![10550902_MvCyL[1]](https://i0.wp.com/aviagemdosargonautas.net/wp-content/uploads/2012/10/10550902_mvcyl1.jpg?resize=179%2C179)
Estes fantasmas que persistem em ocupar as cadeiras de um governo que já não é, quer as que correspondem a pastas orgânicas, quer os das pastas virtuais, parecem apostados em minorar os pesadelos das nossas vidas com algumas cenas grotescas, com umas boutades de cordel pouco imaginativas e ainda por cima mal conseguidas, com um coro estridentemente desafinado. E parece nem se aperceberem das fífias nem do total falhanço da encenação colectiva. O chefe da orquestra pede unidade, esforços conjuntos e o povo responde-lhe com a unidade nas ruas, às centenas de milhares, em jornadas que se repetem por todo o país com crescente revolta, apontando-lhe a porta de saída. Os actores não escondem que estão assustados e, em pleno desnorte e descoordenação, acotovelam-se a quererem mostrar serviço. Com as deixas mais disparatadas, da justiceira ao economista, do adjunto na clandestinidade ao consultor privativo ou ao administrador interno de fábulas de La Fontaine, todos disputam a ribalta, procuram protagonismo. Ninguém melhor que Relvas para apelar à coesão social! Quem senão Borges para recomendar o aperto do cinto! As pateadas soam do interior da própria claque. Até como bobos da corte são maus!!!
Se o tempo fosse de descontracção até poderíamos agradecer-lhes o passatempo, o contributo para conversas inesgotáveis, para um reportório de anedotas abundante e variado. O pior é que as coisas não estão para graças porque entretanto o país resvala para o abismo e já se sabe quem acaba por pagar a factura.
No passado dia 19 de Setembro na abertura solene do ano lectivo da Universidade de Coimbra o magnífico reitor, professor-doutor João Gabriel Silva, proferiu um notável discurso no qual não evita a crise e lembra que ao longo da sua história os portugueses já sobreviveram a muitas crises. E aponta caminhos pondo relevo na premência de mudar a estrutura fiscal que incide excessivamente nos rendimentos do trabalho e menos nas transacções do capital. Palavras lúcidas na sequência de outras, alguns meses atrás, do seu colega da Universidade Clássica de Lisboa, professor-doutor Sampaio da Nóvoa, que nas Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas recusava o mote exclusivista e autoritário da ausência de alternativas. Não sei se serão ouvidos ou se entrarão no rol dos ignorantes, no qual os iluminados do sistema ousam incluir os que denunciam a via para a catástrofe.
É cada vez mais óbvio que a situação não é apenas nacional e que não haverá solução para a crise dos países europeus fora do quadro europeu. Dizem especialistas, que eu não sou, que foi à dimensão europeia que os factores germinaram e se acumularam, com a integração e a moeda única e, assim, é também a esse nível que se têm de buscar as soluções. Monti, chefe do governo italiano percebeu-o e convidou para uma reflexão conjunta os colegas francês, espanhol, irlandês e grego. O português também foi convidado mas não considerou útil estar presente. Basta-lhe o Borges. Mas não é apenas das instâncias institucionais que surgirão as respostas. A rua está a ferver, na Grécia e em Espanha, em Portugal e em França. No último domingo em Paris manifestantes portugueses faziam-se ouvir e juntavam as suas vozes aos apelos para que os europeus do sul e da Irlanda se unam contra a política da austeridade.
É importantíssimo que se dê expressão organizada a este levantamento popular que tem fundamentos comuns e que deve tornar-se transfronteiriço. E é inevitável que isso venha a acontecer. Os apologistas da globalização, os que lhe cantavam hinos de louvor porque era a glorificação do mercado, do poder da comunicação, do pensamento único, do comportamento uniformizado, terão agora de se confrontar com a indignação global que ultrapassa fronteiras, com a contestação que atinge transversalmente as várias sociedades, com a mobilização a que as redes sociais conferem novas dimensões e capacidades de amplitude quase sem limite e de tempo quase instantâneo.
Nasceu um neologismo, o austeritarismo. E é contra ele que tem de se levantar o clamor dos europeus.
1 de Outubro de 2012
