Nota Introdutória ao texto sobre multiplicadores e sobre o erro de estimação do FMI
E agora, senhor ministro Gaspar, que tipo de ignorância nos vai mostrar?
Júlio Marques Mota
Lembro-me de uma intervenção bem firme de um jornalista do Expresso sobre os multiplicadores, depois do primeiro texto do FMI, o Outlook de 2012, falar da revisão em alta dos multiplicadores, em Outubro creio, a questionar o nosso ministro Gaspar sobre os multiplicadores utilizados para calcular os efeitos das políticas de austeridade. Tristeza, o ministro não quis que nenhum secretário de Estado respondesse pois seria ele a dar a resposta ao jornalista em questão, Silveira, se a memória não me falha. E o ministro, respondeu, não dizendo absolutamente nada.
Depois de ter lido um trabalho espantoso de Brad Delong sobre o liquidacionismo nos anos 30 em que este nos mostra como é que os economistas de então viram a crise ficámos a saber que estes viram a crise de 1929 como uma crise similar a tantas outras pequenas crises do século XIX, e este erro trágico deveu-se, segundo o mesmo autor, à ausência de conhecimentos de macroeconomia da época, época que precede o aparecimento da macroeconomia com Keynes, e à ausência de ferramentas disponíveis para a política económica. Nada destas falhas se podem pressupor hoje, pelo que somos levados afirmar que a ignorância do nosso ministro Gaspar é bem maior que a dos economistas de então, e se os economistas dos anos 30 viram a crise de então como uma crise do século XIX então o nosso ministro Gaspar vê a actual crise como uma crise da época do Homem das cavernas. Isto faz-me lembrar o filme de Kubrick, Odisseia no espaço, faz-me lembrar o homem das cavernas aí representado, faz-me lembrar o salto da Humanidade com o computador Hall. Lembram-se? Bem, e tudo isto faz-me lembrar a maneira de falar do nosso Gaspar a tomar cada um de nós como ignorante, todos nós sem excepção, e quando assim é, então, claramente o ignorante é ele. Entre as semelhanças da sua voz com a computador Hall sem alma, entre a sua inteligência agora bem ilustrada até pela resposta ao jornalista do Expresso citado e pela forma da sua utilização das ferramentas da macroeconomia, entre a inteligência do senhor ministro Gaspar prefiro claramente a inteligência do macaco de Kubrick que descobre um osso como ferramenta e com que satisfação, Deus meu, ele o evidencia, em confronto com a presença do ministro Gaspar e a sua monotonia, e cito e revejo o filme de memória, visto no final já longínquo dos anos sessenta, creio.
E agora, ministro Gaspar, agora que Olivier Blanchard, o seu verdadeiro chefe, volta à liça dizendo o oposto do que o senhor ministro enquanto tal andou a fazer, agora que o patrão da Economia do FMI o faz na base de conhecimentos que deveriam ser ferramenta de qualquer aluno de economia com o primeiro ano feito, que me diz então do presente documento de Olivier Blanchard e de Daniel Leigh saído agora e que tem como título “Growth Forecast Errors and Fiscal Multipliers”?
Ora como os argumentos agora utilizados por estes autores para explicar o erro de estimação dos multiplicadores são os conhecimentos obrigatórios de qualquer aluno de economia com o primeiro ano já feito, o senhor ministro não tem que agradecer a formação paga pelo povo português, este sim, tem que lamentar a falta de formação do senhor ministro e exigir o retorno do dinheiro perdido com o tempo em que andou a estudar e em que, pelos vistos, então nada terá aprendido. Se não é assim, saberia que os multiplicadores variam no tempo e no espaço e eu sei-o pelo menos com os estudos feitos nos finais dos anos 60 com Francisco Pereira de Moura e com os textos de um Johnson da época, por exemplo, e este é um homem que em princípio beberia nas mesmas águas de saber que o senhor ministro se o senhor ministro por essas águas tivesse andado.
Que me diz então ao texto de Olivier Blanchard e de Daniel Leigh, senhor ministro?
