Os crimes da Noite Sangrenta ultrapassam tudo o que se podia imaginar.
Nada que se lhe compare aparece alguma vez com tamanha dimensão de inexplicável selvajaria nas convulsões políticas da história Portuguesa.
Nada de semelhante é possível observar durante os dezasseis anos que dura o regime.
Todos se afirmam inocentes, mas, todos se sentem de algum modo culpados. *
* José Brandão, A Noite Sangrenta, Publicações Alfa, Lisboa,1991.
O segundo número da revista Seara Nova traz um texto de Jaime Cortesão, que apesar de vir a público alguns dias depois dos acontecimentos de 19 de Outubro, o autor esclarece ter sido escrito antes dessa data. Nesse texto pode ler-se o seguinte:
«Vivemos num ambiente espesso de mentiras.
Um dos maiores sintomas da debilidade nacional é o receio de encarar a verdade, frente a frente. Uma espécie de letargia colectiva furta-nos a razão ao contacto das próprias realidades. Comecemos, pois, por dizer a verdade nua e crua.
[…]
O antigo Portugal, sadio e forte, volveu-se num corpo de pigmeu, com uma cabeça imensa e desvairada. Ao fim caiu em puro autofagismo; devora-se a si próprio.
O parasitismo, eis o grande mal. E, como o trabalho é a condição da liberdade e sem verdadeira liberdade não há opinião pública, Portugal tornou-se um viveiro de oligarquias: à cobiça duma meia dúzia subordinam-se os interesses de seis milhões de portugueses.
[…]
Que têm feito ou o que fazem os políticos?
Representantes duma sociedade em crise, enfermam em geral dos mesmos vícios. Continua a ser má a organização partidária da República. Aos partidos falta essencialmente a unidade moral e directiva que advém dos princípios. Os Governos, tantas vezes recrutados na mais irrisória das incompetências, iludem quase sempre com expedientes e modificações de superfície muitas das mais sagradas promessas feitas nos bons tempos. Sucedem-se uns aos outros e os problemas da maior urgência continuam insolúveis. Enquanto um partido ou um grupo de partidários diferentes está no poder, vêem-se os outros com frequência gastar todos os seus esforços em dispor a casca da laranja, que os há-de fazer tombar.
E o parlamento? Esse canta mas não produz: é a grande cigarra nacional, símbolo da falência colectiva.
Que espanta, assim, que a cadeia das mentiras e das contradições individuais ou colectivas tenha aumentado em cada passo?
[…]
A continuar assim, a pouco e pouco deslaçados a confiança, o respeito mútuo e a disciplina moral, o que nos espera?»
A revista Seara Nova era um projecto cultural e político no qual pontificavam nomes como Raul Proença, Câmara Reys, Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão, Teixeira de Vasconcelos e outros não menos importantes da cultura portuguesa.
A revista aparecera em 15 de Outubro de 1921 e na sua apresentação destacava-se o seguinte texto:
«A SEARA NOVA representa o esforço de alguns intelectuais, alheados dos partidos políticos mas não da vida política, para que se erga, acima do miserável circo onde se debatem os interesses inconfessáveis das clientelas e das oligarquias plutocráticas, uma atmosfera mais pura em que se faça ouvir o protesto das mais altivas consciências, e em que se formulem e imponham, por uma propaganda larga e profunda, as reformas necessárias à vida nacional.
Não comunga ela no vão e pernicioso sofisma de que são os políticos os únicos culpados da nossa situação. A verdade é que os políticos não são melhores nem piores do que o permitem as condições gerais da mentalidade portuguesa. Todo o país tem de aceitar a responsabilidade que lhe cabe no desastre colectivo; todo o país, e em especial a sua elite.»
A Seara Nova iria estar na primeira linha do combate pela autenticidade da República condenando o que merecia ser condenado e apresentando as opiniões que considerava inalienáveis num verdadeiro projecto republicano.
Iniciara a sua publicação numa altura em que o país era abalado por sucessivos turbilhões no seu quotidiano.
Os três anos que separam 1919 de 1921 (do fim do sidonismo aos acontecimentos outubristas) constituem sob todos os pontos de vista os piores momentos atingidos pela República. Em especial em 1920 e 1921, a instabilidade e a insegurança assumem proporções de verdadeira calamidade nacional. Oito governos em 1920, a somar aos cinco de 1919, com mais seis em 1921, dão um total bem elucidativo.
A revolução de Sidónio Pais, de 5 Dezembro de 1917, nunca mais deixaria a República voltar a ser a mesma. A experiência dezembrista era algo demasiado forte para poder passar como cão por vinha vindimada, num país de fragilidades de toda a ordem. O sidonismo deixara tudo de pernas para o ar, à excepção daquilo que assim já se encontrava.
Portugal caminhava de mal a pior. Persistiam os protestos de destacados vultos da República como o deputado republicano Fernão Botto Machado a quem não davam ensejo para falar sempre que pretendia:
«Sou aqui só, sr. presidente – bradava ele para o presidente da sessão – mas represento os 16 000 e tantos eleitores, que aqui me enviaram e por isso entendo que tenho direitos perfeitamente iguais aos de qualquer outro deputado. Se, pois, continuarem a negar-me esses direitos, e a impedir que eu use da palavra, rasgarei o meu diploma e irei lá para fora dizer o que penso e o que sei acerca do parlamento».
Houve protestos, mas o deputado reiterou:
«Se isto continuar assim, rasgarei o meu diploma de deputado e irei lá para fora dizer o que há muito penso e o que agora sei do parlamento. Entendo que esse diploma usado em tais condições, me honra pouco e sou eu que estou disposto a honrá-lo a ele, rasgando-o com altiva dignidade».
