(Manel Cruz)
Da Serra desce o negrume a afundar o Vale
cai sobre a terra aguaceiro atrás de aguaceiro
o rio cresce e sai das bordas
a cheia engorda os olhos dos meninos
redondos de tanta água
chega ao paredão
cobre o açude
e abraça a ponte
arrastando o manto
como um rei
leva porcos, abóboras e galinhas
e medas de palha
bailando como damas
em séquito majestoso
corte ou corte
ao sabor da fantasia.
Raquel é também rainha da cheia
ou galinha, não importa
vai no rio
toda ela é água.
Pára a chuva
abre-se o céu
recolhe o rio ao leito
seu mundo estreito
e a ponte ainda lá está.
(in Eva Cruz, Era uma vez, Future Kids, Campo das Letras)

