O Pato algemado – 5 – coordenação de Carlos Loures

Hoje, para abrir as hostilidades, temos o Gato Fedorento. Lembram-se do “Professor Marcelo e o aborto”?

 

 

 

 

O Pato algemado

 

A DESCOBERTA E O USO DO BORRÃO DE TINTA FALSOpor Woody Allen 

 

Não há quaisquer vestígios da aparição no Ocidente do borrão de tinta falso antes do ano de 1921, embora se saiba que Napoleão se tivesse divertido muito com o zumbidor, um dispositivo dissimulado na palma da mão que causava uma vibração eléctrica sob contacto. Napoleão oferecia a régia mão, amistosamente, a um dignitário estrangeiro, «zumbia» a palma da mão da desprevenida vítima e fazia troar o seu riso imperial enquanto o ingénuo, envergonhado, executava uma improvisada pirueta, para delícia da corte.

 

O zumbidor sofreu muitas modificações, a mais conhecida das quais ocorreu após a introdução da pastilha elástica por Santa Ana (julgo que a pastilha elástica foi originariamente um cozinhado da mulher que, pura e simplesmente, não foi para baixo), e tomou a forma de uma embalagem de pastilhas elásticas de hortelã equipada com um subtil mecanismo de ratoeira. O patego a quem era oferecida uma pastilha experimentava uma aguda ferroada quando a barrinha saltava sobre as ingénuas pontas dos seus dedos. A primeira reacção era geralmente de dor, evoluía para um riso contagioso e estabilizava numa espécie de sabedoria folclórica. Não é segredo que a partida da pastilha-elástica-que-morde serviu para aliviar consideravelmente as preocupações em Álamo; e, apesar de não ter havido sobreviventes, muitos observadores pensam que as coisas podiam ter corrido muitíssimo pior sem essa habilidosa atracçãozinha.

 

Com o advento da guerra civil, os Americanos procuraram cada vez mais escapes para esquecer os horrores de uma nação em desintegração; e enquanto os generais nortistas preferiam divertir-se com os cálices de Carnaval, Robert E. Lee fez passar a muitos um momento crucial com o brilhante uso que fazia da flor de esguicho. Nos primeiros tempos da guerra, ninguém que tenha cheirado o aparentemente «lindo cravo» da lapela de Lee deixou de receber no olho uma generosa esguichadela de água do rio Suwanee. Conforme as coisas foram piorando para o Sul, Lee abandonou esse artifício outrora elegante e dedicou-se a colocar simplesmente tachas nas cadeiras das pessoas de quem não gostava. Depois da guerra e saltando directamente para os primeiros anos deste século e para a chamada era dos ladrões aristocráticos, os pozinhos para espirrar e as latinhas com o rótulo AMÊNDOAS, de onde várias serpentes de mola saltavam para a cara da vítima, colocaram tudo o que era respeitável na área das ninharias. Diz-se que J. P. Morgan preferia os primeiros enquanto o velho Rockfeller se sentia mais em casa com as últimas.

 

E eis que, em 1921, um grupo de biólogos reunidos em Hong-Kong para comprar roupa descobrem o borrão de tinta falso. Era, desde há muito, um elemento de repertório oriental de diversões, e várias das últimas dinastias mantiveram o poder através da brilhante manipulação do que parecia ser um frasco que vertia e uma horrorosa mancha de tinta, mas era, na realidade, um borrão feito de lata.

 

Os primeiros borrões de tinta, sabe-se, eram toscos, construídos com três metros de diâmetro e não enganavam ninguém. Porém, com a descoberta do conceito de tamanhos mais pequenos, feita por um físico suíço que provou que um objecto de um tamanho particular podia ser reduzido simplesmente «fazendo-o mais pequeno», o borrão de tinta falso chegou a si mesmo.

 

Ficou em si mesmo até 1934, quando Franklin Delano Roosevelt o tirou de si próprio e o colocou noutro. Roosevelt utilizou-o inteligentemente para resolver uma greve na Pensilvânia, cujos pormenores são divertidos. Os dirigentes dos trabalhadores e da administração estavam embaraçados, convencidos de que um frasco de tinta se tinha entornado, arruinando um caríssimo sofá Império. Imaginem como ficaram aliviados quando souberam que era tudo brincadeira. Três dias depois as fábricas de aço estavam reabertas.

 

(in Para acabar de vez com a cultura, trad. Jorge Leitão Ramos, Livraria Bertrand, pp. 131-133, Novembro de 1980).

 

 

José Vilhena

 

 

Nasceu em 1927 em Figueira de Castelo Rodrigo. Frequentou o Curso de Arquitectura na Escola de Belas-Artes do Porto, vindo depois para Lisboa. Colaborou no Diário de Lisboa e em publicações humorísticas desenhos e textos. Em 1956 publicou uma primeira colectânea de anedotas ilustradas – “Este Mundo e o Outro”, seguindo-se “Manual de Etiqueta “, em 1959. Publicou numerosos livros humorísticos nos quais, apesar de usar um humor tradicional, brejeiro e popular, criticou o regime ditatorial, nomeadamente a polícia política, que, revelando pouco sentido de humor o prendeu por três vezes, apreendendo com frquência os seus livros. Após a Revolução de Abril, deu largas ao seu humor cáustico, não perdendo nunca a oportunidade de usar a Igreja e a Direita como alvo das suas sátiras.

 

 

 

 

 

 

 Gervásio Lobato

 

 

Gervásio Lobato nasceu em Lisboa em 1850, falecendo em 1895 também em Lisboa.

Escritor, jornalista, dramaturgo e professor de declamação teve como obra mais emblemática a novela “Lisboa em Camisa”, passada ao cinema em 1960 por Herlander Peyroteo.

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Tudo vai sem novidadepor Gervásio Lobato

 

 

 

 

 

 

Os interlocutores são um morgado do Alentejo,

que estava a gozar os rendimentos em Lisboa e um  

criado lá da sua herdade de                                            Alter do  Chão.                                                                                                         

 

 

O morgado, que já há tempo não tinha carta da terra nem notícias de seus pais, encontrou, uma manhã, na Praça do Comércio, embasbacado a ver render a guarda, o seu criado.

 

 – Olá! Tu por aqui, Tibúrcio?

 

– Ah! O meu patrão!

 

– Então vens a Lisboa e não me procuras? Não vens logo a minha casa?

 

– Ora essa!… Então não havia de lá ir?

 

– Pois sim, mas não foste. – Ia já lá. . .

 

– Chegaste agora mesmo?

 

– Não, senhor; cheguei ontem e, desde que cheguei que estou para ir lá já . . . – Então como está tudo por lá?

 

 – Tudo bom, muito obrigado.

 

– Meu pai, minha mãe, a casa?

 

– Tudo bem, sem novidade.

 

– E o meu cavalo ruço… o Janota?

 

 – Ah! É verdade; esqueci-me de dizer-lhe; esse é que não tem lá passado muito bem.

 

 – Ah! Sim! O que tem ele? Está doente?

 

– Não, senhor.

 

– Ah! Meteste-me um susto! Um cavalo que me custou 50 libras!

 

– Não, senhor; não está doente. Morreu! – Morreu?!

 

– Sim, senhor; mas o mais vai sem novidade.

 

– Morreu? Mas ele não estava doente… Morreu de algum desastre? –

 

 Não, senhor. – Qual desastre!

 

– Então?

 

– Morreu no fogo, que houve lá na cocheira.

 

– Quê? Houve fogo na cocheira?

 

– Sim, senhor; ardeu toda, e o pobre Janota, que estava lá dentro, foi-se também, coitadinho!

 

– Mas como pegou fogo na cocheira?

 

– Pegou da casa.

 

– Da casa?!

 

– Sim, senhor; a casa ardeu toda.

 

– A minha casa ardeu toda?

 

– Sim, senhor; e, por mais que fizéssemos, não foi possível impedir que o fogo passasse à cocheira. Mas o mais vai sem novidade…

 

– Mas como foi que pegou fogo à casa?

 

– Foi uma tocha, que caiu do tocheiro.

 

– Uma tocha?

 

– Sim, senhor; caiu uma tocha em cima do pano do caixão e foi tudo pelos ares.

 

 – Do caixão? Mas qual caixão?

 

– O caixão, onde estava a defunta.

 

– Qual defunta?

 

– A senhora sua mãe.

 

– Minha mãe? Pois minha mãe morreu?

 

– Morreu, sim senhor; mas o resto vai sem novidade.

 

– Mas de que morreu minha mãe?

 

– De desgosto, coitadinha!

 

– De desgosto de quê?

 

– Pela morte de seu pai.

 

– Então meu pai morreu também?

 

– Não, senhor; não morreu; matou-se.

 

– Matou-se?!

 

– Sim, senhor; enforcou-se. Mas o resto vai tudo sem novidade…

 

– Meu pai enforcou-se?!

 

– Sim, senhor. Quando lhe fizeram penhora a todas as fazendas e viu que estava arruinado, que estava a pedir esmola, foi a uma corda e zás! Mas o mais  vai tudo sem novidade…

1 Comment

  1. Pois Carlos, penso que estás a dar um grande contributo para o humor. Primeiro, fazes-nos rir, o que é muito bom nos tempos que correm e, segundo, neste país tristonho, provas que afinal, temos grandes humoristas. O Gervásio Lobato, o Vilhena, mais os Gatos Fedorentos, é qualquer coisa. Mas vou pôr uma questão, será que os humoristas são pessoas tristes? Melhor, será que nos países tristes, floresce melhor o humor?

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