Praia, vento, o papagaio rasgou-se, partiram-se as varetas. Corriam as lágrimas pela cara do Joãozinho. Não podíamos ficar assim.
– Já sei!
– O quê, pai, o quê?
– Tu é que vais ser o papagaio. Abre bem os braços. Assim! Agora tira o pirolito cá para fora!
– Para quê, pai?
– Para poderes voar é preciso amarrar-te a guita na gaita.
Rebolou-se na areia, a rir. Soluçou a-gui-ta-na-gai-gai-ta. Chorava de rir. Mas convidou-me ainda:
– E depois, pai? Conta.
– Depois tu sobes bem alto e eu fico cá em baixo a esticar a guita para tu não caíres, como aconteceu ao papagaio. Até as gaivotas vão ficar assustadas com a altura a que vais subires. E ficas lá em cima, a balançar de um lado para o outro. E hás-de ver o mar todo. E hás-de ver Lisboa, hás-de ver Portugal inteiro. Depois eu dou-te mais guita e hás-de ver a Espanha. Depois a França e então vais dizer adeus para o Toino que está em Paris, a trabalhar. E o Toino vai apontar para ti e vai dizer: aquele passarão, lá muito no alto, é o meu mano mais novo, é o Joãozinho. E os franceses vão pensar que o Toino é maluco.
– E depois, pai? Conta.
– Depois começa a anoitecer e a ficar frio. E o que é que tu me dizes?
– Eu digo: ó pai, puxa! puxa que eu quero descer.
– E o que é que eu faço?
– O pai enrola a guita, enrola, enrola, e eu desço.
– E onde é que está amarrada a guita?
– A guita na gaita.
Voltou a rir. Muito. Estava feliz com a viagem lá pelos ares, e eu com ele.
Durante o almoço, na tasca; durante todo o santo dia tive que lhe contar e recontar a história do menino-papagaio.
Quando, à noite, a mãe o foi deitar, ainda falou na guita e na gaita e adormeceu a rir.