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CARTA DE VENEZA – 28 – por Sílvio Cstro

CARTA  DE  VENEZA  –  28  –  “O Gebo e a Sombra”, de Manoel de Oliveira, no Festival Cinematogváfico de Veneza-2012”

SILVIO  CASTRO

                 

A especial presença de Manoel de Oliveira, com o seu O Gebo e a Sombra, igualmente a primeira realização do grande diretor português em francês, consequência direta também da co-produção do filme entre Portugal e França, assume várias e diversas dimensões. Antes de mais nada confirma a pujança da excepcional longevidade do centenário mestre do cinema mundial, capaz sempre de mostrar-se novo no seu processo criativo. Em sentido complementar, testemunha como um grande diretor possa abordar a linguagem cinematográfica a partir das mais diversas concepções.

O Gebo e a Sombra, que “fala de pobreza e de honestidade”, conforme as mesmas declarações de Manoel de Oliveira,deriva da peça teatral do mesmo título, de 1923, da autoria de Raul Brandão (1867-1930), um dos nomes fundadores da modernidade literária portuguesa.Raul Brandão é principalmente um grande autor de prosa narrativa, bem como um ensaísta de dimensões remarcáveis. A sua modernidade literária se mostra sempre sustentada por uma pessoal e especial dedicação aos problemas civis, mesmo quando vistos a partir do mais profundo testemunho da dimensão existencial. Nesse quadro do autor de Húmus (1917) coloca-se a peça que dá origem ao presente trabalho de Manoel de Oliveira.

O filme de Manoel de Oliveira, apresentado fuori concorso  em Veneza, pelas suas dimensões de um produto muito especial na obra de um dos grandes mestres do cinema contemporâneo internacional, é um dos momentos especiais da brilhante edição comemorativa dos 80 anos do Festival veneziano. Com ele, o sempre muito criticado cinema derivado diretamente de peças de teatro, nos aparece com novas e estimulantes perspectivas.

O Gebo e a Sombra, ainda que aparentemente cinema teatral, é alguma coisa de muito diverso. A direção de um tal complexo produto vê-se traduzido por intérpretes que sabem dar às correspondentes presenças dimensões de rara expressividade. Assim acontece com Michael Lonsdale que intepreta a complexidade do personagem principal do drama com um sobriedade que leva o expectador a participar de cada uma de suas atormentadas reflexões e solidarizar-se com todas as suas dúvidas. O mesmo se pode dizer de Ricardo Trêpa, o filho antitético ao Geba, rebelde e marginal, ladrão sem remissão enquanto testemunho de uma visão da vida que não conhece confins. As três mulheres que comparticipam do mundo do Geba, sem porém compreender completamente seu tormento diante da Sombra que o segue, encontram em Cláudia Cardinale, Jeanne Moureau e Leonor Silveira intépretes de alto nível. Jeanne Moureau, na sua pequena parte de vizinha do Gebo que com a família atormentada vem tomar o café do fim do dia, tem a força de como roubar a cena cada vez que se integra no drama. Cláudia Cardinale, a mulher do Gebo, traduz com forte intensidade o mundo perdido em que se encontra o personagem diante de um marido impescrutável e de um filho marginalizado. Leonor Silveira, a Sofia, dá à jovem esposa do personagem interpretado por Ricardo Trêpa e a única verdadeira aliada do Gebo uma dimensão que de certa forma atenua a dramaticidade do inequimático protagonista. Finalmente a Luís Miguel Cintra, na personagem de um poeta decadentista e empresário sem conquistas, cabe a incumbência, decidida pela direção de Manoel de Oliveira, de mostrar aquela sempre muito distante face teatral que se encontra na origem do filme.

Com todos esse elementos, Manoel de Oliveira realiza a sua muito especial experiência. O espaço fílmico é quase completamente unitário, como o é uma cena teatral. Nesse espaço, os personagens desenvolvem o drama num diálogo-monólogo que a cada momento ameaça a concepção cinematográfica de perder-se diante da exuberância quantitativa das palavras pronunciadas sob planos fixos que focalizam os personagens então em evidência dramática.. Porém, o encontro de plano-fixo e palavras nas focalizações dos personagens, em modo especial daquela predominante do Gebo, como que conquista uma dinamicidade aparentemente impossível. Nesses momentos, e assim por todo o filme, até a sua simbólica conclusão, a estaticidade da cena cede o lugar a uma dinamicidade interior marcada pelos planos fixos. Nesses momentos, muitos, por quase toda a duração dos 95 minutos do filme, Manoel de Oliveira renova em modo excepcional, e ainda mais uma vez na sua gloriosa carreira, a linguagem correspondente a uma criação cinematográfica. Misteriosamente o expectador se encontra a viver momentos de grande movimentação perceptível, mesmo diante da estaticidade do espaço com o qual ele se confronta.

Por tudo isso, O Gebo e a Sombra, realizado quando o seu autor atinge a longevidade de 104 anos, se coloca entre os grandes produtos da vasta obra do mestre do cinema português.

A presença de Portugal na 69ª. edição do Festival Cinematográfico de Veneza se completa com a apresentação do filme de Miguel Gomes, Tabú,, uma produção Portugal, Alemanha, Brasil e França.

No setor de filmes de curta-metragem apresentados na seção “Horizonte”, da manifestação veneziana, salienta-se o produto brasileiro, da duração de 15 minutos, realizado por Fernando Camargo, Matheus Parizi  – O Afinador – , com Luiz Seixas, Norival Rizzo, Sandra Corveloni.

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