A ViIDA DOS SONS”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (VII) – 7- por Álvaro José Ferreira

1974 (Conclusão)

16. Estreia do filme “Amarcord”, de Federico Fellini; com argumento do próprio Fellini e de Tonino Guerra, o filme é simultaneamente uma comédia e um drama fantasista; “Amarcord” é um termo que em dialecto da região de Emilia-Romagna significa “recordo-me”; foi esse o mote programático que o realizador italiano usou: uma reinvenção das suas lembranças de adolescência tornadas retrato irónico e fantasista da Itália dos anos 30, onde é impossível destrinçar aquilo que Fellini viveu verdadeiramente daquilo que inventou, pois como ele próprio disse: «uma certa tendência para uma interpretação fantasiosa das coisas, uma certa visionação, creio que sempre tive»; passado na cidade adriática de Rimini, terra natal do realizador, alguns anos antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, o filme mostra a vida de Titta Biondi (Bruno Zanin), um jovem oprimido entre o ensino católico, a ordem fascista e o ambiente familiar; entre o sonho e a realidade, Titta vai vivendo momentos que se tornarão inesquecíveis: a passagem de um transatlântico, o rali das Mil Milhas, a morte da mãe, Miranda Biondi (Pupella Maggio), o despertar para a sexualidade, etc.; contando os episódios da vida de Titta, Fellini constrói um quadro social bizarro e carnavalesco (tema que se tornou, aliás, imagem de marca da sua obra), repleto de detalhes, centrado nas personagens excessivas e que roçam o caricatural, embora sempre detentoras de enorme densidade humana; organizado como um conjunto de episódios que desafia os cânones narrativos clássicos, cada plano é trabalhado como se fosse um quadro vivo – para o que muito contribui a fotografia de Giuseppe Rotunno [>> YouTube]; digna de registo é também a banda sonora de Nino Rota [>> YouTube], colaborador habitual de Fellini; nomeado para três Óscares, “Amarcord” arrecadou a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro;

17. Edição do álbum “Coro dos Tribunais”, de José Afonso; «Do seu conteúdo de imediato ressalta “aquela” linguagem “surrealista” de José Afonso, na linha de “Venham Mais Cinco” (1973), constituindo uma nítida demarcação do seu autor em relação ao “folclore” revolucionário reinante. Servindo poemas de Bertolt Brecht, adaptados por José Afonso na versão de Luiz Francisco Rebello, surgem “Coro dos Tribunais” [>> YouTube], “Coro dos Tribunais (Final)” [>> YouTube] e “Eu Marchava de Dia e de Noite (Canta o Comerciante”) [>> YouTube]; os restantes temas, com letra e música de José Afonso, são “O Homem Voltou” [>> YouTube], “Ailé! Ailé!” [>> YouTube], “Não Seremos Pais Incógnitos” [>> YouTube], “O Que Faz Falta” [>> YouTube], “Lá no Xepangara” [>> YouTube], “Tenho um Primo Convexo” [>> YouTube], “Só Ouve o Brado da Terra” [>> YouTube] e “A Presença das Formigas” [>> YouTube]. Gravado em Londres, em Novembro de Dezembro de 1974, “Coro dos Tribunais” contou com a colaboração de Fausto (arranjos, direcção musical e guitarra acústica), do francês Michel Delaporte (percussões), de Adriano Correia de Oliveira (vozes e cordas), de Carlos Alberto Moniz (viola, vozes e cordas), de José Niza (vozes e cordas), de Vitorino (teclados, vozes e cordas) e do brasileiro Yório Gonçalves (2.ª viola).» (Mário Correia);

18. Edição do álbum “P’ró Que Der e Vier”, de Fausto Bordalo Dias; «Gravado em Madrid, em Abril de 1974, e concluído em Lisboa, em Outubro do mesmo ano, “P’ró Que Der e Vier” foi produzido por Adriano Correia de Oliveira (Madrid) e José Niza (Lisboa), sendo Fausto o autor de todas as letras e músicas (bem como responsável pelos respectivos arranjos e direcção musical) à excepção de “Daqui Desta Lisboa” (poema de Alexandre O’Neill / música de António Pedro Braga e Fausto) [>> YouTube], “Carta de Paris” (poema de Daniel Filipe), “Não Canto Porque Sonho” (poema de Eugénio de Andrade / música de António Pedro Braga e Fausto) [>> YouTube], “P’ró Que Der e Vier” (letra e música de António Pedro Braga e Fausto) [>> YouTube], “Comboio Malandro” (poema de António Jacinto) [>> YouTube], “O Homem e a Burla” (letra e música de António Pedro Braga e Fausto) [>> YouTube] e “A Flóber” (poema de Mário-Henrique Leiria / música de António Pedro Braga e Fausto). Os restantes temas são “É Tão Difícil” [>> YouTube], “Venha Cá Senhor Burguês” [>> YouTube], “Marcolino” [>> YouTube] e “O Patrão e Nós” [>> YouTube]. Em “P’ró Que Der e Vier”, Fausto assume de forma evidente aquelas que serão as coordenadas básicas da sua música: a influência de circunstância anti-demagógica mas directa e contundente; e a simbiose de influências múltiplas. De referir ainda as colaborações de Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Vitorino, António Portanet e Júlio Pereira, entre outros.» (Mário Correia). Todos (ou quase todos) estes itens podiam ser devidamente ilustrados, ora com registos do arquivo da RDP (entrevistas, adaptações de peças de teatro e de obras romanescas, recitações de poemas, etc.) ora, no caso de repertório musical, com gravações discográficas. Não cabia tudo em 50 minutos? Problema nada difícil de resolver: em vez de uma única edição (lacunar, espartilhada e cinzenta), façam duas – mais completas, desafogadas e variegadas.

Renova-se o pedido: deseja-se que “A Vida dos Sons” seja menos cinzenta e mais multicolor. Pedido que fica formulado, obviamente, para a eventualidade do programa regressar com uma série posterior a 1974. Textos relacionados: “A Vida dos Sons”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor “A Vida dos Sons”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (II) “A Vida dos Sons”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (III) “A Vida dos Sons”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (IV) “A Vida dos Sons”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (V) “A Vida dos Sons”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (VI)

Publicada porÁlvaro José Ferreiraem18:32


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