CONTOS &CRÓNICAS – “Os quatro anainhos” – por Eva Cruz

contos2 (2)

 

Eram quatro anões que viviam lá para os fundos da aldeia. Uma mãe de estatura normal dera à luz quatro rapazes anões e uma rapariga alta.

Na aldeia quase todos tinham alcunha. E sempre a conotação era irónica e maldosa. Uma coisa era certa, assentava que nem uma luva.

Os anões deram logo o nome de anainhos à família. Neste caso a alcunha tinha uma carga ternurenta. O diminutivo revelava um certo carinho por esta família.

 Por ali cresceram, por ali se fizeram homens em ponto pequeno e eram por todos respeitados. Casaram cada um com a sua moçoila alta e fizeram a sua prole composta de gente de tamanho normal. Por onde passavam davam nas vistas porque andavam sempre juntos.

 Para as crianças era uma forma real de imaginar o conto da Branca de Neve, apenas com quatro anões.

 Recordo-os a sair da missa na capela, nos seus fatos domingueiros, todos pomposos, chapéu de feltro preto poisado na cabeça, dando e recebendo os bons dias.

Em passeio, resolveram ir ao Porto, viagem não muito facilitada para a época. A cidade ficava longe e a camioneta amarela levava umas horas a chegar lá por estradas velhas e sinuosas de macadame. Partiram quase de madrugada, num dia de Primavera. Já o sol clareava a linha negra da serra, quando a camioneta parou. O revisor cobrou-lhes o bilhete e lá foram rumo à cidade desejada. Era a primeira vez que visitavam o Porto, mas havia de correr tudo bem. Os quatro juntos valiam por dois homens grandes.

A camioneta desceu a avenida de Gaia, ladeada de edifícios de bela arquitectura. Seguiu-se a travessia da imponente Ponte de D. Luís. Lá em baixo o Douro por entre margens a pique. A espraiar-se para a Foz, mostrava-se majestoso comparado com o rio da sua aldeia, bordejado de choupos e amieiros correndo por meio de lameiros.

Mesmo ao lado, mais a Leste, a ponte de D. Maria, onde o comboio passava muito devagarinho, quase a passo, lembrando uma lagarta dos pinheiros. Dizia-se que os parafusos iam caindo um a um para o rio, dado o mau estado da ponte.

 Ao fundo o Porto, empoleirado na colina encimada pela Sé, olhava a margem de Gaia, de onde a serra do Pilar, por sua vez, mirava o Porto. Lá em baixo, o cais da Ribeira, os barcos rabelos, de velas quadradas e mastro à proa carregavam barris de Vinho do Porto, a glória da cidade.

Um assombro.

Saíram na Batalha. O tempo não era muito apesar de na Primavera os dias já serem um nadinha mais longos. Deu, no entanto, para se passearem a pé por Santa Catarina, verem ao longe a emblemática Torre dos Clérigos, torre sineira com os seus seis andares em vetusto granito, e pouco mais. Puxaram da merenda à hora de almoço e continuaram a andar. Desceram a rua Trinta e Um de Janeiro para visitarem a Avenida dos Aliados, a Câmara e a grandeza dos seus edifícios.

 Os quatro anainhos olhavam deslumbrados as montras cheias de coisas apetecíveis, quando repararam que as pessoas que subiam e desciam estavam pasmadas a olhar para eles.

 Riram-se os anainhos e um deles parou e disse: Normalmente são chamados de pategos os da aldeia que vêm à cidade. Ficam pasmados com o que vêem. Desta vez pasmaram os da cidade com os da aldeia. Patego afinal é o Porto…

Dali para a frente foi mais um episódio para o reportório de pequenas histórias, histórias de almas penadas, de fantasmas, do tardo e de ladrões, à lareira, que preenchiam os serões da aldeia por entre gargalhadas.

Leave a Reply