CARTA DE VENEZA – 27 – por Sílvio Castro

O 69° Festival Cinematográfico da Bienal de Veneza e o cinema português“

Boas surpresas soube trazer ao público internacional a 69ª. edição do Festival Cinematográfico de Veneza, realizado de 29 de  agosto a 8 de setembro de 2012 sob a direção de Alberto Barbera. E nela, também significativa por diversas razões foi a presença do cinema português, representado pelo mestre Manuel de Oliveira com o O Gebo e a Sombra ( fora de conxurso); Valéria Sarmiento, em concurso, com Linhas de Wellington;; e pelo filme de Miguel Gomes, Tabú, dentro dos Eventos colaterais à Mostra,.

   O diretor Alberto Barbera deu novass perspectivas à dita edição da grande festa de cinema em Veneza porque soube modificar muitas das habituais características da mesma. Assim boa surpresa foi o número contido de películas em concurso, ao contrário dos quadros exageradamente alargados das edições precedentes. Tal regra permitiu a presença de alguns ótimos filmes, em testemunhos de uma boa produção internacional, ainda que os tempos em que todos vivemos sejam sempre a de uma crise econômico-financeira mundial de forte intensidade. Outra boa surpresa o diretor nos trouxe na correspondente fisionomia social e promocional com que o Festival soube apresentar-se nos seus onze dias de intensa atividade; diminuiu a circulação de divas e estrelas, mostrando alguns poucos, mas válidos representantes do cinema internacional. Desta maneira, o público soube dedicar mais atentamente a sua atenção aos filmes, não só para com aqueles em concurso, mas igualmente a muitos outros deles, então oferecidos. Desta forma, Veneza reafirma a sua prioridade histórica no campo dos Festivais cinematográficos internacionais, justamente quando a grande promoção atinge os 80 anos.

 Na conclusão da grande festa ficaram fixados determin ados resultados que, como sempre, satisfazem uma grande parte dos interessados e desilude outra parte correspondente. Sem qualquer discussão, mas com uma aprovação unânime de crítica e público, foi o conferimento a Francesco Rosi do “Leão de Ouro pela Carreira”. A grande qualidade artística do cinema de Rosi, fortemente marcado pelo seu empenho civil, harmonizou todas as opiniões. O mesmo não podemos dizer em relação aos outros prêmios, a começar pelo vencedor, o filme sul-coreano, Piedade, de Kim Ki-dux, violenta expressão crítica contra os excessos do capitalismo. O realismo extremo do diretor sul-coreano tende a provocar nos expectadores mais sensíveis grande repulsão pela violência de muitas de suas cenas, em particular na sua primeira parte. O hiper-realismo de Kim Ki-dux se choca desta maneira com muitas sensibilidades que passam igualmente a ver nas cenas um fácil recurso de atração por parte do diretor. Porém, com uma visão global do filme da não-piedade pode-se ver que a sua violência não é jamais fechada em si mesma, mas que aspira a tomada de consciência de uma tragédia social ampla, vista através de um radical modelo individual. O encontro desses fatores leva o filme de Km Ki-dux, já vencedor no passado de um Leão de Prata do festival veneziano, a apresentar-se como uma forte criação artística, de profundo sentido trágico.

  Além das dissenções sobre o Leone d’Oro, outras ainda maiores se dão quanto aos outros prêmios maiores. Assim é para com o Leão de Prata concedido a The Master, de Paul Thomas Anderson, bem como o alargamento de prêmios ao filme americano inspirado pelo movimento da seita Scientology, com a Copa Volpi para a melhor interpretação masculina (aqui os exemplos de ótimas interpretações se encontram em muitos outros filmes, a começar naquele de Valéria Sarmiento), prêmio concedido, ex-equo, a Philip Seymour Hoffman e Joaquim Phenix, protagonistas do filme de Anderson. A mesma linha negativa muitos reversam sobre a entrega da Copa Volpi prara a melhor interpretação feminina, à atriz israeliana Hadas Yaron, pelo filme Fill the Vold, da diretora Rama Burstein. Mais vozes de concórdia recolheu o Prêmio Especial do Jury ao austríaco Ulrich Seidl, com o seu Paradies: Glaube (Paradise Faith).

 Da presença portuguesa, ocupemo-nos imediatamente do filme diretamente escolhido para participar ao famoso Leone d’Oro: Linhas de Wellington, de Valéria Sarmiento, com um magnífico cast no qual predominam as interpretações de Nuno Lopes, Soraia Chaves, John Malkolvich (digno de receber a Copa Volpi), Marisa Paredes, Melvil Poupaud, Mathieu Amalric, todos envolvidos na revelação de uma dimensão coral de alta intensidade que caracteriza o filme. Trata-se de uma co-produçãol Portugal- França, que encontra boa e equilibrada correspondência no script que mostra o grande episódio histórico da última fase da invasão napoleônica do Portugal, começada por Junot em 1808. O filme de Valéria Sarmiento conta em forma contida, a exaltante retirada das tropas aliadas de Portugal e Inglaterra a partir da grande vitória de Coimbra que desbaratara o exército francês comandado pelo general Massena. A aparente absurda retirada dos vencedores, acompanhado por grande multidão de povo, se transforma numa expressão épica pelos muitos sacrifícios sofridos pela população civil, sempre solidária com os seus defensores, até a chegada às portas de Lisboa. Ali, por longo tempo, principalmente a gente comum se sacrifica na edificação daquela que se fará uma histórica forma de guerra tática.

A famosa defesa de Lisboa de Wellington, mas principalmente devida ao imenso sacrifício que o povo português vive no espisódio que se completa com a expulsão definitiva dos franceses do general Massena, em 1811, encontra no filme de Valéria Sarmientouma significativa lição de direção artística e de uma interpretação coral de grande dimensão dramática. A invasão de 1808, de grande importância para a história não só de Portugal, mas igualmente para aquela do Brasil que praticamente antecipa a sua independência com a chegada da Corte portuguesa, sob o Príncipe Regente D. João, futuro D. João VI, soberano do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, encontra no filme da Sarmiento a voz de um povo, o português, então sufocado pela decadência do poder político e pela ingerência da Inglaterra, nova forma de força colonizadora que aparentemente se apóia na tradição colonial porltuguesa para mais intesamente afirmar uma nova ordem de existência para os povos no século XIX. As Linhas de Wellington se apresentam como a grande epopéia do povo de Portugal que saberá encontrar soluções para os seus grandes e perseverantes problemas.

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