Meses depois, realizou-se o julgamento dos implicados no «18 de Abril» e no «19 de Julho». Em ambos os casos, os respectivos júris foram exclusivamente constituídos por generais, que ditaram a mesma sentença: absolvição de todos os réus.
Em artigo publicado na Seara Nova (21/11/1925), Raúl Proença considerou que a decisão do tribunal correspondia à consagração da impunidade. Na análise feita ao julgamento, o escritor rebateu frontalmente os pontos de vista que pretendiam branquear a actuação dos arguidos no «18 de Abril» ao tentarem fazer vingar a ideia de que eles não tinham sido movidos por qualquer intenção criminosa e que, ao contrário, haviam actuado «com os olhos postos na Pátria»…
As duas rebeliões não só tiveram igual desfecho como serviram para aplanar o caminho ao regime ditatorial que viria a instaurar-se cerca de um ano depois, em 28 de Maio de 1926.
A crise internacional, entre 1920-1922, fez-se sentir até 1925, traduzindo-se por uma incontrolável inflação monetária, por uma especulação desenfreada. Em consequência, numerosos bancos foram à falência: Banco Auxiliar do Comércio, Banco de Fomento Nacional, Banco Nacional Agrícola (todos em 1923); Banco Internacional de Comércio (em 1924); Banco Comercial do Porto e Banco Industrial Português (em 1925). Também em 1925 desapareceu o Banco Angola e Metrópole, extinto na sequência duma burla colossal.
Caminhava-se a passos largos para o final. Já mal se consegui formar Governo.
A declaração ministerial do gabinete Domingos Leite Pereira, na Câmara dos Deputados em 5 de Agosto, refere as condições de formação deste executivo: «o Governo que tenho a honra de apresentar a V. Exa. e à Câmara constituiu-se dentro de condições políticas e sociais cuja gravidade ninguém desconhece. Mas a própria dificuldade dessas circunstâncias converteu a alta missão que me confiou S. Exa. o Sr. Presidente da República num daqueles deveres patrióticos e republicanos a que um homem público não pode eximir-se sem se diminuir e desacreditar. Não esmoreci, por esse motivo, ante os obstáculos que se ergueram contra o desempenho da minha missão.» Na actual conjuntura política pretende ter uma postura conciliadora, afirmando que «Por consequência, à sobre excitação das paixões, à conflagração das tendências excessivamente combativas, oporemos uma serena actuação apaziguadora. Respeitaremos todas as justas reclamações e todos os legítimos direitos, fazendo da justiça a base da acção governativa, procurando estabelecer a acalmia necessária à realização da mais instante aspiração nacional.».
A República estava com o fim à vista. Homens de todas as cores ideológicas exprimiam as suas preocupações profundas e formulavam as suas críticas severas.
Em Dezembro de 1925 na revista Seara Nova os escritores José Rodrigues Miguéis e Raul Proença expunham com toda a clareza a situação a que tinha chegado a República. Dizia Rodrigues Miguéis:
«A República, em Portugal, não tomou ainda o caminho que deva levar-nos definitivamente para o mais alto lugar a que a nação aspira.
Erro dos políticos? erro do povo? – Erro de todos um pouco.
Não se prepararam, não se tem cuidado de preparar, até ao presente, as condições essenciais para que apareça esse escol de pensadores que lancem o País no caminho do ressurgimento. Sem um plano inteiramente esboçado, desunidos, digladiando-se, aniquilando-se – e deixando-se por fim cair a maior parte deles, nos braços que lhes estendiam certos interesses económicos, os políticos merecem a severidade do nosso julgamento. Às suas desvairadas atitudes, ao seu esquecimento dos interesses fundamentais do povo – Educação e Economia – se deve seguramente o desinteresse com que o país olha hoje o regime, e a fuga de elementos valiosos para as fileiras conservadoras. Das disputas e querelas se aproveitaram sabiamente certos dissolventes bacilos sociais, a quem a guerra, perigosa cultura, deu uma virulência formidável.
É preciso que o digamos com a maior sinceridade: se há na obra da República alguns factos que a enobrecem e levantam, há infelizmente muitos que mancham os seus políticos.»
Pela sua parte, Raul Proença proclamava:
«A política parece ter chegado entre nós – porque se não há-de dizer toda a verdade? – ao último grau da barafunda. Se houvesse monárquicos de valor neste país – se, politicamente, eles não constituíssem uma caterva cuja coragem se limita às mais miseráveis resistências passivas (que contendem muitas vezes com os mais altos interesses da Pátria) e ao ridículo desporto de se desbarretarem ante todas as igrejas num snobismo risível, se não infundisse antes a piedade – se à grande massa que nos momentos decisivos heróica e desinteressadamente se sacrifica fosse já indiferente a questão do regime – teríamos chegado de facto, como tanto escreve o Sr. Moreira de Almeida, ao fim do fim. O quadro é na verdade desolador. Afonso Costa continua a desfrutar o doce exílio, à espera de que Portugal se transforme no melhor dos mundos possíveis, para ele vir fazer o favor de o governar. António José de Almeida e Brito Camacho, doentes ou desiludidos, retiram-se à privada, e os que ficam, ou são conservadores descambando em homens de negócios, ou radicais, tresandando a jacobinos. No grande hemiciclo das lutas partidárias não se eleva uma cabeça, uma vontade, uma ideia, um chefe. Toda a gente dá a impressão de gaguejar. Ninguém diz as coisas nítidas, precisas, leais, inteligentes – ninguém exprime a ideia justa e necessária, aquela que todos nós sentiríamos talhada na própria realidade, e que não traria ou a marca do interesse egoísta, ou a falha do simplismo unilateral, ou a inflação grotesca da retórica. Havendo uma verdadeira revolução a fazer, ainda ninguém conseguiu impor ao País a consciência dessa necessidade; e a aspiração de justiça, de honradez política, de nobre idealismo que fez a república, já é apontada aos ódios da gente ordeira como manifestações de bolchevismo. Não há um discurso de chefe político no tempo da propaganda (seja ele António José, Bernardino Machado, Brito Camacho ou Afonso Costa) que, reproduzido hoje, não soasse aos ouvidos da maioria dos dirigentes como uma arenga comunista – tão anti-idealista, tão reaccionária é a sua mentalidade e a própria atmosfera que respiram.
