Do que transcrevemos já dá para se ter uma ideia desta maravilhosa cidade, onde o comércio e a religiosidade se confundiam, como as palavras de Teixeira de Pascoaes bem mostram, convivendo na história da cidade traços de várias religiões: orientais, egípcios, gregos, romanos, judaicos. O próprio Estrabão a Éfeso se refere como « o maior centro de comércio que havia na Ásia». Mas na nossa suspeita opinião, é em Éfeso, e também em Mileto, ali perto, que nasce o que viria a constituir uma mudança, que a História da Filosofia regista, verdadeiramente fundamental para o pensamento ocidental. Em Mileto registamos a teoria física de grandes filósofos: Tales, Anaximandro e Anaxímenes; mas é em Éfeso que surge um outro grande filósofo, que desenvolve uma teoria física de grande originalidade: Heraclito de Éfeso, nome com que é registado na História da Filosofia, que muito contribuiu também para qualificar, naquele tempo, Éfeso como a «mais ilustre de todas as cidades» da Ásia, como pode verificar-se por uma inscrição numa pedra que os achados arqueológicos preservaram.
Éfeso acaba por perder o seu esplendor no século III, quando os Godos pilharam e incendiaram a cidade, degradando-se lentamente, diminuindo as suas actividades comerciais de tal modo que, com o depósito de areias trazidas pelo rio, o próprio porto ficou inutilizável.
Não podemos, no entanto, encerrar o relato deste dia sem prestarmos uma sentida, mas modesta, homenagem a um dos filósofos que mais atenção nos têm merecido ao longo de muitos e muitos anos, o acima referido Heraclito de Éfeso, com o texto que a seguir vos apresentamos:
Heraclito, Fundador da Dialéctica
Heraclito, pintura de Johannes Moreelse
Heraclito é natural de Éfeso, na Ásia Menor, nascido ao que se julga entre 544/541 antes da nossa era, descendente da família real de Ândroclo.
Renuncia aos seus direitos ao trono da cidade em favor de um seu irmão mais novo. Diz Kostas Axelos: “Abandonou deliberadamente a dignidade real por uma outra realeza – a do pensamento”(1).
Terá falecido cerca de 470 antes da nossa era, se levarmos em consideração a sua oposição à democracia (v. fr. 121), a qual só teria sido restabelecida em Éfeso aquando da libertação dos Persas, por volta do ano 478 antes da nossa era.
Viveu, portanto, no tempo da revolução democrática –como Parménides-, revolução essa que teve o seu início no século VI antes da nossa era e o seu ponto culminante nas guerras médicas, que terminaram com a vitória dos Gregos sobre os Persas. «Logo que sobre os Gregos pesava a ameaça da servidão, logo que eles corriam o risco de perder a sua independência, manifestavam um ardor sem igual, uniam-se, aceitavam todos os sacrifícios com grandeza, bravura (batalhas das Termópilas, de Maratona, de Salamina, de Plateias). Mas uma vez dissipadas as nuvens, passado o perigo, recomeçavam as querelas entre os muros das cidades. Razão pela qual, talvez, Heraclito elevou mesmo a «discórdia» à categoria de princípio geral da filosofia». (2)
Adversário da democracia, tal como ela se exercia no seu tempo, como parece demonstrar-se pelo fragmento 121 (já citado), onde condena violentamente o povo, afirmando que os Efesianos merecem todos a morte assim como os seus filhos devem ser expulsos da cidade porque eles expulsaram Hermodoro, seu irmão (?), que era o melhor dos cidadãos, sendo o motivo, segundo Heraclito, ser Hermodoro o mais distinto dos Efesianos.
Adversário da teoria pitagórica, a qual afirma que a existência do mundo se deve à fusão e à harmonia, ao que Heraclito vai contrapor que o mundo existe pela tensão e pela luta.
J. Burnet diz-nos que se deve a Patin «o mérito de ter mostrado claramente que a unidade dos contrários era a doutrina central de Heraclito», como, aliás, nos atesta o fragmento 53: «A guerra é a origem de todas as coisas e de todas ela é soberana, e a uns ela apresenta-os como deuses, a outros como homens; de uns faz escravos, de outros homens livres» (3).
Parece-nos aqui que Heraclito é bem um homem do seu tempo. Os contrários já não são os nobres e os plebeus, mas os escravos e os homens livres, consequência, aliás, do resultado das guerras Médicas, passando a escravatura a ter uma importância na economia que a História da Grécia não registara até então.
Burnet ensina-nos que tal unidade dos contrários como teoria fundamental do pensamento de Heraclito havia sido confirmada por Philon: «Car, dit-il (Philon), ce qui est fait de deux contraires est un; et si l’Un est divisé, les contraires sont mis au jour. N’est-ce pas là justement ce que les Grecs disent que leur grand et trés célèbre Heraclite mettait en tête de sa philosophie comme la rèsumant toute, et de quoi il se vantait comme de une découverte nouvelle?» (4).
Heraclito ataca tudo quanto o rodeia, não deixando escapar sequer as grandes autoridades, como tal reconhecidas pelo povo, como Homero e Hesíodo, Pitágoras e Xenófanes.
A originalidade de Heraclito parece evidente, desconhecendo nós qualquer estudioso da sua filosofia que lhe aponte predecessores, porquanto toda a filosofia anterior desde Tales – pelo menos que até nós tenha chegado -, procurava a natureza permanente e imutável das coisas, a qual era identificada com um elemento da matéria, onde tudo tinha origem, enquanto Heraclito vem ensinar-nos que tudo está sujeito a mudança. Para Heraclito tudo se transforma no seu oposto (v., por exemplo, o frg. 126).
Heraclito verifica que as formas da matéria ao morrerem logo renascem sob uma outra forma. A mobilidade constante das coisas é para ele um dado da experiência, mobilidade essa que, como já dissemos, ele explica pela luta dos contrários.
A fé que depositava na razão humana é que, podemos dizê-lo, constitui uma continuação da tradição grega nos campos filosófico e científico: “O princípio maior da filosofia e da ciência gregas em geral era o da argumentação fundada no raciocínio. Princípio que Epicarmo (século VII antes da nossa era), pensador, dramaturgo, exprimiu magnificamente na sua máxima celebrando a clareza das ideias e a dúvida como primeiros indícios de todo o espírito profundo: “Sê lúcido, pouco confiante, é isso toda a ciência!” Por outras palavras, a ciência verdadeira nada aceita sem provas, ela só crê naquilo que está demonstrado e nos argumentos da razão» (5).
(Continua)


Eis uma bela ideia e um bom trabalho do meu amigo António Marques, que assim partilha da melhor maneira a sua viagem à Turquia. A História precisa disto, a fim de espalhar por quem possa interessar-se um oportuno gosto pelas suas origens mais documentadas e dignas de divulgação. Um contributo entusiasta
para o conhecimento e a sua articulação em todos os domínios, filosóficos, sociológicos, históricos, etc..
Tornar estes temas conhecidos e motivadores é a forma mais nobre de fazer justiç
a às nossas
origens comuns, no protagonismo dos povos que mais se detiveram no fascinante mistério da Humanidade. Obrigada. Maria Laura
Obrigado pelas tuas palavras amigas, minha querida Maria Laura.
Que os nossos netos -já somos avós, como o tempo passa!- possam conhecer Mundo será para mim uma felicidade; se eles deitarem o olho a este pequeno contributo que tento dar para entusiasmar a juventude a irem à procura de outros mundos, ficarei ainda mais feliz. Será que estou a pedir demasiado?