CONTOS & CRÓNICAS – “Pastéis de grão como saudades” – por Joaquim Palminha Silva

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            Mais de 40 anos se haviam derretido como gelo ao sol… Na melhor das hipóteses, restava-lhe não mais que um ano de respiração, antes que os pulmões se esboroassem definitivamente…

Ela arrastava-o pelo braço, e às vezes aborrecia-o… Ele bem entendia o motivo daquela insistente peregrinação pelas ruas do passado, em Mourão… A sua voz chegava-lhe como um zumbido, a boiar no calor daquele dia de Agosto: «Vais ver, Joaquim Maria, que deliciosos!».

Noutro tempo, quando apareciam visitas inesperadas para o almoço, a Tia Mariana mandava-os à «Padaria da Gertrudes», a ele e aos primos… Iam e vinham numa correria doida. Ainda hoje não percebe porque é que tinham de andar sempre numa correria doida

Era tão bom penetrar naquele corredor antes de chegar ao forno, do outro lado, após o pátio… Que caricias de todos os sentidos, entrever os soalhos ainda húmidos da recente esfrega e, sobre as arcas de pinho da sala de entrada, admirar açafates forrados com linhos alvíssimos, onde se empilhavam os pastéis de grão!

Quando miúdos, recordava… Depois de acertarem o passo, num repente atravessavam o pátio da casa que, humedecido com a água do poço, refrescava todas as tardes ao sol-posto… Como se lhe ouvisse os pensamentos, a Tia Mariana sorria satisfeita com o feliz reencontro das lembranças.

Ele nem podia acreditar! A Tia, que havia enviuvado há muito, conservava tudo na casa, mas mesmo tudo, todavia as coisas estavam limpas, não tinham pó algum a cobri-las… Depois de tantos anos, ainda se balançava ali à porta a corda velha que, com um puxavante bem dado, traria de volta o alegre tilintar do pequeno sino de bronze… A Tia olhou-o com os olhos rasos de água: «Queres tocar à porta, Joaquim Maria?». Abanou a cabeça afirmativamente. Ninguém lhes roubaria aquele doce prazer de escutar, de memória, outras vozes: «Tocaram à porta da rua!» … Tia e sobrinho abraçaram-se, de lágrimas almofadas de saudades…

Aproximou-se da porta. Abriu-a. Uma vez do lado de fora, sobre o passeio da rua, segurou a ponta da corda, esticando-a com uma força calculada que, vinda do passado, se fez acção prática no presente… Àquele toque do pequeno sino, alguém vinha de abrir os portões ao risonho mundo azul há muito desaparecido. Pela porta voltava a entrar Mourão, a vila consagrada a Nossa Senhora das Candeias. E sob um céu desabando estrelas desenhadas a lápis de cor, deslizavam cantigas de roda, perfumes baratos vindos de Espanha, tudo embrulhado nas quezílias dos rapazes do «clube dos ricos» com os do «clube dos pobres», com as suas sedes face a face, de cada lado do Jardim da Praça, provocações de classe, em vez da “luta de classes”!

Quem sabe se esbarraria em pratos de arroz doce, em níveas taças de vidro repletas de farófias, em elegantes travessas de loiça de Sacavém onde se empilhavam doces pastéis de grão, acabados de chegar do forno da «Padaria da Gertrudes»?! Talvez lhe zunisse ao ouvido o assobio do homem do carvão de lenha, o chiar da nora de engrenagens ferrugentas, tudo arrematado com a vozearia dum gregoriano avinhado, melancólico, dos ganhões que ao sol-pôr se entretinham nas últimas tabernas da vila, cantando a melancolia aos arremeções ondeados.

Com o toque mágico do sino da porta, regressou o som das botas de seu Tio António José sobre o piso da “casa de entrada”, amálgama esquisita de republicano, libertário e simpatizante do Partido Comunista, para lá do bigode com hastes em caracol, mecânico de sonhos e electricista de ideias – O «homem do cinema» de Mourão!

O Tio, empresário-electricista que, de gargalhada em riste, esgrimia com os filmes,          em duelo contínuo, ataques à Censura Oficial da ditadura… Sem se aperceber da ousadia, Mourão viu um dia (incluindo as autoridades e os esbirros locais do regime) o paradigmático filme italiano «O Ladrão de Bicicletas»!Imagem4

 

Curioso, puxou a corda novamente, a ver que traria de novo o toque do sino. Apenas ficou um silêncio inabalável…Encolheu os ombros, sem coragem de olhar para a Tia… Com um gesto de cabeça, esta pediu-lhe que puxasse a corda outra vez…

*

Olhou a padeira. A mulher estava pasmada… Trôpega, de saias negras desbotadas, que tinham o comprimento da sua vida. Pediu licença e desapareceu no longo corredor antes do pátio… A Tia Mariana pediu: «Por favor, vim com o meu sobrinho comprar alguns pastéis de grão.». Agora, era proibido fabricar e vender pastéis de grão à moda antiga, dado que as “normas europeias” não permitiam tais tradicionalismos… Os pastéis de grão tornaram-se subversivos, clandestinos? Que vinha fazer para ali o absurdo burocrático?

Ele procurou, sob a rugas, a menina Gertrudes, a rosada e roliça padeira de outrora… Disse-lhe: «Vinha muito aqui em criança. Depois nunca mais…». Na face da Tia Mariana, o labirinto das rugas davam-lhe a medida das partidas, dos caminhos percorridos, da sua própria ausência… Chegaram ao fim os anos de vida da Tia e, inesperadamente, a sua própria existência tinha os dias contados… mas os pastéis de grão, pastéis de há muito tempo, sempre adoçados, mas com uma pitada gostosa de saudade, esses continuavam a aparecer em determinadas alturas do ano. Continuariam assim?

A Gertrudes, com um pano atado à cabeça e farinha orvalhando-lhe as desenhadas sobrancelhas, recebia então a menina e os dois meninos que vinham numa correria doida… Limpava as mãos untadas ao avental, já sabia quem os enviara e o que pretendiam. A Tia Mariana mandara-lhe recado por uma das suas aprendizas de costureira… Os meninos tinham sorte, pois os pastéis acabavam de sair da fritura. Mais alguns minutos e poderiam ser comidos, ainda estaladiços…

Levaram os pastéis para casa, Rua do Norte… Procurou os olhos da Tia Mariana, quando levou à boca o primeiro pastel de grão…

«Está feliz, Tia? Finalmente, os célebres pastéis de grão como só Mourão sabe fazer! Faltaram-me durante tantos anos! Que saudades deles … De tudo!». Depois, como quem se obriga a concluir: «Sabe, Tia Mariana, as saudades lá fora, nesses países do frio por onde andei, fazem doer os ossos!».

 

Tia e sobrinho mastigavam os últimos pastéis, massa frita e puré de grão adoçado… Mas o gosto antigo dos pastéis silenciara-se de todo. Esse gosto das coisas boas que eram “d’antes” mergulhara para sempre no silêncio, como nos filmes mudos que o Tio António José projectava, de vez em quando, em sessão grátis para os miúdos da vila, nas matinés de Natal e Carnaval. Tudo isso silenciara, como o cordel e o seu sino de bronze à porta da rua, por onde entrava o Tio, único electricista diplomado da vila, com um sorriso matreiro, e as bobinas de um filme dos irmãos Marx, num caixote abraçado e encostado ao peito…

Nada de campainha eléctrica à porta… O Tio dizia-se amigo da tradição, e aventava sarcástico: «Em casa de ferreiro, espeto de pau.». Nunca aquela casa teve uma campainha na porta!

Todos tinham partido… Só restava a Tia Mariana e o sobrinho… E a vila, despovoada, cheia de espectros…Continuaram a comer os pastéis… Quem dos dois levaria primeiro o sabor da saudade dos pastéis para debaixo da terra? Quem entraria naquele Verão, terra dentro, com a saudade embalada ao colo da morte?

 

 

 

 

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