Cândido Rondon – 2 – por Fernando Correia da Silva

 (Continuação)

 

CURUPIRA

 

– Curupira é o espírito maligno da mata, equivalente ao vosso Diabo. Ser disforme, de grandes orelhas, calvo, com as pernas às avessas, calcanhares para a frente e dedos para trás. Marcha com firmeza do abismo para a vida. Por causa das pegadas invertidas, quem pensa seguir-lhe a pista, acaba por cair no tal abismo ou noutra qualquer arapuca.

 

– Arapuca? O que é isso?

 

– Armadilha.

 

– Estou a ver, mitologia indígena…

 

– Não só indígena…

 

– Vai desculpar-me, mas o que é que isso tem a ver com a Europa? Diaí Nambikuára abre os braços, sorri, diverte-se:

 

 – Você acha que não tem? Então me diga uma coisa: não foi o Curupira que vos atraiu desde o “ama o próximo como a ti mesmo” até aos autos de fé da Inquisição? Não foi o Curupira que vos atraiu desde o comunismo, bem comum, até ao desterro e às matanças do Goulag? Não foi o Curupira, esse diabo, que invadiu e destroçou os vossos Paraísos? Se não, então quem foi? Também sorrio, não sei o que responder, tento uma esquiva:

 

 – Não me diga que o Rondon também seguiu as pegadas do Curupira…

  

– Não, nessa não caiu. A vingança do Curupira é agora soprar sobre ele as neblinas do Esquecimento. Sobre ele e sobre os seus antepassados espirituais…

 

– Que foram…

 

– Augusto Comte e Benjamim Constant.

 

POSITIVISTAS

 

Comte e Marx… 

 

 – Dois franceses?

 

– Um francês, Augusto Comte. E um brasileiro, Benjamim Constant Botelho de Magalhães.

 

– Comte, eu sei que foi o fundador do Positivismo. Benjamim Constant Magalhães não sei quem seja, confesso a minha ignorância.

 

– Foi o militar brasileiro que em 15 de Novembro de 1889 promoveu a transição pacífica da Monarquia para a República. Antes dessa data já abrira caminho para a abolição da escravatura, que veio a ocorrer em 13 de Maio de 1888.

 

 – Uma figura…

 

– Um positivista convicto. Ainda moço, lê, estuda e analisa o Curso de Filosofia Positiva de Augusto Comte. Entusiasma-se, adere ao Positivismo. O ideal desta Filosofia era unir todas as Culturas, até então separadas, do Ocidente e do Oriente, sem que nada se perdesse e tudo se somasse. Para Comte, cada homem vale não pelo que tem, mas pelo que é, mais do que a fortuna vale o mérito. Tentou alcançar o Guajupiá através do…

 

 – O quê?

 

– Paraíso.

 

– Por que é que Você, volta e meia, usa palavras tupis? É tupi, não é?

 

– Sim, é tupi-guarani. É só para que Você saiba que os índios não são alheios a certos conceitos metafísicos, não somos os selvagens broncos que nos pintam.

 

 – Estou a ver… Mas Comte pensava alcançar o Paraíso através…

 

– Através do progresso do espírito humano, três estádios, o teológico, o metafísico e, finalmente, o positivo. Neste, vingariam máximas como “agir por afeição e pensar para agir”, “induzir para deduzir, a fim de construir”, “saber para prever, a fim de prover”. Está entendendo?

 

– Mais ou menos…. E Marx? Como pensava ele alcançar o Paraíso?

 

– Através da luta de classes; justamente para aboli-las e acabar de vez com a exploração do homem pelo homem.

 

– De boas intenções está o Inferno cheio, não é?

 

– Se eu fosse positivista ou marxista dir-lhe-ia: Aurora, deixe-se de metafísicas! Mas isso, por agora, não interessa. Repare: curiosamente, é no Brasil que mais fundo se enraíza o Positivismo. Não em França, nem sequer no resto da Europa. Já lhe disse que foi um positivista brasileiro que promoveu a transição pacífica da Monarquia para a República. Na nossa bandeira ainda hoje permanece inscrita a máxima positivista Ordem e Progresso. Aurora: nas movimentações políticas do 15 de Novembro de 1889, sabe quem foi o homem de confiança do Benjamim Constant?

 

– Não faço ideia.

 

– Foi o alferes matogrossense Cândido Rondon.

 

 – Finalmente o Rondon! Já não era sem tempo…

 

(Continua)

 

 

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