UM CAFÉ NA INTERNET – Perversão II – por Manuela Degerine

 Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

(Continuação)

 

Chegada a casa, pousei a pasta e liguei o computador para procurar o nome do colega na lista dos telefones. Um único Le Guioux se chamava Amiel.

 

– Queria falar com Amiel Le Guioux, professor de Francês no liceu de Bécon.

 

– Sou eu. O tom podia ser o de qualquer professor incomodado por uma aluna ou mãe de aluno durante o fim-de-semana.

 

– Sou a professora de Português: Isabel Leclerc.

 

– Olá! Pareceu-me ouvir uma sincera surpresa. Expliquei que recebera um envelope com o nome dele no remetente. Garantiu, mais surpreendido e, não sendo verdade, revelava talento, que nada pusera no meu cacifo, aliás nem ao liceu fora, por não dar aulas ao sábado. Descrevi o conteúdo do envelope.

 

Os alunos não podiam entrar na sala dos professores porém, ao Sábado de manhã, havendo pouco movimento, a transgressão passaria despercebida. Portanto interrogámo-nos. Se fora aluno, de quem? Com que objectivo? O que ganhava um aluno na brincadeira?

 

 Amiel Le Guioux estudara com os dele, no ano precedente, textos eróticos de Apollinaire e recebera então telefonemas, mais ou menos anónimos, de raparigas da turma; contudo, passadas as férias grandes, os programas do ano anterior achavam-se na memória discente não menos esquecidos do que o sânscrito nas línguas românicas. Entretanto eu começava a reparar que as características daquele papel não se ajustavam ao comportamento dos nossos alunos. Quando um adolescente expande obscenidades, escreve-as ele, em papel, nas paredes, nas carteiras, na pasta da professora, é pouco vulgar ir à biblioteca requisitar um livro de Apollinaire, com tantas letras, cuja leitura não deixa de ser, mesmo com aquele tema, linguisticamente árdua – ainda menos, no segundo dia de aulas, na excitação dos novos horários, colegas e professores. Por outro lado, se qualquer aluno envia uma fotocópia, não costuma preocupar-se com o título nem subir ao requinte de dois recortes habilidosos para delimitar a sequência narrativa. Sendo realmente um aluno, caso o descobríssemos, merecia uma boa nota. Não parecia mais um tique de professor? Algum colega?

 

Que colegas conheceriam a existência daquele texto de Apollinaire? Um professor de Francês? Nenhum dos professores de Francês nos parecia capaz de tanto por tão pouco. Com que objectivo? Para se rir? Criar conflitos? Ver o que se passava? E porquê Leclerc e Le Guioux?

 

(Continua)

 

 

 

Ilustração: The Fireside Angel, Max Ernst, 1937

 

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