CRÓNICA DE DOMINGO – O espírito religioso e a vida política – por João Machado

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As visitas do papa Francisco a diversos países têm sido amplamente divulgadas na grande comunicação social. Ele tem tido claramente sucesso na intenção de reafirmar o papel da sua igreja na vida mundial. Sobre as duas últimas visitas que empreendeu, a Cuba e aos Estados Unidos, há indicações de que terá tido um grande sucesso. Duvida-se que delas resultem resultados significativos para os povos dos países visitados, ao nível da liberdade, do bem-estar ou da segurança, mas conseguiu que se falasse bastante da igreja católica romana e do seu líder. E prevê-se que a influência que exercem será cada vez maior no futuro.

A época que atravessamos é de recrudescimento da influência da religião na vida dos povos e das nações. Esta foi sempre grande, mas terá conhecido um período de retrocesso ao longo dos séculos XIX e XX, tendendo à separação do poder político e da religião, entendendo-se aqui os assuntos políticos como os relacionados com a disputa pelo poder e pelo domínio do estado nas nações, e a sua manutenção. Mas desde a década de 1970 que há abertamente um movimento no sentido contrário a esta separação. A implantação do estado de Israel, formalizada após a segunda guerra mundial, já terá sido um passo no sentido de recrudescimento da influência da religião sobre o poder político, talvez sem que grande parte dos seus promotores se desse conta disso. Outro passo muito grande foi quando, no âmbito do chamado conflito leste-oeste, se fomentou o recrudescimento de forças retrógradas, como a Al-Qaeda, esta com uma influência decisiva na guerra do Afeganistão contra a URSS, e nas lutas independentistas dos países do Cáucaso. O alastrar dos conflitos religiosos pelo Próximo e Médio Oriente, e pela África, que culminaram no aparecimento do chamado EI – Estado Islâmico, põe à luz do dia este recrudescimento da influência religiosa na vida destas regiões, e não só. A crise dos refugiados, levantando grandes problemas humanitários, que têm de ser tratados com prioridade, exige também que se analise em profundidade o que se passa, e quais as suas raízes.

A rejeição do modo de vida moderno, dos valores formados e dominantes nas nações ocidentais, que têm sido divulgados e mesmo adoptados no resto do mundo, em escala maior ou menor, aparenta ser, à primeira vista, um motivo determinante para parte das movimentações que tantos problemas têm causado. Obviamente que esta rejeição dos valores modernos  esconde outros motivos, pelo menos junto das populações das nações afectadas, de onde provêm a maioria dos refugiados. O conflito geoestratégico leste-oeste, muito caro às nomenclaturas de vários lados, as disputas relacionadas com o petróleo, antigos conflitos étnicos e regionais, as invocadas lutas contra ditaduras como ocorreu na Líbia e na Síria, são factores importantes nesta questão gigantesca que está a ser alimentada e se vem agravando já há bastante tempo.

Há que salientar contudo o papel fulcral da religião no agravar destas tensões. As populações, desiludidas com o falhar dos vários governos, após o falhanço de movimentações como as da chamada primavera árabe, sofrendo os efeitos de guerras, de crises económicas e naturais, viram-se para a religião, e para as promessas de benesses neste mundo e no outro. E aqui é importante frisar que a movimentação religiosa no ocidente procura acompanhar esta situação, mesmo invocando a aproximação às outras religiões. É tendo isto em conta que o papa Francisco empreende estas viagens constantes, que lhe granjeiam  grande popularidade, e lhe permitem dar a imagem de uma proximidade aos problemas. O episódio da menina filha de imigrantes mexicanos ilegais a entregar-lhe uma mensagem inscreve-se perfeitamente nesta sua orientação. Será que terá abordado em algum momento o problema da violência racista nos Estados Unidos?

Os Estados Unidos, a superpotência mundial sobrevivente, que se atribui os títulos de campeão da democracia e defensor dos direitos humanos por todo o planeta, são um país profundamente religioso. Nele se praticam todas as religiões, mas será de recordar o que Harold Bloom, prestigioso crítico literário norte-americano, professor em Yale, já jubilado, filho de judeus praticantes, e que se interessa desde sempre pela problemática religiosa, escreveu num artigo publicado em The New York Review of Books, em 2007, volume LIV, número 18:

“Nos Estados Unidos, hoje em dia, a religião está politizada, e nenhum candidato a qualquer cargo se atreve a ser alguma coisa diferente de profundamente crente. A este respeito, o abismo entre os Estados Unidos e a Europa (exceptuando a Irlanda) é actualmente absoluto”.

O artigo em que Harold Bloom escreveu o acima referido intitula-se A Beleza dos Salmos, Quem louvará o Senhor?,  e visa comentar The Book of Psalms: A Translation with Commentary, uma tradução do hebraico, por Robert Alter. Harold Bloom não levará a mal que se refira que é tido como ateu, até por próximos seus. Ele, modestamente, nega. O problema é dele, claro. Referimo-lo aqui apenas para deixar claro que não simpatiza de modo nenhum com a situação que refere. E que esta tem tido uma influência profunda, não só no que se passa no país, como no resto do mundo.

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