SALAZAR E A I REPÚBLICA – 46 – por José Brandão

1921 – A República da Noite Sangrenta

Politicamente o ano de 1921 começa com Ramada Curto a apelidar o Partido Democrático de «grande cooperativa de produção e consumo».

No parlamento, num discurso de cerca de uma hora, na sessão parlamentar de 25 de Fevereiro de 1921, Leote do Rego profere as seguintes palavras:

«– O Estado português é republicano, mas a Pátria é de todos! Basta de ódios, discórdias, pedradas! Trabalhemos! Salvemos a República!»

E, ante a estupefacção da Câmara de Deputados, exclamou:

«– Que elite é essa que, apenas se dissipa a fumarada dos canhões e das barricadas e que as últimas pazadas de terra caem sobre os que dão a vida pelo prestígio e grandeza da sua Pátria, rasga o mandato que lhes confiaram, para voltar a entregar-se ao seu prazer predilecto: a discórdia, a luta política, a baixa intriga e todo esse cortejo de coisas mesquinhas e perversas que só servem para abastardar o carácter e o talento, diminuir-nos aos olhos dos verdadeiros republicanos e servir de gáudio ao estrangeiro?»

Prosseguindo na sua intervenção, Leote do Rego volta a abordar a questão partidária:

«– O mal da República portuguesa não está na existência de partidos e grupos. Está no exagero da paixão, na irredutibilidade, no personalismo e, sobretudo, na instabilidade governativa. O rosário interminável de Governos – uma vez houve três numa semana – e alguns apenas durante horas é, na verdade, bem difícil de explicar. É uma celebridade que nos compromete e tira prestígio às instituições.»

Antes de entrar na parte final, e depois de aludir a diversos sintomas de inquietação que se notavam por todo o lado, afirmou ainda:

«– O País está farto de elixires, de promessas, de programa de Messias e de crises, e vê bem o futuro que o espera se tudo continuar como agora.»

Por fim, e dirigindo-se a toda a Câmara, exclamou:

«– Senhor presidente, e meus senhores! É grave a hora que a Pátria atravessa. Basta de ódios Acabem as discórdias Basta de agravos! Basta de pedradas! Haja ponderação.».

Era assim que decorria a vida pública portuguesa no despontar do segundo decénio desse século XX. Tudo era movimentação e acção que punham à flor da pele as piores espécies de reacções e sentimentos recalcados.

Como dizia nessa altura o poeta José Gomes Ferreira, no seu manifesto de 1921, Os Eunucos: «Em terra de capados quem tem um testículo é rei.»

A crise continua, surge novo governo com Bernardino Machado, em Fevereiro, que se demite em Maio. Seguem-se os governos de Barros Queirós e António Granjo, com o

mesmo clima de revolução constante e conspirações. O País é o espelho do que grassa pela Europa.

A 17 de Maio o director da Polícia de Segurança do Estado é demitido.

Realizam-se eleições legislativas em 10 de Julho. Oliveira Salazar é eleito deputado por Guimarães, pelo Centro Católico.

A 5 de Agosto o governo demite-se, ao ter conhecimento de que os financeiros americanos com quem estavam em negociações para realização de um empréstimo externo, por intermédio de Afonso Costa, não passavam de meros vigaristas.

Cinco dias depois, a 10 de Agosto, toma posse o governo chefiado por António Granjo. Este executivo enfrenta um clima de grande tensão em torno do problema do malogrado empréstimo, mas também devido a uma conjuntura de reacção anti-clerical. Corriam boatos de que o governo preparava um plano de defesa contra uma possível revolução.

Na crónica parlamentar do Diário de Notícias aparecem desvirtuadas as afirmações de António Granjo no Senado, em 2 de Setembro, provocando o regresso da questão religiosa, com a realização de um comício anticatólico em Loures.

Golpe de 19 de Outubro, conhecido pela «Noite Sangrenta». São assassinados António Granjo, Machado dos Santos, Carlos da Maia, Freitas da Silva, Botelho de Vasconcelos, entre outros.

Com a horrenda caça ao homem protagonizada pela tenebrosa Camioneta Fantasma, a noite de 19 de Outubro de 1921 estava para sempre manchada de sangue.

No dia que se segue, o país da República portuguesa acordava banhado em sangue de republicanos com nomes que já pertenciam à história.

Um chefe de Governo morre assassinado. Outros símbolos do regime caem vítimas da mesma ceifa pavorosa. Os crimes são praticados com cenas de monstruosidade sanguinária, poucas vezes igualáveis na história da humanidade civilizada.

Três cadáveres de homens apanhados traiçoeiramente jaziam sobre as pedras frias da morgue do Hospital de S. José. Uma quarta vítima desta medonha caçada humana estrebuchava em tormentosa agonia num canto abandonado do mesmo Hospital.

Todos, cada um à sua maneira, eram figuras que tinham a ver com o primeiro plano da vida política portuguesa.

António Granjo, como já foi referenciado, desempenhava as funções de primeiro-ministro, cargo que ocupava pela segunda vez num espaço de poucos meses. Era um histórico da República, carbonário e herói da Grande Guerra, onde combatera, integrado nos primeiros batalhões do Corpo Expedicionário Português.

José Carlos da Maia, também ele um histórico do 5 de Outubro de 1910, carbonário, várias vezes ministro, estava, então, mais ou menos retirado da actividade política directa. Era, contudo, uma das personalidades com maior referencial político existentes na vida pública portuguesa.

Como António Granjo e José Carlos da Maia, Machado Santos é um histórico da República, o maior de todos, o grande fundador da República em Portugal. Também carbonário, também dos maiores – foi membro da Alta Venda, que superintendia a mais poderosa organização secreta armada alguma vez existente em Portugal – e a quem se deve o impulso decisivo na hora do grande combate pela Revolução que abalou Portugal nos primeiros dias de Outubro de 1910.

Mais obscuros, mas mesmo assim com alguma condição que os colocava entre os que estavam ligados ao desempenho de funções cimeiras, o comandante Freitas da Silva e o coronel Botelho de Vasconcelos não eram, de modo algum, pessoas que apareciam ao sabor do acaso metidas nesta tragédia revolucionária de 1921.

 

Leave a Reply