CANDOMBLÉ – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

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Ricardo, um mulato meu amigo, em São Paulo aponta-me um contínuo do Banco do Brasil: é o Zé Pelintra, negro talhado em mogno, fraca figura, apagado, tímido, modesto. No terreiro do candomblé, quando baixa Ogum, o seu orixá, transforma-se num tipo dominador e combativo. Interrompo:

– Ogum é São Jorge, não é?

Ricardo irrita-se:

– Nesse jacutá, Ogum é Ogum, não é São Jorge; Iansã é Iansã, não é Santa Bárbara; Xangô é Xangô, não é São Jerónimo; Oxalá é Oxalá, não é Jesus Cristo. Ali não há mixórdia, é tudo autêntico, sem carnaval para turista ver. Não é seita, é religião de oprimido. Entendes, ó Portuga?

Entendo, mas quero ver. Ele hesita. Naquele jacutá só vai preto. E o pessoal ficaria renitente, ou mesmo desconfiado, com a presença de um branco. Não perco a oportunidade para malhar:

– Como é, Ricardo? Vocês agora andam a trabalhar com negativos do racismo?

Hesita mas decide-se, leva-me. É a noite de 19 de Novembro, disso me lembro. Realmente sou olhado com desconfiança. Alguns até bufam, rosnam, hostilidade. Rufar ritmado de atabaques. Babalorixás e Ialorixás, sacerdotes e sacerdotisas entoam cânticos, alaluê, alaluá, não sei que mais numa língua ou dialeto africano. Zé Pelintra cai em transe, espuma, treme, cai no chão, esperneia. Logo se levanta e realmente mudou de personalidade, os seus olhos até chispam, saravá! baixou Ogum. Sempre a comandar, aconselha e ampara os seus fiéis, alguns dos quais também caiem em transe ao contacto das suas mãos. De repente olha para mim, aponta:

– Ocê num tá creditando, num é?

Abano a cabeça. Insiste:

– Vê prá crê, cumo São Tomé, num é? Vosmecê num qué tomá uma cerveja?

– Vinho, se houver. De preferência tinto.

– Essa é bebida de Xangô, que é seu orixá, tou vendo. Vamo chamá…

Aproxima-se de mim. Impõe as suas mãos sobre a minha testa. Apago-me.

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