FRATERNIZAR – Ainda a propósito do Sínodo dos bispos – INDISSOLÚVEL?! A última palavra cabe a cada casal – por Mário de Oliveira

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Andam os bispos católicos aparentemente preocupados com o casamento canónico que eles próprios nunca puderam realizar. Não para reconherem, como deveriam, que o casamento canónico é uma invenção deles, não uma criação de Deus Abba-Mãe, o de Jesus Nazaré e dos povos. Muito menos, para reconhecerem que o casamento canónico não é o sacramento do matrimónio que eles dizem ser.  Em vez disso, todos dizem, ensinam, definem, como dogma, que, fora do casamento canónico, não há sacramento do matrimónio. Pelo que, neste seu dizer institucional, as católicas, os católicos que decidem casar, só o podem fazer com recurso ao casamento canónico, com processo e registo, devidamente pagos no cartório paroquial da noiva ou do noivo. Se se casam fora do casamento canónico, continuam, no dizer-ensinar dos bispos, a começar pelo de Roma, solteiros e em concubinato, por isso, em estado de pecado mortal. No matraquear dos bispos, nem o casamento civil, nem a simples união de facto são, para os nubentes católicos, casamento válido. Muito menos, são sacramento do matrimónio válido e lícito.

Perante esta ditadura católica dos bispos e demais clérigos católicos, o que se estranha, neste início de terceiro milénio, é que ainda haja mulheres, homens que se digam e até, façam gala de se dizer católicos. Deveriam ter vergonha de assim se dizerem, em lugar de sentirem orgulho. Como se ser simplesmente ser humano, fosse uma espécie de lepra ou de doença contagiosa, sempre a evitar. Os familiares mais velhos dos noivos católicos, mais delas do que deles, sobretudo as respectivas mães e avós, formatados pelas antigas catequeses paroquiais, fazem questão de que a filha, o filho case pela igreja e na igreja. E, surpreendentemente, continuam a ser ainda bastantes as, os que cedem a essas pressões e decidem-se pelo casamento canónico, muitas vezes, a contragosto. Saibam que, se avançam por aí, sem convicção e sem opção pessoal, pecam contra a sua própria consciência, porque tudo o que se faz sem convicção pessoal, apenas em obediência a uma tradição ou à vontade de outrem, é pecado. Apareça o primeiro teólogo que desminta esta afirmação.

Ser cristão católico é cada vez mais um estigma social. Negativo. Não uma mais-valia, como pensam, interesseiramente, alguns sectores católicos da classe média alta, ligados a grupos mais ou menos secretos da alta finança, como Opus Dei, Comunhão-e-Libertação, Canção Nova, Focolari, cujo denominador comum a todos, é o amor ao Dinheiro. Ser católico, nesses meios neoliberais, com formação académica na Universidade Católica, é coisa chique, status social, uma espécie de segregação para cima, exclusiva da da alta roda. Não admira. O Deus católico, como o Deus cristão, é o Dinheiro, e ser rico, podre de rico, é sinónimo de ser abençoado por Deus, o Dinheiro. Na realidade é ser mesmo simplesmente podre. Cínico. Inumano. Lá, onde estão, infectam o ambiente, corrompem os demais e a sociedade. É deste restrito círculo de gente-bem, melhor, de gente sem vergonha na cara, até sem cara, que o casamento canónico é hoje mais procurado. E à grande. Há sempre um bispo à mão de semear que se presta a presidir a este pecado contra a humanidade e contra Deus, e a cooperar. A igreja católica é cada vez mais dos grandes ricos. Os muito pobres que ainda a integram, são a vergonha da igreja católica. Mero objecto de alguma caridadezinha, por parte dos grandes ricos. As migalhas que caem das suas lautas mesas e das lautas mesas dos seus animais de estimação.

Ensina a dogmática católica – mas ensina errado, teologicamente errado – que só o casamento canónico é sacramento do matrimónio. E que este casamento é sempre indissolúvel. Não é verdade nem uma coisa nem outra. As populações precisam saber que o que, entre nós, portugueses, se chama “casamento canónico indissolúvel”, nasceu da mancebia política entre o estado português e o estado do Vaticano, concretamente, na Concordata de 1940, quando o fascismo era a igreja católica e a igreja católica era o fascismo. Bastaria este dado histórico, ainda em vigor, para as mulheres, os homens que tencionam casar, nunca o fazerem canonicamente, ou na igreja, como soe dizer-se. Fazê-lo, é invocar o nome de Deus em vão. Porque Deus é incompatível com o fascismo, o dogmatismo, o autoritarismo, a hierarquia ou poder sagrado. Uma igreja autoritária, clerical, dogmática é falsa e só contribui para corromper ainda mais a sociedade. Torná-la hipócrita. O sacramento do matrimónio é o sacramento da plenitude da Liberdade, não a casa de opressão-servidão. A indissolubilidade de que se fala, é a da Humanidade, não é a do casamento canónico, obrigatoriamente presidido pelo bispo, ou pelo pároco da noiva ou do noivo, ou por um outro clérigo em quem um deles delegue.

Desconhece a maioria das pessoas, particularmente, as novas gerações, que só há sacramento do matrimónio, quando dois seres humanos adultos que se amam se declaram um ao outro como marido e mulher, nem que, no limite, não haja sequer ninguém a testemunhar o acto. E declaram-se assim, para que esse seu amor seja cada vez mais fecundo, quer em qualidade de vida dos próprios e dos demais, entre e com os quais vivem, quer em quantidade, concretizada nas filhas, nos filhos que esperam vir a conceber e dar à luz, ou na adopção de filhas, filhos de outros, cujos pais faleceram ou simplesmente, os abandonaram. É por isso que o casamento canónico não é sacramento do matrimónio. O que ensina o dogma católico, a partir do Concílio de Trento até aos nossos dias, é que só há sacramento do matrimónio válido e lícito, se for precedido de um processo burocrático organizado pelo pároco da noiva ou do noivo e o casamento for presidido pelo respectivo pároco. Toda a importância é posta no pároco que preside, não nos nubentes, que são os únicos sujeitos do sacramento do matrimónio.

Este modo de agir por parte da igreja católica é uma inadmissível prepotência clerical que, só por si, invalida o sacramento do matrimónio. Dos sete sacramentos que a igreja católica reconhece, o do matrimónio é o único em que o sujeito do sacramento não é o clérigo sacerdote, mas os próprios nubentes. De modo que o sacramento do matrimónio só é indissolúvel, se os sujeitos que o realizaram e todos os dias o actualizam, permanecerem fiéis à vontade de ambos serem marido e mulher, dois-uma-só-carne, um só projecto político que os faça ser dois-uma-só-carne para o bem e a dignificação da Humanidade de que são parte consciente e cordial. Se acontecer que os dois-uma-só-carne deixam de o ser, de forma irreversível, cabe a ambos, em consciência, declararem-se não mais marido e mulher. Igualmente, para bem deles próprios e da Humanidade. Um divórcio assim, assumido em consciência por ambos, é ainda o que de melhor cada um deles tem a dar, nessa altura das suas vidas, à humanidade. A consciência de cada um e de ambos é que tem, por isso, a última palavra. Que poderá, depois, ser corroborada ou não por uma instância civil, conforme ambos entenderem.

A esta meridiana luz, fica claro que a intromissão das hierarquias das igrejas cristãs no matrimónio e nas famílias só atrapalha. Sempre atrapalha. Mas, de modo especial, no que respeita ao sacramento do matrimónio. Este sempre acontece, quando, duas pessoas, ateias que se digam, se declaram com a seriedade dos grandes momentos e das grandes decisões, marido e mulher. E pode terminar, quando as mesmas duas pessoas se declaram divorciadas. Obviamente, só sociedades amadurecidas e pessoas humanas adultas e responsáveis são capazes de ir por aqui. Nunca, porém, se chegará aqui, enquanto pastores e clérigos de igrejas se intrometerem e chamarem a eles o protagonismo que só aos nubentes pertence por inteiro. Semelhante intromissão clerical de séculos de catolicismo-protestantismo-islamismo, tem contribuído para a perpetuação da etapa infantil da humanidade. O que, objectivamente, é pecado contra a humanidade e contra o Projecto político maiêutico de Deus Abba-Mãe, o de Jesus e dos povos. Não o Deus dos clérigos nem dos pastores e afins. Que o deles é o Dinheiro.

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