II – Heraclito e Hegel
Georges Gurvitch, no livro “Dialéctica e Sociologia” (Publ. D. Quixote, pg. 47), afirma que é por influência de Hegel que se considera Heraclito o primeiro dialéctico, com o que não concorda.
É facto ter Hegel afirmado que não havia afirmação de Heraclito que ele não houvesse incorporado na sua Lógica. Mas, podemos perguntar, a interpretação que Hegel faz de Heraclito terá algo a ver com o que deverá ser entendido como o verdadeiro pensamento do Efesiano?
Dizia Hegel: «Tudo o que nos rodeia pode ser considerado como um exemplo do dialéctico. Nós sabemos que todo o finito, em vez de ser algo de fixo e de último, é antes transformável e transitório; (ora,) isto não é senão a dialéctica do finito, pela qual ele (o finito), enquanto em si é diferente (outro) de si próprio, também é lançado para fora e para além daquilo que ele imediatamente é e torna-se no seu contrário» (6).”
A concepção metafísica da imutabilidade das coisas é aqui negada por Hegel, no que concorda com Heraclito, para quem a mobilidade constante das coisas é um dado da experiência, a qual resulta da observação atenta dos fenómenos naturais. Heraclito, no fragmento 90: «Todas as coisas são uma troca igual pelo fogo e o fogo por todas as coisas, como as mercadorias o são pelo ouro e o ouro pelas mercadorias.» (7).
Heraclito parte das coisas da natureza para a sua investigação. Nessa investigação, Heraclito é surpreendido pelo constante devir das coisas, isto é, pela sua constante mobilidade. «A sabedoria consiste numa só coisa, em conhecer, com juízo verdadeiro, como todas as coisas são governadas através de tudo» (fr. 41). No fragmento 55 diz: «As coisas que se podem ver, ouvir e conhecer, são as que eu prefiro», mas atenção, «a verdadeira constituição das coisas gosta de ocultar-se» (fr. 123).
Esta mobilidade constante das coisas (de que é exemplo a imagem do rio que ele utiliza), essa mobilidade, dizíamos, é um dado da experiência, que Heraclito explica pela luta dos contrários, cuja unidade ele nos mostra ao afirmar: «O caminho a subir e a descer é um e o mesmo» (fr. 60), «a água do mar é a mais pura e a mais poluída; para os peixes é potável e salutar, mas para os homens é impotável e deletéria» (fr.61).
É também pela experiência que se verifica a unidade dos contrários e, ao mesmo tempo, que cada par de contrários constitui uma pluralidade pois que «as coisas em conjunto são o todo e o não-todo, algo que se reúne e se separa, que está em consonância e em dissonância; de todas as coisas provém uma unidade, e de uma unidade, todas as coisas» (fr. 10). Mas desta luta de contrários nasce a mais bela harmonia, havendo que compreender que «… o que está em desacordo concorda consigo mesmo: há uma conexão de tensões opostas, como no caso do arco e da lira» (fr. 51), harmonia esta que se mantém na discórdia sem fim entre contrários e «é necessário saber que a guerra é comum, e que a justiça é discórdia, e que tudo acontece mediante discórdia e necessidade» (fr. 80), já que «a guerra é a origem de todas as coisas e de todas ela é
Mas de uma concordância entre Hegel e Heraclito chegamos a uma discordância ao desenvolver o pensamento deste último. Enquanto em Heraclito os contrários nunca se conciliam, o seu estado permanente é a guerra, a harmonia dos opostos nada tem a ver com conciliação como vimos no fr. 51, em Hegel os opostos estão em constante conciliação. Diz Hegel: «Nós chamamos, porém, dialéctica ao superior movimento racional no qual tais (termos: ser e não-ser) que parecem absolutamente separados se transformam um no outro, por si próprios, através daquilo que são; assim, o pressuposto (da sua separabilidade) é superado. Faz parte da própria natureza dialéctica imanente do ser e do nada que eles mostrem a sua unidade, o devir, com a sua verdade» (8).
Para Hegel, a dialéctica contém três momentos: a afirmação, a negação e a negação da negação. Afirma-se que o ser é e logo somos levados ao seu contrário: o ser não é pois de outra forma aquele ser é equivaleria ao nada se não fosse determinado. Mas esta negação será por sua vez negada e teremos o terceiro momento: o ser é devir, ultrapassando-se assim a contradição mas conservando as duas proposições opostas conciliadas. Esta síntese (o terceiro momento) dará por sua vez origem à sua negação que, por sua vez, será superada por uma nova síntese e assim sucessivamente.
«No fundo para Hegel, o processo real é a manifestação do Espírito; o Todo de que importa dar conta é o Espírito, que num final momento sintético tudo conterá em si, inclusivamente, a plena consciência do seu ser, do todo que é e foi sendo» (9). Diz Marx: «Para Hegel, o movimento do pensamento que ele personifica com o nome de Ideia, é o demiurgo da realidade, que não é senão a forma fenomenal da Ideia. Para mim, pelo contrário, o movimento do pensamento é apenas o reflexo do movimento real, transposto e traduzido no cérebro do homem.» (10)

Estou a rever o texto de «Em Viagem pela Turquia», onde encontrei jum erro grave na linha 8, onde está (o infinito) deve estar (o finito). Vou escrever todo o período de novo:
“Dizia Hegel: «Tudo o que nos rodeia pode ser considerado como um exemplo do dialéctico. Nós sabemos que todo o finito, em vez de ser algo de fixo e de último, é antes transformável e transitório; (ora,) isto não é senão a dialéctica do finito, pela qual ele (o finito), enquanto em si é diferente (outro) de si próprio, também é lançado para fora e para além daquilo que ele imediatamente é e torna-se no seu contrário» (6).”
Contactámos rapidamente o Hegel – respondeu que «a ideia não tem pressa», mas lá autorizou a que trocássemos o infinito pelo finito – o que não foi grande negócio. Mas está feito. O Wilhelm Friedrich manda-te um abraço.