Site icon A Viagem dos Argonautas

Nota sobre o texto de Michael Pettis sobre a saída da Espanha da crise – por Júlio Marques Mota

dorindo1

ESPANHA, EXISTE?

_____________________________________________________________

 

 

Nota sobre o texto de Michael Pettis sobre a saída da Espanha da crise

 

 

 

Com três textos sobre Espanha, a nossa participação, hoje, no blog é já mais que suficiente. Talvez mesmo em excesso, pelo que nos limitamos a uma pequena nota sobre o texto de Michael Pettis com o qual concordo…quase que completamente e digo quase porque na minha opinião o texto falha no fundamental. Segundo Michael Pettis são três as vias de saída da Espanha desta enorme crise da qual não se vê o fim, talvez porque a lâmpada do fim do túnel esteja desligada e…por causa da austeridade imposta pela própria crise.

 

Concordamos com a base da exposição de Pettis , mas não acreditamos que qualquer das  três hipóteses de saída resulte se não houver uma quarta condição, a saber, uma mudança radical ao nível ou da OMC ou da União Europeia rejeitando a desorganização imposta pela  OMC quanto à necessária regulação no comércio internacional . O professor Pettis vem de Pequim e daí, desse ponto de vista, dessa âncora, nada mais haveria a dizer porque a quarta condição, necessária mas não suficiente para  a saída da crise e por isso é que preciso mais um  das três por ele assinaladas, incide sobre a política extremamente agressiva de Pequim, de um mercantilismo tal que a Alemanha  até é um pobre aluno. E disso possivelmente não poderá falar.

 

Nesta segunda-feira publicou-se no blog uma posição de Pascal Lamy, director-geral da OMC  em que este menospreza o facto de  as remunerações na China representarem por trabalhador um  oitavo das remunerações  na Europa. Diz-se que a Espanha precisa de ser mais competitiva contra quem? A desvalorização,  torna os bens mais caros se importados, torna os bens mais baratos,  se exportados   e  a grande questão põe-se aqui: será que as elasticidades procura-oferta funcionam?   Se a questão fosse ver a Espanha em termos comerciais isoladamente contra o resto do mundo, podê-lo-íamos admitir, poderíamos pois considerar que a desvalorização poderia funcionar, mas a Espanha não está sozinha neste seu calvário, acompanham-na Portugal, a Grécia, a Itália, Chipre e do outro  lado contra estes países em dificuldade também está um concorrente de peso, a China, que concorre no mercado com as suas próprias regras, concorre ao nível dos produtos de baixo,  de médio e de topo de gama, concorre portanto ao nível dos diversos patamares de desenvolvimento.  Em que condições é que a desvalorização se torna eficaz ?  E a procura para esses produtos, com todos os países em recessão, com exclusão da Alemanha, essa onde é que se encontra? Não a vemos e só a poderemos conceber  numa cintura relativamente protegida, ou seja,  no quadro da União Europeia com esta a voltar a uma pauta aduaneira comum , mas pauta verdadeira.

 

Esta quarta condição é necessária também para a opção da deflação competitiva interna em Espanha  que é apresentada no texto de  Pettis como a segunda opção, pois mesmo a considerar, o que seria um milagre, que a política de deflação pudesse resultar social e economicamente,   e mesmo que os empresários não aumentem as suas margens em vez de descerem os preços, teríamos a mesma questão da posição anterior, concorrer no espaço europeu, no espaço mundial contra quem? Adicionalmente,  uma outra questão se levantaria aqui: a baixa dos salários reais levaria a uma redução da procura  interna e portanto, mais uma vez, o crescimento seria exclusivamente dinamizado pelo sector de exportação, o famoso modelo de crescimento led-growth via exportação, e desembocamos no mesmo problema: para onde no mercado externo.

 

Note-se que a questão aqui posta seria a mesma para Portugal, para a Itália, para a Grécia ou mesmo  para a França quando esta também vier a cair.  Por esta razão insistimos que a saída da crise para todos os países referidos seria a construção imediata de uma Europa das nações e das solidariedades, e se não se fez até agora, não será seria agora sob a urgência e a pressão dos mercados que poderia ser  feita, ou então  a criação de uma moeda comum o euro, em moldes completamente diferentes, nos moldes propostos, por exemplo, por Sapir, por Murer ou outros aqui apresentados no nosso blog.  Mesmo aqui cremos que será necessário alguma pressão de todos os países do Sul contra o imperialismo alemão, ou então terá que haver uma saída, que espero conjunta,  da zona euro.    

 

 

E boa leitura para os textos que o blog apresenta  hoje.

 

 

 

 

 

Júlio Marques Mota

 

Exit mobile version