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RONDON – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 – O alferes Cândido Rondon tem 23 anos quando auxilia Benjamim Constant a implantar o regime republicano. E no ano seguinte, em 1890, é graduado bacharel de Ciências Físicas e Naturais e promovido a tenente. A convite do seu mestre Benjamim Constant, na Escola Militar começa a lecionar Astronomia, Mecânica Racional e Matemática Superior. Mas, pouco tempo depois, convidado para o serviço mais árduo do Exército, que é a construção de linhas telegráficas pelo interior do Brasil, não hesita em abandonar a sua promissora carreira de magistério. E ei-lo, com a sua tropa, a abrir picadas, a abater árvores, a levantar postes, a instalar fios atravessando as matas de Goiás até ao seu Mato Grosso natal. No meio da selva, apavorados, os soldados querem reagir com violência às sucessivas ameaças dos bugres.

Bugres? O que é isso, ó Diaí Nambikuára?

– Bugre é o índio dito selvagem, no linguajar dos brancos. E bugreiro é o caçador de índios. Normalmente é um mestiço que, através da violência contra os seus parentes indígenas, tenta cativar o favor dos brancos. Os índios que se opunham ao avanço dos usurpadores sobre os territórios tribais, eram dizimados e as suas tabas e malocas incendiadas. Para isso é que serviam os bugreiros, muitos deles pagos pelos próprios governos estaduais.

Tabas?

– Aldeias. O objectivo de Rondon não era matar, mas pacificar.

– Princípio positivista, talvez por influência de Benjamim Constant, não?

– Acertou. Em 1898 Rondon adere à Igreja da Religião da Humanidade.

– Mas o Positivismo é uma Religião com Igreja?

– Fernando: a palavra “religião” deriva de “religar”. O Positivismo é uma Religião porque ambiciona religar os Homens. E a sua Igreja é diferente das outras. No Positivismo, a crença em seres e fenómenos sobrenaturais é substituída pela adoração e entendimento de uma nova Trindade: não mais o Pai, o Filho e o Espírito Santo, mas sim a Humanidade, a Terra e o Espaço. A sua Fórmula Sagrada é O Amor por Princípio, a Ordem por Base, o Progresso por Fim. E a sua Fórmula Moral é Viver para Outrem. Ordem e Progresso estão presentes na bandeira do Brasil. Já reparou?

– Sim. E Você? Também é positivista?

– Não vim à Europa para falar de mim.

– Mas como é possível pacificar um povo em armas, estando os seus guerreiros, com razão, indignados e furiosos?

– Essa é, justamente, a grandeza de Rondon. Foi sempre rigoroso na aplicação da sua máxima “Morrer, se for preciso; matar nunca!”. Dezenas de oficiais e mais de centena e meia de soldados e trabalhadores civis foram mortos porque desistiram de matar. Melhor dizendo: deixaram-se matar. Neles, a força de uma ideia suplantou o instinto de conservação. O humanismo, levado a sério, tem custos altos.

– O princípio teórico, eu compreendo. Mas, na prática, como é que Rondon o aplicava?

– Fernando: compreenda, como Rondon o compreendeu, que os índios são homens a viver no neolítico. Mas somos homens e, como todos os homens, ambicionamos viver melhor. Súbitas e maravilhosas ferramentas de metal postas à nossa disposição, facas, facões, cunhas, alavancas, anzóis, tesouras, machados e machetes, podem ser o chamariz que nos decida à caminhada da pré-história à civilização. Quando cercado e atacado pelos índios, Rondon deixa os presentes numa clareira e trata de recuar com a sua tropa. Sinal evidente de que deseja a paz e, no dia seguinte, torna. Tantas vezes, quanto as necessárias até que os índios se disponham a ir à fala…

– E todos eles aceitavam o diálogo?

– Nem todos, alguns são muito renitentes. Rondon explica-nos porquê: “Eles nos evitam; não nos proporcionam ocasião para uma conferência, com certeza por causa da desconfiança provocada pelos primeiros invasores que profanaram seus lares. Talvez nos odeiem também porque, do ponto de vista em que estão, todos nós fazemos parte dessa grande tribo guerreira que, desde tempos imemoriais, lhes vem causando tantas desgraças, das quais as mais antigas revivem nas tradições conservadas pelos anciães.” Eis porque um dos meus antepassados, da tribo dos Nambikuára, quase o mata à frechada; uma das setas raspa-lhe o rosto, a outra crava-se na bandoleira da carabina.

– E ele?

– Limita-se a disparar dois tiros para o ar. Assim nós, os Nambikuára, estamos vendo que aquele guerreiro, da tribo dos brancos, não quer matar.

– E os soldados?

– Exigem vingança. Um oficial grita que é uma vergonha se o Exército não der um corretivo exemplar àqueles selvagens. Rondon corta-lhe a palavra: “Quem representa aqui o Exército sou eu, e o Exército não veio aqui para fazer guerras. Os Nambikuára não sabem que a nossa missão é de paz. Se esta terra fosse vossa e alguém viesse roubá-la e, ainda por cima, vos desse tiros, o que é que os senhores fariam apesar de civilizados?” Mão firme e palavras como estas é que travam a tropa.

– Isso aconteceu durante a primeira expedição de Goiás a Mato Grosso?

– Não, isto aconteceu mais tarde, em 1907, se não me falha a memória. Aventuras como esta, muitas, converteram Rondon em salvador dos índios brasileiros.

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