Tempo Massimo”, 1934) [>> YouTube] e “Uma Rapariga às Direitas” (“Teresa Venerdi”, 1941, de Vittorio De Sica) [>> YouTube]; a celebridade interna seria conquistada ao encarnar Pina, uma viúva grávida numa Roma dominada pelos nazis, em “Roma, Cidade Aberta” (“Roma, Città Aperta”, 1945), de Roberto Rossellini [>> YouTube], por quem por quem se apaixonaria e viveria um tumultuada história de amor, só terminada quando ele se virou para Ingrid Bergman; o impacto do filme foi tal que a catapultou para uma carreira internacional, trabalhando com realizadores de nomeada, como Luchino Visconti, em “Belíssima” (“Bellissima”, 1951) [>> YouTube], e Jean Renoir, em “A Comédia e a Vida” (“Le Carrose d’Or, 1952) [>> YouTube]; impressionado pela sua vivacidade e presença, Tennesse Williams dedicou-lhe uma peça, “A Rosa Tatuada” (“The Rose Tattoo”, 1955), e exigiu que a sua adaptação cinematográfica fosse protagonizada pela actriz, o que veio a acontecer nesse mesmo ano sob a direcção de Daniel Mann [>> YouTube]; nesse seu primeiro filme falado em inglês, Magnani teve uma poderosa e enérgica interpretação na pele de Serafina Delle Rose, uma viúva siciliana cortejada por um camionista (Burt Lancaster); na noite dos Óscares, suplantou as favoritas Katharine Hepburn e Susan Hayward, arrecadando a estatueta de Melhor Actriz [>> YouTube], no que foi a primeira mulher estrangeira a consegui-lo; repetiu a nomeação dois anos depois com “Selvagem É o Vento” (“Wild is the Wind”, 1957, de George Cukor), em que contracenou com Anthony Quinn [>> YouTube]; após o fracasso de “O Homem na Pele de Serpente” (“The Fugitive Kind”, 1959, de Sidney Lumet) [>> YouTube], onde fez par romântico com Marlon Brando, regressou a Itália, onde procurou concentrar as suas energias no teatro; intercalou as peças com aparições em filmes emblemáticos, como “Mamma Roma” (1962), de Pier Paolo Pasolini [>> YouTube], e “Fellini Roma” (1972), de Federico Fellini, que foi o seu último filme [>> YouTube]; a sua morte, aos 65 anos de idade, provocou uma enorme onda de comoção na capital italiana e dezenas de milhares de pessoas compareceram ao funeral da mulher que, em tantas ocasiões, simbolizara a cidade e o país;

12. Estreia do filme “A Grande Farra” (“La Grande Bouffe”), de Marco Ferreri; vencedor do Grande Prémio Especial do Júri, no Festival de Cannes de 1973, foi o filme que deu ao realizador italiano reconhecimento internacional; com um sólido elenco encabeçado por Marcello Mastroianni, Michel Piccoli, Philippe Noiret e Ugo Tognazzi, “A Grande Farra” conta a história de quatro amigos ricos de meia-idade que se encerram numa mansão e juntos fazem um pacto de suicídio, envolvendo-se numa desenfreada bacanal de comida e sexo; apesar da crítica explícita à sociedade de consumo que põe em primeiro plano os prazeres carnais, o filme obteve um assinalável sucesso internacional (em Portugal, só seria estreado depois do 25 de Abril de 1974) [>> YouTube];


13. Edição do álbum “Pré-Histórias”, de Sérgio Godinho; «Um ano volvido sobre a falada e reconhecida estreia em “Os Sobreviventes” (1972), o segundo álbum de Sérgio Godinho evidencia claros sinais de evolução e sintomas de desejo de constante mudança que o tempo tornaria característica regular em toda a sua obra posterior. O disco não é verbal nem tematicamente tão “denso” quanto o primeiro. Mantém-se viva uma natural, não amordaçada e incontornável consciência política ansiosa de urgentes transformações. “Barnabé” [>> YouTube] mostra nas entrelinhas mais um novo retrato de realidades lusas em tempos de agonia do regime. Mais que em “Os Sobreviventes”, o disco reflecte uma atenção maior a elementos da música tradicional portuguesa. Um fascínio pelo trabalho de Michel Giacometti, uma admiração continuada pela obra de José Afonso e uma confessa adesão ao lado “pícaro” de algumas canções de António Mafra sugeriram caminhos, que a personalidade de Sérgio Godinho talhou de um modo muito particular, num todo onde as influências folk também foram marcantes. Em “O’Neill (alguns poemas com endereço)” [>> YouTube] revela-se a admiração por uma obra poética: a de Alexandre O’Neill, de quem Sérgio Godinho canta palavras para as quais compôs música sua. Um dos clássicos maiores de toda a obra de Sérgio Godinho surge no alinhamento deste seu segundo álbum. Trata-se de “A Noite Passada” [>> YouTube] [>> YouTube], uma das suas mais belas canções de amor que, de certa forma, serviu de mote ao baptismo do seu primeiro álbum ao vivo (“Noites Passadas”), em 1995. Incrivelmente belo é ainda “Pode Alguém Ser Quem Não É” [>> YouTube], a única canção de toda a sua discografia que mais tarde mereceu nova versão de estúdio, registada com arranjo diferente em “Na Vida Real” (1986). Tal coma acontecera no álbum de estreia, “Pré-Histórias” foi um disco premiado, uma vez mais pela Casa da Imprensa, que o aponta como “Disco do Ano”. De comum, ambos os discos tiveram igual sorte junto ao mercado português, isto é, foram retirados pela censura pouco depois das respectivas edições» (Nuno Galopim); além das citadas, figuram no alinhamento: “Aprendi a Amar” [>> YouTube], “Eh! Meu irmão (ou mais uma canção de medo)” [>> YouTube], “Porto, Porto” [>> YouTube], “Até Domingo Que Vem” [>> YouTube], “Já a Vista me Fraqueja” [>> YouTube], “O Homem dos Sete Instrumentos” [>> YouTube];

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