
É neste espaço de dúvida que o sagrado se move em território do profano.
É uma dúvida – a que os profissionais das religiões se agarram e que apenas se compreende nessa perspectiva profissional – racionalmente (a razão, não sendo a única, é a maior inimiga da fé), a circunstância económica, o clima de caos que estamos a viver, dá às pessoas, mesmo aos jovens, um sentimento que apenas costuma invadir os velhos – a consciência da precariedade da vida. Para centenas de milhares de pessoas a vida transformou-se, o equilíbrio que servia de base às suas vidas, quebrou-se. Situações económicas baseadas em créditos que falaciosamente foram sendo infiltrados nos hábitos dos cidadãos – compra de habitações, de automóveis, viagens… – viram-se, de um mês para o outro, mergulhadas numa insolvência total.
As estatísticas que o artigo do Público, bem feito, diga-se, ilustram o regresso à fé, elucidam quem, como nós, não acredita que haja outro fenómeno a intervir neste regresso, a não ser o medo. O medo do futuro e, pior, o medo do presente. Seria útil que outro estudo nos revelasse, apoiado por estatísticas também, o número de suicídios, de mortes por subnutrição, por falta de medicação e de cuidados de saúde… Estatísticas que nos dessem o acréscimo de óbitos ocorridos por estes motivos no último ano, relativamente aos anos anteriores. Grosso modo, saberíamos quantas pessoas foram assassinadas por Passos Coelho, Vítor Gaspar e o resto desta trupe de miseráveis. Para esta gente, que lida com a vida das pessoas como quem manipula números, sem curar de saber quantas pessoas vão morrer como consequência dos seus malabarismos economicistas, as dúvidas sobre a existência de uma justiça divina não parecem existir. Aliás, o grande argumento dos ateus é esse mesmo – tudo ocorre no mundo sem que Deus intervenha. Para que serve um Deus surdo, cego e mudo? Se os nazis, responsáveis por milhões de mortes, não tivessem sido julgados em Nuremberga e enforcados (pelo menos alguns), Deus tê-los-ia deixado morrer de morte natural. «A onsciência, castigá-los-ia», dizem os crentes.
Os nazis, os assassinos, bem como esta gente do executivo de Lisboa, a mando de Bruxelas e de Berlim, não tem consciência do mal que faz. Não tem consciência. E se estamos à espera que Deus os castigue, bem podemos esperar.

