O que quer isto dizer? A crença de que a mãe de Jesus se elevou, em corpo e alma após a sua morte à glória celestial, constui um dogma da Igreja Católica Apostólica Romana e é esse dogma que «justifica» este feriado que irá manter-se para católicos e não-católicos, enquanto que outros que, dizendo respeito à história pátria, englobam todos os portugueses (católicos incluídos), foram suprimidos. A elevação de Maria «em corpo e alma à eternidade, para junto de Deus, de forma definitiva» é uma explicação que para um católico é capaz de fazer sentido, mas que para um ateu, para um islamita ou budista, é completamente desprovida de significado, hermética mesmo.
Não façamos desse hermetismo um problema, pois problemas não nos faltam. Problema é, não esta «explicação», mas o facto de as celebrações de uma dada religião serem impostas a todo o povo de uma nação, enquanto são desprezadas datas que dizem, de facto, respeito a todos – o dia 1 de Dezembro marca a libertação nacional de uma ocupação estrangeira; o dia 5 de Outubro assinala a proclamação da República.
Negociou-se com a Igreja Católica a queda de dois feriados civis e dois religiosos como se fossem coisas comparáveis – a independência nacional e a subida de Maria para junto de Jeová. O que, sim, faria, sentido, seria que se mantivesse como feriados as datas referentes a factos históricos relevantes e que se extinguissem todos os feriados religiosos, consignando-se o direito de cada um a guardar os dias do calendário litúrgico da religião que professe (sem remuneração, claro).
Todas as confissões religiosas devem ser respeitadas. As convicções patrióticas também. Deixamos de celebrar o dia em que, ao cabo de 60 anos de ocupação estrangeira, nos levantámos em armas e o dia em que sacudimos um regime anquilosado e ridículo. Mas celebramos o dia em que Maria da Nazaré se elevou, em corpo e alma, etc., etc.