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SALAZAR E A I REPÚBLICA – 48 – por José Brandão

Falando dessa época do pós-guerra, Raul Brandão haveria de utilizar toda a extraordinária força das suas palavras para descrever nas suas Memórias III, Págs.79-82,o que foram os anos 20 à portuguesa:

«A vida modificou-se nos últimos vinte anos, primeiro com lentidão e, depois da guerra, num tropel que mete medo. Ninguém pensa hoje como ontem. Por último já reparaste? – até as fisionomias se transformaram…»

[…]

«A vida mudou de direcção. É o bolchevismo que aí vem? O que me importa e o que te importa é a minha consciência e a tua consciência. Ainda, é certo, certas fórmulas se mantêm, mas por quanto tempo? O ideal da vida já não é o mesmo ideal. Todos, até os mais isolados, vemos avançar direito a nós o fantasma desconhecido e todos sentimos idêntica vertigem. Todas as consciências se modificaram. E nunca o espectáculo foi mais impressionante. Nunca as mulheres se despiram, como agora, com colares que valem uma fortuna. Um dia destes, na sala do S. Carlos, as jóias eram tantas que alguém as avaliou em cinco mil contos de réis. Num espaço de quinhentos metros, pelo princípio da Avenida, há vinte, trinta casas de jogo, toda a noite abertas. Alguém calculou que o número de prostitutas, na capital, era de vinte mil. E as outras? As piores? Os teatros transbordam, o dinheiro perdeu o valor (1921-1922). Todos caminhamos com febre – a febre de quem não confia no dia de amanhã. O dia de amanhã talvez não exista; o que existe são as grandes oligarquias políticas, económicas e financeiras; os grandes negócios, as grandes casas bancárias, onde, através de redes de arame doirado, o papel corre e transborda. Toda a gente enriquece dum dia para o outro e toda a gente gasta, gasta, gasta. Aqui há tempos correu notícia de bancarrota. Houve um pânico e as ourivesarias foram assaltadas para se empregar o papel em jóias. O jogo tomou uma importância capital nesta sociedade que se dissolve – a vida é uma roleta. E nenhum de nós se pode isolar do drama onde todos somos actores, mais ou menos forçados. Parece que é o Destino que nos empurra… Há momentos em que o homem sente atrás de si outra coisa patente, imensa e patente. Cada qual é ainda um ser razoável, que discute e aponta o perigo, mas todos juntos resvalamos para o fundo como cegos.

Escuta-te no silêncio, só a sós contigo e com as realidades, por mais temerosas que elas sejam, atreve-te e verás a dissolução a que chegaram as fórmulas dentro da tua própria alma. A família de hoje é a família de ontem? O dever cumpre-lo agora como o cumprias há vinte anos?… Um professor da Universidade, meu amigo, foi a bordo dum paquete despedir-se dum rapaz por quem se interessava, que partia para a África, e disse-lhe com um sorriso irónico: «Enriquece. Sobretudo enriquece.., seja como for… contanto que se não venha a saber.» Disse-o com ironia, mas todos nós sabemos o que esta ironia pesa e o que vale a experiência da vida…

– Contanto que se não saiba. De resto, o exemplo vem de cima, vem das classes chamadas superiores, que enriqueceram sabe Deus como. O grande comerciante P. ganhou este ano (1921) cinco a seis mil contos de réis. Foi ele quem deitou a perder um pobre tabelião provinciano, a quem aconselhou que rasgasse as folhas dum testamento… Todos os jornais celebraram, há meses, no dia da sua morte, a honradez do L., que toda a vida viveu amancebado com a irmã dum amigo com quem passava as noites. O importante é fazerem-se negócios, mais negócios, muitos negócios. Eu mesmo ouço dentro de mim a voz que me mete medo e que fala cada vez mais alto …Sinto que todos os laços que outrora me prendiam à vida se quebraram, a ponto de ficar desamparado. Em que fundamentos ou em que lei moral hei-de assentar a minha vida se, no fundo, bem no fundo, invejo os que triunfam?…

Pede-se um governo, um plano, uma força – homens implorando aos manequins que os salvem! São os políticos, muitas vezes, que pregam contra o jogo no Parlamento, que vão, à noite, deitar os dados na roleta. O R., que eu conheci, há dez anos, estudante pobre, roda hoje num automóvel como um carro de guerra; aquele médico de província, pobre e com uma família pobre, ganha hoje (1921) sessenta contos por ano como comissário do Governo em qualquer banco. O filho deste republicano histórico fez uma fortuna nas colónias, de tal maneira escandalosa que não pode lá voltar. Apontam-se a dedo políticos que ganharam muitas centenas de contos com negócios de arroz e de açúcar. Fulano, outro dia ministro e a quem o pai deixou no Ribatejo uma pequena herdade, que ele tem aumentado com terrenos à roda, campo hoje, campo amanhã, deu há dias um jantar na sua aldeia aos amigos. Festa rija, brindes, até que chegou a vez ao caseiro, brusco e ingénuo, que, de copo em punho, disse:

– Senhor doutor, à sua saúde! E o que lhe digo, senhor doutor, á que é pena que Vossa Senhoria não continuasse por mais algum tempo ministro – porque acabava por comprar toda a freguesia!»

 

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