Não há volta a dar. Tinha decidido que esta semana voltaria as costas à temática governamental e me dedicaria a outro assunto menos conspurcado. Mas não consigo passar ao lado de tanta asneira, de tanto amadorismo, de tanta infantilidade, sem indignação. Por isso insisto na matéria dos últimos GDH. Tenham paciência…
Estes fantasmas que persistem em ocupar as cadeiras de um governo que já não é, quer as que correspondem a pastas orgânicas, quer os das pastas virtuais, parecem apostados em minorar os pesadelos das nossas vidas com algumas cenas grotescas, com umas boutades de cordel pouco imaginativas e ainda por cima mal conseguidas, com um coro estridentemente desafinado. E parece nem se aperceberem das fífias nem do total falhanço da encenação colectiva. O chefe da orquestra pede unidade, esforços conjuntos e o povo responde-lhe com a unidade nas ruas, às centenas de milhares, em jornadas que se repetem por todo o país com crescente revolta, apontando-lhe a porta de saída. Os actores não escondem que estão assustados e, em pleno desnorte e descoordenação, acotovelam-se a quererem mostrar serviço. Com as deixas mais disparatadas, da justiceira ao economista, do adjunto na clandestinidade ao consultor privativo ou ao administrador interno de fábulas de La Fontaine, todos disputam a ribalta, procuram protagonismo. Ninguém melhor que Relvas para apelar à coesão social! Quem senão Borges para recomendar o aperto do cinto! As pateadas soam do interior da própria claque. Até como bobos da corte são maus!!!
Se o tempo fosse de descontracção até poderíamos agradecer-lhes o passatempo, o contributo para conversas inesgotáveis, para um reportório de anedotas abundante e variado. O pior é que as coisas não estão para graças porque entretanto o país resvala para o abismo e já se sabe quem acaba por pagar a factura.
No passado dia 19 de Setembro na abertura solene do ano lectivo da Universidade de Coimbra o magnífico reitor, professor-doutor João Gabriel Silva, proferiu um notável discurso no qual não evita a crise e lembra que ao longo da sua história os portugueses já sobreviveram a muitas crises. E aponta caminhos pondo relevo na premência de mudar a estrutura fiscal que incide excessivamente nos rendimentos do trabalho e menos nas transacções do capital. Palavras lúcidas na sequência de outras, alguns meses atrás, do seu colega da Universidade Clássica de Lisboa, professor-doutor Sampaio da Nóvoa, que nas Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas recusava o mote exclusivista e autoritário da ausência de alternativas. Não sei se serão ouvidos ou se entrarão no rol dos ignorantes, no qual os iluminados do sistema ousam incluir os que denunciam a via para a catástrofe.
É cada vez mais óbvio que a situação não é apenas nacional e que não haverá solução para a crise dos países europeus fora do quadro europeu. Dizem especialistas, que eu não sou, que foi à dimensão europeia que os factores germinaram e se acumularam, com a integração e a moeda única e, assim, é também a esse nível que se têm de buscar as soluções. Monti, chefe do governo italiano percebeu-o e convidou para uma reflexão conjunta os colegas francês, espanhol, irlandês e grego. O português também foi convidado mas não considerou útil estar presente. Basta-lhe o Borges. Mas não é apenas das instâncias institucionais que surgirão as respostas. A rua está a ferver, na Grécia e em Espanha, em Portugal e em França. No último domingo em Paris manifestantes portugueses faziam-se ouvir e juntavam as suas vozes aos apelos para que os europeus do sul e da Irlanda se unam contra a política da austeridade.
É importantíssimo que se dê expressão organizada a este levantamento popular que tem fundamentos comuns e que deve tornar-se transfronteiriço. E é inevitável que isso venha a acontecer. Os apologistas da globalização, os que lhe cantavam hinos de louvor porque era a glorificação do mercado, do poder da comunicação, do pensamento único, do comportamento uniformizado, terão agora de se confrontar com a indignação global que ultrapassa fronteiras, com a contestação que atinge transversalmente as várias sociedades, com a mobilização a que as redes sociais conferem novas dimensões e capacidades de amplitude quase sem limite e de tempo quase instantâneo.
Nasceu um neologismo, o austeritarismo. E é contra ele que tem de se levantar o clamor dos europeus.
1 de Outubro de 2012
