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DIÁRIO DE BORDO, 21 de Setembro de 2012

Joseph Stiglitz é um senhor de quase setenta anos, que parece ter feito algumas coisas importantes na vida. Entre elas,  contam-se uns trabalhos que demonstram o funcionamento assimétrico dos mercados e que estes só funcionam perfeitamente em circunstâncias excepcionais. Pôs assim em causa a teoria económica clássica, que assente no princípio do funcionamento perfeito dos mercados.  Foi por isso que recebeu o Prémio Nobel da Economia em  2001, em conjunto com George A. Akerlof e A. Michael Spence. Tenham presente que essa teoria económica clássica é um dos principais suportes ideológicos dos governos da UE, com destaque para o português.

Em Maio do ano passado escreveu um artigo para a Vanity Fair intitulado  Of the 1%, by the 1%, for the 1%, portanto, Sobre os 1%, pelos 1%, para os 1%. Nesse artigo começa assim: “Os americanos têm observado protestos maciços contra regimes opressivos que concentram riqueza maciça nas mãos de uma pequena elite. Mas na nossa democracia, 1 por cento das pessoas levam quase um quarto do rendimento da nação – uma desigualdade que os próprios ricos vão acabar por lamentar.”

O título do artigo levou ao lema dos Occupy Wall Street: Nós somos os 99 por cento. Assim saltou à vista de toda a gente o terrível conflito de classes que está a destruir o nosso planeta, pois é verdade que, apesar de toda esta exposição aos olhos da opinião pública, a maioria das pessoas continua descrente, não só dos políticos em geral, mas mesmo das possibilidades de inverter esta situação, deixando-se arrastar pelas gigantescas operações de lavagem ao cérebro postas em acção através da comunicação social e dos restantes sistemas de reprodução ideológica, que funcionam integrados nas diferentes instituições e sistemas sociais em que nos integramos.

Joseph Stiglitz  não aparenta o perfil de um ideólogo político. Deu uma excelente entrevista para o El País do domingo passado (a Sandro Pozzi e Colin McPherson), dia 16 de Setembro, em que recorda que a desigualdade num contexto de crescimento económico foi o tema da sua tese de doutoramento. Afirma ainda que o sentimento que está a apoderar-se de muitos americanos de se estar a esfumar o sonho de uma sociedade de igualdade justa, de igualdade de oportunidades, é para eles devastador. É claro e directo a afirmar que a austeridade vai rebentar com a economia, e que isso se está a ver na Espanha, na Grécia ou no Reino Unido (não fala de Portugal). Que reduzir o Governo vai levar os EUA à mesma situação da Europa, e que isso será um desastre. Recorda que até o FMI já percebeu e diz que a desigualdade é má para a economia porque faz aumentar a instabilidade.

Este senhor põe em causa o sistema capitalista, sem dúvida. No trecho do artigo do Vanity Fair que reproduzimos acima denota alguma ingenuidade, parecendo acreditar na possibilidade de, um dia, os ricos lamentarem uma concentração de riqueza tão grande.  E a entrevista não incluía nenhuma pergunta sobre o imperialismo. De qualquer modo, Stiglitz diz-nos que quase metade da população norte-americana é pobre ou tem rendimentos abaixo da média. E que os ricos dizerem que compensam a sociedade com obras de filantropia não é alternativa. Dá ideias muito importantes sobre o desastre que é o capitalismo, embora não o renegue. Na entrevista informa que pretende lançar um debate sobre O preço da desigualdade. Como a divisão social põe o nosso futuro em perigo. Será interessante acompanhar.

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