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UTOPIA, PRECISA-SE…! – 1 – por Manuel Barbosa Pereira

Este artigo é transcrito, com a devida vénia, do REFERENCIAL nº 107, com expressa autorização da presidência da A25 e da direcção do REFERENCIAL. Ao autor, um militar de Abril, endereçamos também os nossos agradecimentos.

 Trinta e oito anos depois de Abril, Portugal sofre  pesadelo de uma invasão estrangeira  com as Armas pesadas da austeridade sem fim e do saque desenfreado dos “activos” nacionais e haveres da população. Uma guerra de novo tipo precedida que foi por acções internas de sabotagem levadas a cabo por “cavalos de Troika” residentes que destruíram em duas décadas o potencial económico e social do país. Esgotados os adjectivos e os superlativos para qualificar (e quantificar) tamanha calamidade, a hora é de tocar a reunir os patriotas dispostos a passar à resistência activa… Entretanto, partilho a reflexão pessoal de uma outra dimensão suscitada por este drama.

ESPÉCIE HUMANA

A premência de dominar um habitat hostil e minimizar o impacto nefasto dos fenómenos naturais terá sido o primeiro grande desafio que a espécie humana teve de enfrentar. Defenderse das ameaças e ultrapassar os obstáculos que lhe condicionavam totalmente a existência foram assim objectivos primordiais dos vulneráveis primatas que começavam a destacar-se das outras espécies animais pela posse da centelha misteriosa da Inteligência… As limitações individuais face  às exigências da luta feroz pela sobrevivência

cedo terão levado à associação espontânea dos homens como única forma de garantir a satisfação das suas necessidades vitais. Nesta cooperação em prol da segurança e da subsistência colectivas residirá porventura a génese das organizações humanas e traduz, desde logo, o reconhecimento do primado do social sobre o individual.

 Com efeito, esta natureza “social” atribuída ao homem fruto do Instinto ou já da consciência, cristaliza a breve trecho a noção de um destino mais alargado partilhado por todos os homens.Destino forjado nas ameaças comuns e na ignorância do vasto mundo que os rodeava, a razão nascente começa a interrogar-se também sobre a origem e finalidade da sua própria existência.Fatalismo biológico ou mesmo cósmico para uns ou imperativo da necessidade para outros, a obsessão de encontrar resposta para tais questões não mais o abandonaria. A despeito das vicissitudes dos milénios de evolução, estas interrogaçõesfundamentais iriam permanecer sempre vivas no espírito dos homens, continuando a ser veiculadas de geração para geração até hoje pelos maiores vultos da humanidade de todas as épocas.

 Não foi ainda descoberta é certo, a fórmula mágica que permitirá um dia (?) realizar tal destino colectivo. Um destino digno da única espécie dotada das enormes capacidades que permitiram transformar o habitat primitivo de forma tão radical! Um destino que a Razão obriga a situar acima das tarefas e lutas efémeras da vida quotidiana, reféns que estiveram os homens durante milénios do ciclo vicioso e inglório do “nascimento, sobrevivência e morte”. Um ciclo que se justificava na noite dos tempos quando a luta pela sobrevivência se impunha como única prioridade.

.Com a descoberta da agricultura e depois da pecuária, o clã conquista a segurança e a abundância da vida sedentária e abandona o nomadismo.Com as necessidades tradicionais satisfeitas, a economia de mera subsistência é ultrapassada e começa mesmo a gerar excedentes de produção graças aos progressos conseguidos na organização e na especialização do trabalho, até aí todo ele colectivo. Foi quando a propriedade deixou também de ser colectiva e a solidariedade caiu no esquecimento, perdida a memória dos grandes Pioneiros que descobriram o Fogo e a Roda para benefício de todos os clãs. Foi afinal quando os humanos deixaram de ser iguais! Deixaram que os inventores da ploração emergissem das trevas travestidos de profetas da primeira das religiões – que hoje tem o nome de acumulação. O sustentáculo doutrinário dos arautos inaugurais da ganância radicava na falácia ainda hoje propalada, de serem fatalismos inerentes à espécie humana tanto a desigualdade entre os homens como as próprias superstições e crenças primitivas filhas da ignorância. Embuste logo transformado em conveniente dogma pela nova casta de “feiticeiros” no poder. A desigualdade entre os homens foi assim suportada desde o início, por uma crença ou religião a quem cabia pregar a resignação nas desgraças e sofrimentos “deste mundo” em troca de uma hipotética igualdade e recompensas (celestiais!) no “outro mundo”. Conforme as épocas e latitudes, tal patranha assumiu diferentes matizes no reforço da ilusão de uma pretensa igualdade… perante o(s) deus(es). Após a morte!

 Entre nós este equívoco foi alimentado entre outros, pelo chamado humanismo renascentista que decretou “o homem como centro do universo e origem e finalidade de toda a criação” teoria cedo desmentida pela ciência da astronomia já no século XVI que valeu a Giordano Bruno a terrível morte na fogueira pela mão da tenebrosa Inquisição que geria o obscurantismo neste cantinho ocidental de um mundo com civilizações várias vezes milenárias. Com este martírio – a que Galileu escapou por pouco – começaram por fim a dissipar-se lentamente as nuvens que encobriam esta minúscula nave baptizada ”Terra” que nos transporta pelo Cosmos protegida pela sua atmosfera, integrada num sistema planetário que gravita à volta de uma estrela de reduzida dimensão. Um sistema vagamente excêntrico na periferia de uma galáxia também ela de dimensão mediana no conjunto dos biliões de galáxias em movimento que o universo “visível” nos oferece…

 (Continua)

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