RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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Hungria: “os judeus, uma ameaça à segurança nacional” ?

JEAN-DOMINIQUE MERCHET – MARIANNE

Dezembro de 2012.

Uma declaração de um deputado  da extrema-direita  suscitou  um  clamor tanto à  direita como à esquerda na Hungria.

Hungria - IUm manifestante  durante um comício organizado a  27 de Novembro, em Budapeste, para protestar contra as afirmações do deputado  Marton Gyöngyösi, proferidas na véspera  – Tamas Kovacs/AP/SIPA

Há  um país da Europa onde um membro do Parlamento  pode pensar  que é ” chegada a hora de avaliar o número de membros de origem judaica que estão no  governo ou no Parlamento” porque eles  “representam uma certa ameaça para a segurança nacional.” Este país é a Hungria e o deputado é Marton Gyongyosi , um membro do partido de extrema direita Jobbik.

Face ao escândalo causado por esta declaração, feita a 26 de Novembro, no  Parlamento em Budapeste, o deputado explicou que ele tinha sido  mal compreendido  e que a sua proposta visava  apenas os cidadãos com dupla cidadania, israelita e húngara.

Este partido recolheu cerca de 17% dos votos nas eleições legislativas de 2010 – ou seja 850.000 votos. Ele obteve 47 lugares de deputados de um total de 386 e que  se sentam na oposição  ao governo de direita. Na galáxia da extrema-direita europeia, o Jobbik tem um lugar muito especial: é essencialmente anti-semita. Numa  entrevista a uma revista  francesa Política Internacional (Primavera 2011), este mesmo deputado  explicou serenamente  “que dispõe de provas  formais de que Israel está a tentar  comprar a Hungria. E de acrescentar a seguir que o seu partido, “nacionalista radical”, “desaprova o discurso islamofóbico” dos outros partidos da extrema-direita europeia.

A posição deste  deputado  causou um certo sobressalto  no país. Uma semana mais tarde, mais de  dez mil pessoas manifestavam-se  contra o anti-semitismo em frente ao  Parlamento, apelando a todos os outros partidos: o Fidesz (conservador, no poder), o Partido Socialista e  o partido Rassemblement 2014 de centro-esquerda. O  Primeiro-ministro Viktor Orban (de direita) também  declarou  que “enquanto estiver neste lugar , ninguém na Hungria  pode ser atacada pela  sua fé, crença ou sua pela origem. Nós protegeremos os nossos compatriotas judeus.”
Hungria - IIUm manifestante diante do Parlamento, em  Budapest, a  2 Dezembro – Marjai/AP/SIPA

Uma rara unanimidade  num país atravessado por divisões políticas violentas, entre um partido no poder nacionalista e populista de direita e uma esquerda liberal que está sobretudo ligada ao mundo empresarial.  As tentações autoritárias do  poder de Viktor Orban são bem reais, mas confundi-lo com a extrema-direita é nada compreender   daquilo que um  historiador húngaro István Bibó, chamou  “a miséria dos pequenos Estados da Europa de Leste “.

O partido Jobbik anti-semita  é o herdeiro das Cruzes Suásticas,  partido nazi  húngaro, húngaro, que foi instalado no poder pelos alemães, em Outubro de 1944, depois  destes terem derrubado o regente Horthy, o que aconteceu depois terem raptado o filho deste e feito dele seu  refém. Desde 1920, o Almirante Horthy estava à cabeça de um regime conservador, autoritário e anti-semita, nacionalista aliado da Alemanha. Um regime nascido da destruição do Reino da Hungria, pelo Tratado de Trianon (1920) – o país perdeu dois terços da sua superfície – e as consequências do fracasso da Revolução comunista de 1919.

Mas, confundir o regime de Horthy –  cuja direita, hoje no poder,  é, em parte, a sua herdeira – e as Cruzes Suásticas nazis –  modelo não assumido pelo partido  Jobbik – é um contra-senso  histórico.  Até 1944, a Hungria foi um dos poucos países de uma Europa de dominante nazi, onde os judeus de nacionalidade húngara (1), juridicamente  discriminados, viviam   numa  relativa segurança e em que  o partido social-democrata estava no Parlamento .

Quase setenta anos mais tarde, a reacção dos partidos democráticos,  seja a esquerda  seja a direita  e em  simultâneo, à posição assumida por Gyöngyösi é uma excelente notícia.  E tanto mais quanto as boas notícias   são bastante raras neste país para que não nos  possamos deixar de nos alegrar.

(1) Os judeus estrangeiros refugiados na Hungria foram entregues aos alemães, deportados, depois assassinados desde 1941.

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