Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Hungria: “os judeus, uma ameaça à segurança nacional” ?
JEAN-DOMINIQUE MERCHET – MARIANNE
Dezembro de 2012.
Uma declaração de um deputado da extrema-direita suscitou um clamor tanto à direita como à esquerda na Hungria.
Há um país da Europa onde um membro do Parlamento pode pensar que é ” chegada a hora de avaliar o número de membros de origem judaica que estão no governo ou no Parlamento” porque eles “representam uma certa ameaça para a segurança nacional.” Este país é a Hungria e o deputado é Marton Gyongyosi , um membro do partido de extrema direita Jobbik.
Face ao escândalo causado por esta declaração, feita a 26 de Novembro, no Parlamento em Budapeste, o deputado explicou que ele tinha sido mal compreendido e que a sua proposta visava apenas os cidadãos com dupla cidadania, israelita e húngara.
Este partido recolheu cerca de 17% dos votos nas eleições legislativas de 2010 – ou seja 850.000 votos. Ele obteve 47 lugares de deputados de um total de 386 e que se sentam na oposição ao governo de direita. Na galáxia da extrema-direita europeia, o Jobbik tem um lugar muito especial: é essencialmente anti-semita. Numa entrevista a uma revista francesa Política Internacional (Primavera 2011), este mesmo deputado explicou serenamente “que dispõe de provas formais de que Israel está a tentar comprar a Hungria. E de acrescentar a seguir que o seu partido, “nacionalista radical”, “desaprova o discurso islamofóbico” dos outros partidos da extrema-direita europeia.
A posição deste deputado causou um certo sobressalto no país. Uma semana mais tarde, mais de dez mil pessoas manifestavam-se contra o anti-semitismo em frente ao Parlamento, apelando a todos os outros partidos: o Fidesz (conservador, no poder), o Partido Socialista e o partido Rassemblement 2014 de centro-esquerda. O Primeiro-ministro Viktor Orban (de direita) também declarou que “enquanto estiver neste lugar , ninguém na Hungria pode ser atacada pela sua fé, crença ou sua pela origem. Nós protegeremos os nossos compatriotas judeus.”
Uma rara unanimidade num país atravessado por divisões políticas violentas, entre um partido no poder nacionalista e populista de direita e uma esquerda liberal que está sobretudo ligada ao mundo empresarial. As tentações autoritárias do poder de Viktor Orban são bem reais, mas confundi-lo com a extrema-direita é nada compreender daquilo que um historiador húngaro István Bibó, chamou “a miséria dos pequenos Estados da Europa de Leste “.
O partido Jobbik anti-semita é o herdeiro das Cruzes Suásticas, partido nazi húngaro, húngaro, que foi instalado no poder pelos alemães, em Outubro de 1944, depois destes terem derrubado o regente Horthy, o que aconteceu depois terem raptado o filho deste e feito dele seu refém. Desde 1920, o Almirante Horthy estava à cabeça de um regime conservador, autoritário e anti-semita, nacionalista aliado da Alemanha. Um regime nascido da destruição do Reino da Hungria, pelo Tratado de Trianon (1920) – o país perdeu dois terços da sua superfície – e as consequências do fracasso da Revolução comunista de 1919.
Mas, confundir o regime de Horthy – cuja direita, hoje no poder, é, em parte, a sua herdeira – e as Cruzes Suásticas nazis – modelo não assumido pelo partido Jobbik – é um contra-senso histórico. Até 1944, a Hungria foi um dos poucos países de uma Europa de dominante nazi, onde os judeus de nacionalidade húngara (1), juridicamente discriminados, viviam numa relativa segurança e em que o partido social-democrata estava no Parlamento .
Quase setenta anos mais tarde, a reacção dos partidos democráticos, seja a esquerda seja a direita e em simultâneo, à posição assumida por Gyöngyösi é uma excelente notícia. E tanto mais quanto as boas notícias são bastante raras neste país para que não nos possamos deixar de nos alegrar.
