CARTA DE VENEZA – 49 – por Sílvio Castro

O Papa vindo de muito longe, do Mundo Novo

 

Antes de tudo, é de grande utilidade remarcar que o Mundo Novo do qual vem o novo Papa, Francisco I, não é aquele mais amplo “das Américas”, como pretende com justo orgulho Barack Obama, mas o da América latina, daquela América latina que vai da Patagonia ao México, criadora da “Teologia da libertação”.

O resultado final, alcançado no quinto escrutínio de um conclave que praticamente repetiu as peripécias daquele anterior, em 2005, do qual saira eleito o Papa Bento XVI, revelou-se como uma surpresa somente para aqueles que não retinham na memória que, já então, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, fora o segundo imediato protagonista na eleição que trouxe a vitória do cardeal alemão Joseph Ratzinger, pois Bergoglio obtivera a metade dos votos do novo Papa, eleito com as suas consagradoras 80 preferências. Desde então ficara testemunhada a particular importância na Igreja católica contemporânea do cardeal-arcebispo de Buenos Aires.

Porém, mesmo assim, os imediatos resultados da eleição pontifícia do último 13 de março de 2013, aquela que sucedia à revolucionária demissão de Bento XVI, de imediato surpreenderam o mundo, não só àquele dos fiéis da Igreja católica. Dessa vez, Bergoglio não conseguiu impedir à maioria do corpo cardinalício de concluir o histórico conclave com a sua eleição.

Muitos observadores passaram a considerar o novo pontificado como natural

continuação daquele de Bento XVI. Possivelmente tal compreensão tem muito de verdadeiro, porém não inteiramente. Isto porque logo nos seus primeiros atos o novo Bispo de Roma praticamente passou a demonstrar que os dois períodos eram distintos. Tudo começa com a reiterada auto-definição de Bispo de Roma, em desfavor daquela de Papa. Já aqui começam a aparecer os traços das lições do Mundo Novo enquanto terra da Teologia da libertação. Mais do que no Papa, a Igreja moderna, aquela dolorosamente procurada por Bento XVI, deve ver nos Bispos a sua mais concreta identidade. Com isso, o catolicismo praticamente oficializa a linha pastoral como a mais importante para a sua ação temporal. O conceito da infalibilidade papal decai fortemente, procurando os precedentes tempos menos marcados por esse dogma. Em correspondência, acentua-se o significado e importância do Bispo de Roma enquanto detentor do cetro e da qualidade de direto e verdadeiro herdeiro do criador do cristianismo. Naquele momento o novo Papado se recompunha diretamente com o Concílio Vaticano II e com o ecumenismo desde então assumido pela Igreja. Mais do que em Bento XVI, o novo Papa se mira na procura do evangelho desejada por Giovanni XXIII e pelo seu Concílio ecumenista.

Assim o ex-arcebispo de Buenos Aires, diante da imensa massa humana composta principalmente de fiés-católicos, mas também de não-fiéis, que gremia a Praça de São Pedro e o aclamava, se apresentou como o novo “Bispo de Roma”: “Sou Francisco, venho do fim do mundo”.

Francisco I – o nome escolhido pelo novo Papa concentra em si mesmo um imenso programa. Funciona de imediato como uma especial “epígrafe” de todo um projeto que se apresenta irresistivelmente. O projeto de um papa jesuíta, o primeiro na história do catolicismo, que assim se chama, revelando-o, ao mesmo tempo, mais vizinho a Francisco de Assis que a Inácio de Loyola. Papa Francisco I vem do fim do mundo, trazendo novas mensagens de evangelização principalmente para a Europa. Mas não só para o Velho Continente, para todo aquele mundo que perdeu o contacto com a natureza escolhendo a corrida capitalista sem freios. A mesma que gera aparentes riquezas e que tende a tirar aos indivíduos o direito à esperança e aos sonhos.

Trazendo consigo a mensagem revolucionária da Teologia da liberação, Francisco I procura antes de tudo dizer a si mesmo que a verdadeira meta de cada homem está em saber reconhecer a presença da pobreza e de procurar remédios para a mesma. Para chegar a tais metas, próprias de uma revolução na Igreja Católica, o novo Bispo de Roma procura encontrar a coragem civil que muitas vezes, em particular nos seus tempos anteriores à subida como arcebispo de Buenos Aires, algumas vezes soube exprimir apenas em formas de ambiguidades. Para isso, ele sabe que precisa apoiar-se no conhecimento do “outro” e a esse consagrar-se.

 A América latina teve uma forte presença em quase todos os episódios que levaram à definitiva consagração de Francisco I. Já na fase preliminar das eleições papais de 13 de março passado, o brasileiro Odílio Pedro Sherer, cardeal-arcebispo de São Paulo, resultava um dos favoritos. Porém, a sua posição ativa em órgãos como o IOR (Instituto para Obras Religiosas, transformado num nefasto Instituto financiário do Vaticano), do qual o cardeal brasileiro fez um grande elogio em plena campanha eleitoral, fez com que caíssems verticamente as suas quotações. Tudo isso não serviu senão a colocá-lo à margem pelos eleitores conciliares. Isto a começar pelas corajosas críticas que lhe fizeram os demais cardiais brasileiros presentes a Roma para o grande evento.

Mas, no final os 150 milhões de católicos brasileiros tiveram a alegria de verificar que, com a eleição de Francisco I, também eles se faziam vencedores pois, com o novo Bispo de Roma, o espírito ecumênico das lições mais amplas da Teologia da libertação, desde aquelas inesquecíveis do Bispo de Recife, D. Helder Câmara, se alargam no mundo. Trata-se do mesmo espírito que hoje guia o grande crescimento sócio-político e econômico  do Brasil no concerto internacional.

 Francisco I sobe à cátedra de Pedro aos 76. Nascido em Buenos Aires aos 17 de dezembro de 1936, descendente de imigrantes italianos provenientes do Piemonte. Entrando na Companhia de Jesús, realizou seus estudo humanísticos no Chile. Retornado a Buenos Aires, ali em 1963 completou os estudos de filosofia. De 1967 a 1970 estuda teologia, conquistando o correspondente título de estudos, em 1970. A partir de então principia uma carreira docente, bem como escreve. Admirador do futebo, é fervoroso torcedor do San Lorenzo, de Almagro, clube sem execessivas glórias e títulos. O seu filme predileto revela de certa forma o seu caracter: O banquete de Babette. Sobre a missão da Igreja, Bergoglio define a sua finalidade principal: “A opção principal é descer nas ruas em procura da gente, esta é a nossa missão.”

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