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EM VIAGEM PELA TURQUIA –10 – por António Gomes Marques

(Continuação)

III – Heraclito, fundador da dialéctica

No célebre fragmento 30: «Esta ordem do mundo, não a criou nenhum dos deuses, nem dos homens, mas sempre foi, é e será: um fogo sempre vivo, que se acende com medida e com medida se extingue», viu Lénine uma «excelente exposição dos princípios do materialismo dialéctico» (11).

Diz-nos Engels, no “Anti-Düring”: «Quando submetemos ao exame do pensamento a natureza ou a história da humanidade, ou a nossa própria actividade espiritual, oferecemos desde logo a imagem de um complexo infinito de relações, de acções e reacções, em que nada permanece, qualquer que seja a sua natureza, a sua situação ou a sua qualidade. Tudo se move, transforma, nasce e passa. Semelhante concepção do mundo, espontânea, ingénua, mas objectivamente verdadeira, é a da antiga filosofia grega, desde logo expressa por Heraclito.» (12)

 De facto, Heraclito afirma que tudo está em mudança, nada permanece parado, como no já citado fragmento 90.

A mudança, o movimento e o devir dominam toda a dialéctica de Heraclito.

A constante mudança no mundo exprime-a Heraclito utilizando a metáfora da guerra: «A guerra é a origem de todas as coisas e de todos ela é soberana, e a uns ela apresenta-os como deuses, a outros, como homens; de uns ela faz escravos, de outros, homens livres» (fr. 53) e ainda: «É necessário saber que a guerra é comum e que a justiça é discórdia, e que tudo acontece mediante discórdia e necessidade» (fr. 80), só assim sendo possível o equilíbrio. Se esta luta cessasse, o mundo tornar-se-ia imutável e portanto morto. «Para Heraclito a torrente universal é simultaneamente um processo de aparecimento e desaparecimento das coisas. O que nasce morre ao mesmo tempo, o que existe não existe. O processo de aparecimento e desaparecimento das coisas, do nascimento e da morte, da aproximação e do afastamento está ligado ao tempo e restaura o tempo, constituindo o presente uma espécie de fronteira inatingível entre o passado e o futuro… Aos olhos de Heraclito, a natureza das coisas é móvel, a essência da vida, activa. O Cosmos é um processo, o mundo um conjunto de coisas tomadas no turbilhão da existência. Assim é que ele concebia o mundo. Tudo o que se move, vive; tudo o que vive, move-se; o repouso e a imobilidade são “atributos” dos mortos.» (13)

Diz Heraclito no fragmento 88: «E como uma mesma coisa, existem em nós a vida e a morte, a vigília e o sono, a juventude e a velhice pois estas coisas, quando mudam, são aquelas e aquelas, quando mudam, são estas» e no fragmento 10: «As coisas em conjunto são o todo e o não-todo, algo que se reúne e se separa, que está em consonância e em dissonância; de todas as coisas provém uma unidade, e de uma unidade, todas as coisas».

Para mostrar o devir das coisas utiliza a imagem do rio (como já dissemos), o que Platão e Aristóteles lhe criticaram, dado que muitas coisas há que parecem estáveis, como, por exemplo, uma pedra. É natural que Heraclito pensasse que mesmo as coisas que parecem estáveis estão sujeitas a mudanças, no entanto, o desenvolvimento científico no seu tempo não lhe permitia grandes avanços na matéria. Daí que ele depositasse uma grande confiança nos sentidos, como nos prova o fragmento 55: «As coisas que se podem ver, ouvir e conhecer, são as que eu prefiro».

 A substância que ele considera como primordial é o fogo (frs. 30 e 91).

Este fogo constitui a ordem do mundo, e nada tem de corpóreo, não devendo nós pensar que tudo se transforma em fogo e vice-versa, porquanto também as mercadorias se trocam por ouro sem se transformarem neste metal, o que, de imediato, nos lembra Marx quando, n’ O Capital, nos fala da transformação da mercadoria em dinheiro e da retransformação do dinheiro em mercadoria, podendo nós considerar a metáfora de Heraclito como não inocente na medida em que ela pode ser um reflexo da sociedade mercantil em que vivia.

O fogo de Heraclito é uma força imperecível em constante actividade.

Mas este discorrer sobre o pensamento de Heraclito não pode fazer-nos esquecer a necessidade de o situar sempre no seu tempo, lembrando a sua luta para levar os homens seus contemporâneos a reflectirem sobre o que vêem, para o que necessitam de estar em vigília constante. Esta é, talvez, a grande lição de Heraclito.

 Em Heraclito o homem não é já o homem selvagem que se confunde com a natureza e que aos fenómenos naturais reage instintivamente. O uso da dialéctica como método que é permitiu apenas a Heraclito a tomada de consciência de que o movimento resulta de uma luta de contrários. Para o Efesiano, o dia e a noite, o bem e o mal, o caminho para cima e o caminho para baixo, em suma, todos os contrários, não podem conceber-se independentemente uns dos outros. Este carácter activo, que se manifesta na luta dos contrários, foi Heraclito o primeiro a compreendê-lo. E é graças a esta luta dos contrários que o movimento e a mudança são uma constante. É esta luta eterna que gera a vida.

 Por outro lado, não podemos conceber um contrário sem o outro, o que gera a harmonia de que já falámos, que não deve confundir-se com conciliação: o belo não existe sem o feio, isto é, harmonizam-se mas não se conciliam.

(Continua)

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