“Vermeer na galeria das Scuderie del Quirinale, Roma”
Desde quando desembarquei pela primeira vez em Roma, vindo do Rio, no novembro de 1962, sempre que posso retorno com grande prazer e reiterado proveito à Cidade Eterna. Foi o que aconteceu no final de novembro do apenas concluso 2012, quando estive de novo em Roma e desta vez com a determinada intenção de tomar direto conhecimento com a ampla programação artística do período outono-inverno da Capital. Além das exposições permanentes que fazem de Roma uma cidade essencial para quem se interessa de arte, essas outras eram muitas, desde a pintura de Gutuso à arquitetura de Le Corbusier considerada em relação àquela da Itália contemporânea. Mas, as minhas maiores atenções se dirigiam a duas específicas exposições: uma das pinturas de Vermeer, nas Scuderie del Quirinale, e outra, a de Paul Klee, na Galleria Nazionale d’Arte Moderna. Comecemos com aquela do pintor holandês.
A Exposição de Jan Vermeer (1632–1675), vista em confronto com o século de ouro da arte holandesa, é uma muito especial oportunidade para que tomemos contacto com um dos maiores representantes daquela Escola entre as mais importantes na história das artes internacionais. Bem como nos leva mais uma vez a poder confrontar as características próprias do século XVII com aquelas do século XX que continuamos a viver nesses anos do novo Milênio. Desde sempre os estudiosos da cultura ocidental sempre estiveram de acordo com o fato que dois séculos tão distantes entre si apresentam pontos comuns de rara intensidade.
A pintura dos Países Baixos ocupa um grande espaço naquela possível definição do tempo moderno a que tanto e sempre nos dedicamos. E muito curiosamente, aquela dos pintores holandeses se apresenta com uma específica produção significativa para a revelação de um universo então apenas em formação, como é aquele do Brasil ainda colonial e, por isso, igualmente primeira apresentação em termos de pintura do universo americano em gearal. No período conclusivo da monarquia dos Felipes em Portugal, período de transição para a realidade mais tipicamente portuguesa, o Brasil colônia vive a importante, em tantos sentidos, experiência de uma dominação holandesa na sua região nordeste; principalmente quando consideramos a presença por tantos aspectos iluminada da Corte de Maurício de Nassau na Recife depois capital de Pernambuco, então criada. Nesse momento o príncipe holandês, espírito iluminado, acolhe e hospeda muitos artistas, entre os quais Frans Post (1612-1680) que se estabelece no Brasil de 1637 a 1644. Post, a partir de sua pintura de panoramas, como atestam, entre outras, O rio São Francisco e Forte maurício, de 1638, presente no Louvre, Paris; assim como Paisagem brasileira, de 1647, hoje em Frankfurt, nas galerias Städelsches Kunstinstitut.
A exposição romana Vermeer – il secolo d’oro dell’arte olandese, organizada por Sandrina Bandera, superintendente do patrimônio historico, artístico e etnológico de Milão; Walter Liedtke, curador do departamento de pintura européia do Metropolitan Museum of Art, de Nuova Iorque; Arthur Wheeelock, Jr., curador do departamento de pintura nórdica barroca da National Gallery of Art, de Washington – nos permite de aquilatar como em tantos pontos as artes dos Seicentos e aquelas do Ventésimo Século se aproximam. Diante da pintura de Vermeer e de seus coetâneos logo podemos verificar como, por exemplo, o valor da luz seja essencial para a criação pictórica. Nos quadros de Vermeer a luz irradia-se, revelando mundos cobertos por uma realidade muitas vezes intransponível para olhares menos privilegiados.
A exposição do Quirinale, tradutora da carência de uma mais numerosa presença objetiva de obras por parte de Vermeer, ele que em verdade teve uma produção muito limitada, em
Esta aparentemente limitada visão da arte holandesa no seu período de ouro – limitada se pensada somente quanto ao número de quadrosobras de Vermeer apresentadas, sete no seu total – se perde aos olhos do visitante diante das copiosas obras de pintores de grandíssima capacidade criativa apresentadas, companheiros perfeitos de Vermeer, como Jan van der Heyden; Hendrick van Vliet; Emanuel de Witte; Anthonie de Lorme; Daniel Vosmaer, com a sua “Vista de Delft a partir de uma lógia imaginária“, obra de grande ambição quanto à linguagem pictórica; Egbert van der Poel, com a sua espetacular “Vista de Delft com a explosão de 1864“, tema que o pintor repetirá pelo menos por vinte vezes, dado o grande sucesso alcançado; Nicolas Maes, aluno de Rembrandt; Jacob van Loo; Adriaen van Ostade; Gabriel Metsu, com o seu “O tocador de violoncelo”, muito próximo a quadros de Vermeer, como “A jovem mulher com copo de vinho “; Pieter de Hooch; Gerard ter Borch; Carol Fabritius, um dos principais artistas holandeses do final do século XVII, com o seu muito expressivo “Auto-retrato”; Michiel Sweerts; Gabriel van Musscher; Godfried Schalcken; Gerrit Dou; Hendrick van der Burch; Caspar Netscher, todos esses últimos cultores da temática da música, próximos às lições de Vermeer. E mais: Eglon van de Neer; Gerard ter Borch; Jacob Ochtervelt; Frans van Mieris; Quirjn van Brekelenkam; Frans van Mieris; Gabriel Metsu; Pieter Janssens Elinga; Jacob Ochtervelt; Jan Verkolje; Comelis de Man; Ludolf de Jongh. Toda uma grande equipe de artistas que, com o realce demarcado para Jan Vermeer, formam o século de ouro da arte holandesa.
