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DINHEIROS PÚBLICOS, GESTÃO DESCONTROLADA – 1 – por José de Almeida Serra

Este texto, escrito para O Economista, é aqui publicado com autorização expressa do autor, ao qual agradecemos

 1 – Em mais esta edição de “O Economista” temos ocasião de reler os mesmos comentários que muitos vêm fazendo, desde há muitos anos, sobre a situação económico-financeira do País e os problemas com que nos defrontamos. Agora numa situação de profunda desilusão colectiva e, em muitos casos, de desespero, descrença e miséria de muitos concidadãos.

Portugal sobrevive, hoje, à custa de apoios externos e perdeu muita da sua soberania. Não daquela parcela de soberania que todos os países perderam naturalmente num quadro de colaborações e interdependências múltiplas, agora a nível planetário, em que os interesses de uns e de outros têm de ser acomodados e ajustados; mas perda de soberania porque não soubemos gerir nem a casa nem as contas – públicas e privadas – e já não conseguimos arranjar autonomamente dinheiro para “chegar ao fim do mês” (muitas famílias) ou ao fim do “período do orçamento” (Estado). E por isso passamos pelo vexame e pela vergonha de sermos periodicamente examinados por uns funcionários mais ou menos subalternos de determinadas organizações internacionais.

Quem vive de dinheiro de credores, sujeita-se naturalmente a quem empresta.

E, contudo, há década e meia (pelo menos) que era visível e previsível o plano inclinado em que estávamos a cair. E isso foi dito e redito em comunicações, artigos, intervenções, tomadas de posição (relembro algumas da Sedes) e pareceres de entidades como o Conselho Económico e Social (vejam-se muitos pareceres elaborados desde final dos anos de 1990, que obviamente não foram tidos em conta para nada, se é que alguma vez foram lidos pelos destinatários, isto é, pelos deputados da Assembleia da República).

2 – Atentemos no Orçamento do Estado. Vêm-se propondo melhorias que colocariam aquele documento – e sobretudo a prática de elaboração, execução e controlo orçamental – ao nível do que o Estado exige às empresas: verdade, plurianualidade, consistência técnica, explicitação e fundamentação de opções, objectivos e modelos. E, sobretudo, economia e racionalidade. A legislação sobre orçamento e contas apresenta-se, hoje, excelente e tudo o que é importante para uma boa gestão orçamental se encontra legalmente previsto. Só que uma coisa é o que a lei diz, outra, o que a prática evidencia.

Em matéria de finanças públicas não têm faltado grupos de trabalho, conselhos e comissões nos últimos vinte anos, referindo-se:

Conselho de Coordenação Financeira do      Sector Público      Administrativo criado, junto do      Ministério das Finanças, com natureza consultiva, pela Lei Orgânica n.º      2/2002, de 28 de Agosto. Parece não ter tido qualquer contributo      relevante;

3 – As questões de racionalidade e de economia publicas vêm desde há muito a ser discutidas, mesmo ao nível dos responsáveis governamentais nesta matéria. Recorda-se o que em tempos se escreveu nesta revista a esse propósito[2]:

“Para fazer face a parte dos problemas apresentados relativamente à despesa, aquando da apresentação do Orçamento de Estado para 2000, o Ministro das Finanças prometera que o orçamento para 2001 seria um orçamento de base zero. Nesta perspectiva, o OE-2000 era considerado pelo ministro como um orçamento de transição e o de 2001 marcaria o início da apresentação dos Orçamentos de Estado numa base plurianual, contemplando programas e actividades.

Alguns meses após, foi apresentado, pelo mesmo ministro, o orçamento para 2001 que se subordinaria a uma nova concepção do Ministério das Finanças para a elaboração dos orçamentos do Estado, intitulada Activity Based Budgeting (ABB) – “método orçamental (que) viabiliza a relação dos objectivos estratégicos com as actividades operacionais” (Relatório Geral do Orçamento do Estado para 2001, pág. 325) – afirmando-se que “no caso português o ano 2000 marca o início do processo” (idem, pág. 330), estando “o orçamento por actividades (…) a ser implementado em todos os ministérios” (idem, pág. 331) e o “ABB está em implementação no Ministério das Finanças” (idem, pág. 331), embora “apenas alguma das suas entidades (estivessem) já a ser alvo de tratamento na primeira fase desenvolvida. As entidades seleccionadas para servirem de caso piloto são a Direcção Geral das Alfândegas e Impostos Especiais sobre o Consumo (DGAIEC) e o Instituto Nacional de Garantia Agrícola (INGA) (…). As outras entidades relevantes em termos orçamentais serão alvo de análise a partir do início de 2001””.

 As transcrições que se deixam datam de 2000-2001: o que aconteceu posteriormente? Muito em termos legislativos, muito pouco em termos práticos e substantivos.

(Continua)


[1] Por José de Almeida Serra, economista. Artigo concluído na segunda metade de Agosto de 2012. Retomam-se aqui várias ideias anteriormente publicitadas, em particular em “O Economista”.

[2] José de Almeida Serra, “Uma questão política”, Cadernos de Economia, Janeiro/Março de 2005.

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