Diz Lénine: «On peut définir brièvement la dialectique comme la théorie de l’unité des contraires. Par là on saisira le noyau de la dialectique…». (14)
É certo que a lei da passagem do quantitativo ao qualitativo e a lei da negação constituem com a primeira as três leis fundamentais da dialéctica, embora não as únicas. Mas ao invocarmos a autoridade de Lenine mais não pretendemos do que concluir ser Heraclito um dos fundadores da dialéctica, no sentido que a filosofia materialista lhe dá.
Há que acrescentar, no entanto, que o desenvolvimento da ciência que esteve ao alcance do Efesiano, como já dissemos, não era de molde a fornecer-lhe o conhecimento das leis objectivas que lhe permitissem passar da contemplação à acção. O sujeito e o objecto não estão separados, formam uma unidade. O papel activo do sujeito não pode ser subestimado. A actividade humana tem que ser tomada como actividade objectiva no sentido em que não é apenas capaz de intervir no real como também de transformá-lo (uma experiência científica, por ex.).
Escreve Marx n’ «A Ideologia Alemã»:
«A primeira condição de toda a história humana é evidentemente a existência de seres humanos vivos. O primeiro estado real que encontramos é então constituído pela complexidade corporal desses indivíduos e as relações a que ela obriga com o resto da natureza. Não poderemos fazer aqui um estudo aprofundado da constituição física do homem ou das condições naturais, geológicas, orográficas, hidrográficas, climáticas e outras, que se lhe depararam já elaboradas. Toda a historiografia deve necessariamente partir dessas bases naturais e da sua modificação provocada pelos homens no decurso da história.
Pode-se referir a consciência, a religião e tudo o que se quiser como distinção entre os homens e os animais; porém, esta distinção só começa a existir quando os homens iniciam a produção dos seus meios de vida, passo em frente que é consequência da sua organização corporal. Ao produzirem os seus meios de existência, os homens produzem indirectamente a sua própria vida material.
A forma como os homens produzem esses meios depende em primeiro lugar da natureza, isto é, dos meios de existência já elaborados e que lhes é necessário reproduzir; mas não deveremos considerar esse modo de produção deste único ponto de vista, isto é, enquanto mera reprodução da existência física dos indivíduos. Pelo contrário, já constitui um modo determinado de actividade de tais indivíduos, uma forma determinada de manifestar a sua vida, um modo de vida determinado. A forma como os indivíduos manifestam a sua vida reflecte muito exactamente aquilo que são. O que não coincide portanto com a sua produção, isto é, tanto com aquilo que produzem como com a forma como produzem. Aquilo que os indivíduos são depende portanto das condições materiais da sua produção.
Esta produção só aparece com o aumento da população e pressupõe a existência de relações entre os indivíduos. A forma dessas relações é por sua vez condicionada pela produção.» (15)
É na relação específica que estabelece com a natureza que o homem se define, a qual é conseguida por meio do trabalho.
Explicado o papel activo do sujeito, há ainda que considerar, no conhecimento, a acção dos objectos, das coisas sobre o sujeito.
Aceite, não só pela longa transcrição de «A Ideologia Alemã» como também pela Tese 6 das «Teses sobre Feuerbach», que o homem «é o conjunto das relações sociais», e considerada a actividade humana como objectiva (Tese 1) e, ainda, que o homem conhece ao agir sobre a natureza, transformando a realidade, o que ao mesmo tempo permite a apreensão subjectiva dessa realidade, ou seja, a realidade objectiva –as coisas em si- é reflectida na consciência do homem com a participação de um factor subjectivo, que o mesmo é dizer que o conhecimento é um reflexo das «coisas em si» só possível graças ao aparelho cognitivo do homem, do sujeito, dependendo este conhecimento não só da própria realidade objectiva como também da prática de que o sujeito é detentor, o que é determinante para que uma dada realidade objectiva não seja apreendida de maneira idêntica por vários homens: um cientista pode conhecer um objecto com uma profundidade que não está ao alcance de um pastor, pois as suas práticas são diferentes, donde se conclui que o reflexo da realidade no espírito humano é condicionado pela prática, sendo esse reflexo uma imagem do objecto real.
O nosso avanço em relação a Heraclito é considerável, mas o seu contributo para tal avanço não pode nem é esquecido.
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Notas:
1) Kostas Axelos: Héraclite et la Philosophie. Éd. De Minuit. Paris, 3e. édition, 1971, pg. 26. 2) T. Kassidi: As origens da dialéctica materialista. Pg. 43. 3) in «Os Filósofos Pré-Socráticos», de G. S. Kirk e J. A. Raven. Trad. De C. A. Louro Fonseca/Beatriz Rodrigues Barbosa/Maria Adelaide Pegado. Fund. Calouste Gulbenkian. Lisboa, Fevereiro 1979. Na edição da INCM, Lisboa, 2005, de Alexandre Costa, Heraclito-Fragmentos Contextualizados, a tradução é como segue: «de todos a guerra é pai, de todos é rei; uns indica deuses, outros, homens; de uns faz escravos, de outros, livres». 4) J. Burnet: L’Aurore de la Philosophie Grecque, pg. 161. 5) Ver nota 2, pg. 29. 6) Citado por José Barata Moura in «Totalidade e Contradição – àcerca da dialéctica». Livros Horizonte. Lisboa 1977, pgs. 54/5. 7) Na obra editada pela INCM, citada em 3): «todas as coisas se trocam a partir do fogo, e o fogo, a partir de todas as coisas, como do ouro as mercadorias e das mercadorias o ouro» De todos os fragmentos que citarmos, o leitor tem outra opção de tradução nesta edição, que não voltaremos a referir. 8) idem, idem, pg. 57. 9) idem, idem, pg. 58. 10) Posfácio da 2.ª edição alemã (1873) de O Capital. Centelha, Coimbra. 11) Lenine: Oeuvres – tome 38-Cahiers philosophiques, Éd. Sociales-Paris/Éditions du Progrès-Moscou, 1971, pgs. 211. 12) Engels: Anti-Düring, pg. 29. 13) Ver nota 2), pgs. 175 e 177. 14) Ver nota 9), pg. 211. 15) Karl Marx: A Ideologia Alemã, pgs.18/9. BIBLIOGRAFIA Théohar Kessidi: «As origens da dialéctica materialista». Trad. de Rui M. M. Carvalho. Prelo Editora, Lisboa, 1976. J. Burnet: «Láurore de la Philosophie Grecque». Trad. de A. Reymond. Payot, Paris, 1970. G. S. Kirk e J. E. Raven: «Os Filósofos Pré-Socráticos». Trad. de C. A. Louro Fonseca e outros. Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa, 1979. Karl Marx: «Teses sobre Feuerbach». Trad. policopiada de Álvaro Pina. «A Ideologia Alemã». Edit. Presença, 2.ª edição. Lisboa, 1975. Lenine: «Oeuvres, tome 38 – Cahiers philosophiques». Éd. Sociales-Paris/Éditions du Progrès-Moscou. 1971. Gheorghi Plekhanov: «Les Questions fondamentales du marxisme». Éd. Sociales-Paris/Éditions du Progrès-Moscou. 1974. José Bara Moura: «Totalidade e Contradição – Àcerca da Dialéctica». Livros Horizonte. Lisboa, 1977.
