Um Café na Internet
Sim, estais vendo, negro eu sou mas escravo deixei de ser. Quem me comprou, só para depois me dar a alforria, a liberdade, foi D. Pedro de Bragança, o Libertador, o primeiro Imperador do nosso Brasil. Uma vez, sorrindo, disse-me:
– Xangô, cortei-me, afinal o meu sangue não é azul, é vermelho como o teu…
Foi sempre contra a escravidão, alforria, meu farol! Para viajar recusava instalar-se numa liteira carregada por negros; preferia cavalgar ou conduzir uma carruagem puxada por mulas ou cavalos. Aliás D. Pedro entende muito de equitação. Vejo-o não só a montar mas também a lavar, a arrear, a treinar e até mesmo a ferrar os animais.
O quê, saúde de ferro, a sua? Oxalá fosse verdade… Só que às vezes tomba a espernear, epilepsia. Ao recuperar, volta a forçar o corpo, mãos habilidosas para todo o tipo de trabalho, principalmente carpintaria. O que também o inflama são as artes marciais, em esgrima não há quem o vença.
Em 1818, tinha apenas 19 anos, D. Pedro casou com D. Leopoldina Habsburgo, filha do Imperador da Áustria. Em oito anos ela irá dar-lhe sete filhos, entre os quais D. Maria II (futura rainha de Portugal) e D. Pedro II (futuro imperador do Brasil). O quê? Sim, é claro, o seu casamento foi promovido pela diplomacia, não pelo amor.
O matrimónio não abafa a lascívia de D. Pedro. Quatro anos depois das núpcias torna-se amante de D. Domitília, Marquesa de Santos. Nem sequer liga para o escândalo que não pára de engrossar… D. Domitília dá-lhe quatro filhos, sempre amparados pelo pai como se legítimos fossem eles.
Atormentada, D. Leopoldina falece em 1826. Em 1829 D. Pedro torna a casar, agora com D. Amélia, princesa da Baviera, a diplomacia outra vez a funcionar… Princesa que lhe dará mais uma filha.
D. Pedro é impulsivo mas, ao mesmo tempo, comedido. À noite, nas ruas, quando singra na boémia, se algum Zé Ninguém o aborda, dá-lhe sempre uma resposta afável, preza muito a convivência com gente humilde.
É contra a escravatura, alforria, meu farol! É contra mas sabe que ela ainda é um alicerce da fortuna brasileira. Por isso trava a sua gana de total e imediata abolição.
