13. Estreia do filme “Falamos de Rio de Onor”, de António Campos; rodado entre Outubro de 1972 e Agosto de 1973, é um dos documentários mais importantes de António Campos, depois de “Almadraba Atuneira” (1961) e de “Vilarinho das Furnas” (1971); sinopse: a aldeia raiana de Rio de Onor, no extremo norte do concelho de Bragança, manteve até há pouco tempo, graças ao seu isolamento, velhos costumes comunitários nas práticas agrícolas e pastoris, que faziam dela um núcleo populacional inconfundível e de grande interesse etnológico/antropológico; alguns habitantes defendem que ainda subsiste algo desse modus vivendi, mas o pároco afirma que tudo isso pertence ao passado;
14. Estreia do filme “A Promessa”, de António de Macedo; ante-estreado no Festival de Cinema de Santarém, em Novembro de 1972, o filme fez parte da selecção oficial do Festival de Cinema de Cannes, em Maio de 1973, mas devido a várias vicissitudes só teria estreia comercial no dia 21 de Janeiro de 1974, no cinema Condes; realizado por António de Macedo, a partir da peça homónima de Bernardo Santareno (pela primeira vez levada à cena em 1957), “A Promessa” é uma das obras mais significativas do cinema novo português; sinopse: numa aldeia de pescadores, Maria do Mar (Guida Maria) e José (João Mota), jovens prometidos, fazem, num momento de aflição, o voto de permanecerem castos (como a Virgem Maria e São José) se o pai do noivo, Salvador, cujo barco fora apanhado por uma tempestade, se salvar (o que vem acontecer, ainda que aleijado das pernas); entretanto, é oficializado o casamento e José empenha-se no cumprimento da promessa, tornando-se mesmo sacristão, mas Maria do Mar não se resigna à ideia de não ter um marido como as outras mulheres e de não poder ser mãe; Labareda (Sinde Filipe), um jovem e atraente contrabandista acolhido pelo casal, depois de ter sido alvejado, irá pôr à prova a castidade de Maria do Mar e, por arrastamento, a fé de José; ao contrário do que fizera Paulo Rocha no filme “Mudar de Vida” (1966) [>> YouTube], que também se desenrola numa típica povoação piscatória, António de Macedo não tenta fazer, em “A Promessa”, o retrato de uma sociedade maioritariamente pobre e sem esperança de um futuro melhor na sua terra, mas explora o confronto de duas forças antagónicas: de um lado, a influência castradora e auto-repressiva que o catolicismo exerce sobre as pessoas mais simples e crédulas; do outro, a força imperativa da vida e do amor; todo o filme tem, por isso, uma espécie de aura esotérica que vai ao encontro dos interesses do próprio autor, que se diz anarco-místico; nesse contexto, se entendem o uso da cor, do nevoeiro, de planos em câmara lenta e de uma certa representação mais teatral ou, como diria o realizador, mais melodramática – porque o povo português é melodramático; também merecedora de destaque é a fotografia de Elso Roque, em consonância com o misticismo de António de Macedo, designadamente na poderosa cena da violação e na pictórica cena final [>> YouTube];
15. Estreia do filme “Sofia e a Educação Sexual”, de Eduardo Geada;«Regressada de um colégio na Suíça, após a morte da mãe, Sofia (Luísa Nunes) instala-se numa “villa” que a família tem em Cascais. Descobre que seu pai, Henrique (Artur Semedo), dada a relação que tem com a amante Laura (Io Apolloni), leva uma vida social complexa, egoísta e hipócrita. Percebe então que não pode escapar a um destino que desconhecia.» (José de Matos-Cruz, in “O Cais do Olhar”, Cinemateca Portuguesa, 1999); rodado em 1973, o primeiro filme de Eduardo Geada teria a primeira apresentação pública, a 30 de Julho de 1974, no Cinema Império, no âmbito do XI Ciclo da Casa da Imprensa, chegando ao circuito comercial a 1 de Outubro de 1974 (no cinema Estúdio 444, em Lisboa); era um dos filmes proibidos pela Censura marcelista, e não é difícil de adivinhar o motivo: a crítica à sociedade portuguesa, tendo como foco a alta burguesia, acrescida da ousadia de pôr a nu a hipocrisia e os preconceitos sexuais que a ditadura cultivava – desmascarando-os, despindo o corpo feminino e erotizando-o, dando a ver o que as roupagens cinzentas de anos e anos de repressão teimavam em esconder [>> YouTube] [>> YouTube];
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