Gervásio Lobato nasceu em Lisboa em 1850, falecendo em 1895 também em Lisboa Escritor, jornalista, dramaturgo e professor de declamação teve como obra mais emblemática a novela “Lisboa em Camisa”, passada ao cinema em 1960 por Herlander Peyroteo.
Os interlocutores são um morgado do Alentejo, que estava a gozar os rendimentos em Lisboa e um criado lá da sua herdade de Alter do Chão.
O morgado, que já há tempo não tinha carta da terra nem notícias de seus pais, encontrou, uma manhã, na Praça do Comércio, embasbacado a ver render a guarda, o seu criado.
– Olá! Tu por aqui, Tibúrcio?
– Ah! O meu patrão!
– Então vens a Lisboa e não me procuras? Não vens logo a minha casa?
– Ora essa!… Então não havia de lá ir?
– Pois sim, mas não foste.
– Ia já lá. . .
– Chegaste agora mesmo?
– Não, senhor; cheguei ontem e, desde que cheguei que estou para ir lá já . . .
– Então como está tudo por lá?
– Tudo bom, muito obrigado.
– Meu pai, minha mãe, a casa?
– Tudo bem, sem novidade.
– E o meu cavalo ruço… o Janota?
– Ah! É verdade; esqueci-me de dizer-lhe; esse é que não tem lá passado muito bem.
– Ah! Sim! O que tem ele? Está doente?
– Não, senhor.
– Ah! Meteste-me um susto! Um cavalo que me custou 50 libras!
– Não, senhor; não está doente. Morreu!
– Morreu?!
– Sim, senhor; mas o mais vai sem novidade.
– Morreu? Mas ele não estava doente… Morreu de algum desastre?
– Não, senhor. – Qual desastre!
– Então?
– Morreu no fogo, que houve lá na cocheira.
– Quê? Houve fogo na cocheira?
– Sim, senhor; ardeu toda, e o pobre Janota, que estava lá dentro, foi-se também, coitadinho!
– Mas como pegou fogo na cocheira?
– Pegou da casa.
– Da casa?!
– Sim, senhor; a casa ardeu toda.
– A minha casa ardeu toda?
– Sim, senhor; e, por mais que fizéssemos, não foi possível impedir que o fogo passasse à cocheira. Mas o mais vai sem novidade…
– Mas como foi que pegou fogo à casa?
– Foi uma tocha, que caiu do tocheiro.
– Uma tocha?
– Sim, senhor; caiu uma tocha em cima do pano do caixão e foi tudo pelos ares.
– Do caixão? Mas qual caixão?
– O caixão, onde estava a defunta.
– Qual defunta?
– A senhora sua mãe.
– Minha mãe? Pois minha mãe morreu?
– Morreu, sim senhor; mas o resto vai sem novidade.
– Mas de que morreu minha mãe?
– De desgosto, coitadinha!
– De desgosto de quê?
– Pela morte de seu pai.
– Então meu pai morreu também?
– Não, senhor; não morreu; matou-se.
– Matou-se?!
– Sim, senhor; enforcou-se. Mas o resto vai tudo sem novidade…
– Meu pai enforcou-se?!
– Sim, senhor. Quando lhe fizeram penhora a todas as fazendas e viu que estava arruinado, que estava a pedir esmola, foi a uma corda e zás! Mas o mais vai tudo sem novidade…

