Ao aproximar-se a quadra natalícia, apodera-se da generalidade das pessoas um sentimento humanitário que nada tem de genuinamente humano – o consumismo toma conta de tudo, as mensagens publicitárias cruzam-se com as sentimentais e as religiosas e formam um amálgama de sensações confusas, de uma falsa nostalgia de natais que nunca aconteceram. Nem o corte do subsídio consegue deter esta vaga. E, à mistura com os anúncios , lá vem o Augusto Gil e a sua Balada de Neve – mas as crianças, senhor…
Não partilhamos qualquer entusiasmo por expressões estúpidas (por óbvias) como – «os jovens são o futuro». Claro que são, mas o axioma não tem sentido – pois então os jovens haviam de ser o passado? – é tão profundo como dizer que depois da noite vem o dia e vice-versa. Objectivamente, Pedro Nunes, Garcia de Orta, Antero de Quental, deram mais ao futuro do que a generalidade dos jovens de hoje vão dar. Objectivamente, quando um velho com Agostinho da Silva ou Oscar Niemeyer morre, a Humanidade perde futuro e o presente fica empobrecido.
O futuro é sempre de quem nele estiver num dado momento. O que não significa que seja bom. Recusamos a demagogia com que se elogia a juventude, do mesmo modo que não aceitamos a demagogia com que se disfarça a velhice – passando a chamar idosos ou seniores aos velhos. São desprezíveis truques de marketing que desaparecerão se os adolescentes por via da crise perderem as semanadas e se os velhos deixarem de receber as pensões. Ou seja, se uns e outros, deixarem de ser um mercado.
As crianças são um caso diferente. São seres que estão à guarda da comunidade. Entre elas estão os políticos, os cientistas, os assassinos, os seres generosos e os pulhas do futuro. Mas o que vão ser, se tem alguma raiz genética, dependerá muito do que a comunidade lhes fizer. Não vos vamos castigar com o os versos do Alfredo Gil na Balada de Neve. Porém, uma humanidade que não cuida das crianças não tem futuro. Deixar meninos com fome por não terem dinheiro para a senha do almoço na cantina escolar, quando sabemos o que acontece a milhares de milhões de euros, sumidos em contas privadas de membros da camarilha política e de seus familiares e amigos… Em vez da súplica de Augusto Gil a um Senhor que, pelos vistos, é surdo, gritamos aos «senhores» do poder económico e político:
Há crianças com fome! Tende vergonha!


