SALAZAR E A I REPÚBLICA – 16 – por José Brandão

Poucos meses depois, decorria o mês de Janeiro de 1911, o mesmo Ramalho Ortigão, resolvia pegar na pena para se dirigir aos leitores da Gazeta de Notícias. A mirada escolhida, para reiniciar aquele que viria a ser o seu último farpeio, era a recente e vitoriosa «Revolução do 5 Outubro».

Ramalho Ortigão voltava a proclamar que não acreditava na anunciada mudança, nem via razões para alterar o seu julgamento de sempre acerca da «embusteira tirania do sufrágio», para deixar de deplorar o parlamentarismo, que agora prometia continuar ainda que sem os partidos do rotativismo. Se algo havia que lhe merecesse ser salientado nas últimas evoluções políticas, era ainda a «tenebrosa cumplicidade do último dos quatro ou cinco ministérios monárquicos que se sucederam ao assassinato impune do pobre rei D. Carlos».

Em Outubro de 1910, o triunfo dos revolucionários tivera um «desenlace quase incruento» – era certo –, mas só «em sua aparente superficialidade» fora aquela Revolução «o trágico desmoronamento instantâneo de todo um velho mundo».

Ainda durante o ano de 1910, aparecem lamentos e protestos de toda a ordem.

Mesmo entre figuras de reconhecido empenho na luta contra o regime monárquico franquista surgem agoiros da pior sina. A 31 de Dezembro, José Maria de Alpoim, à conversa com Raul Brandão, queixa-se dos seus temores:

« – Isto afunda-se. Isto não dura dois meses. É horrível! Tenho de fugir para o estrangeiro. Vem aí o D. Manuel outra vez, e matam-me! Matam-me!

– Não será assim…

– Dois meses, dois meses… E acaba-se tudo, ou vem D. Manuel, não tenha dúvida nenhuma. Antes acabe! Todos doidos, e mais ladrões ainda que os monárquicos.»

Das mais diversas proveniências desabava monumental saraivada contra a governação republicana deixando-a de dia para dia mais isolada e desacreditada. O povo ia começando a duvidar se o 5 de Outubro tinha valido a pena. «Tudo isto abana». Dizia Raul Brandão nas suas Memórias. – «Depois que o povo passou para segundo plano, a República perdeu a grandeza.»

A República desiludia. Revoltado, Guerra Junqueiro ia dando voz àquilo que muitos pensavam: « – Os piores bandidos não estão na cadeia, estão na política».

«Já hoje, – garantia o poeta – se fosse possível fazer um plebiscito ao País, não com papéis mas dentro da consciência de cada um, na escuridão do seu quarto, a maioria monárquica era esmagadora. Havia menos republicanos do que antes do 5 de Outubro.»

Quando, em princípios de 1911, se delineava a Constituição da República, Junqueiro voltou-se, uma vez, para António José de Almeida e Bernardino Machado e disse-lhes:

« – Querem uma Constituição que o povo sinta e saiba de cor? Façam-na em redondilhas!»

O próprio António José de Almeida havia de comentar, mais tarde, ante um plano de reformas que o poeta de Os Simples lhe apresentara:

– É extraordinário este Junqueiro! Agora quer o Diário do Governo em verso!

Também Fialho de Almeida, que vivia num sobressalto porque todos os dias recebia cartas anónimas com ameaças e insultos, queixava-se amargamente «desta republiqueta». Em Fevereiro de 1911, O Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, publica uma carta de Fialho de Almeida, renunciando a escrever as suas crónicas políticas, em consequência das ameaças que recebeu:

«Foi acordado que, se as minhas correspondências para o Correio da Manhã continuarem a referir-se desagradavelmente para a República, eu também serei convidado a ausentar-me por algum tempo. Isto é categoricamente oficial. (…) Pela feição grave que a intolerância jornalística está tomando em Lisboa (e no resto do país seguir-se-á) eu delibero por agora, até à reunião das Cortes, ou ao restabelecimento da normalidade, abster-me de me ocupar completamente da política portuguesa. Tenho uma pequena casa agrícola de que viver; e que não marcha (pelo reduzida e modesta que é) sem a minha administração directa. Tenho aqui, no Alentejo, um irmão meio louco e profundamente enfermo, de que não posso separar-me. Não tenho rendas nem cargos, que sempre passaram distantes de mim, sem que ninguém se lembrasse nunca de me interessar na vida pública do meu país. (…) Resolvo escrever cartas sobre todas as matérias que não contendam com a política da República, e ignorar esta, até um dia em que a minha desforra chegue, e mui pela certa chegará. (…) Renovo junto de V. Ex. os meus protestos de simpatia e de agradecimento. Se do nosso desgraçado país quiser alguma coisa do meu préstimo, mande para tudo o servo e amigo Fialho d’Almeida.»

Enquanto isto, não faltava quem descobrisse na adesão ao novo regime um bom investimento.

Como sempre tem acontecido ao longo da História, os «vira-casacas», (no caso da revolução republicana portuguesa, chamavam-se «adesivos»), procuraram a toda a força encostar-se à nova situação, «oferecendo» os seus préstimos e a sua «experiência» às organizações políticas que melhor apareciam posicionadas na grelha de partida da corrida para o «Grande Prémio» do Poder.

Eles apareciam por todo o lado. Vinham às carradas: a pé, a cavalo, de carroça, de bicicleta; de comboio, de automóvel – e vinham sabe-se lá como. Todos queriam acompanhar a moda, e, melhor ainda, aproveitar as novas «oportunidades» que se abriam em generosas escâncaras para os donos de alguma iniciativa, por mais tímida que ela fosse.

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