Entre a força assassina de um Golias (a Alemanha) e a rectidão moral de um David (a Grécia de Syriza)… – A propósito de um texto de Michael Pettis sobre Syriza, sobre a Alemanha (parte 2). Por Júlio Marques Mota

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A propósito de um texto de Michael Pettis sobre Syriza, sobre a Alemanha (parte 2).

Por Júlio Marques Mota julio-marques-mota

Reedição revista do artigo publicado em 22 de fevereiro de 2015 (https://aviagemdosargonautas.net/2015/02/22/entre-a-forca-assassina-de-um-golias-a-alemanha-e-a-rectidao-moral-de-um-david-a-grecia-de-syriza-a-proposito-de-um-texto-de-michael-pettis-sobre-o-syriza-sobre-a-alemanha-por/)

(conclusão)

Da mesma opinião parece comungar Michael Pettis quando nos diz:

Se a reestruturação é bem concebida, dentro de um ano pós reestruturação penso que se poderia facilmente ver o crescimento grego surpreender-nos com o seu vigor. Fiquei satisfeito ao ver que o novo ministro das Finanças da Grécia defende o mesmo ponto de vista. Um artigo no Financial Times de segunda-feira começa com a afirmação de que “O novo governo radical da Grécia revelou propostas na segunda-feira para acabar com o confronto com os seus credores, trocando dívida por novos títulos ligados ao crescimento, à execução de um excedente orçamental permanente e especificando objectivos no combate à fraude e à evasão fiscal praticada pelos mais ricos”. O Financial Times de hoje tem um artigo de Martin Wolf, que menciona os benefícios de “uma ligação entre as obrigações de dívida e o crescimento económico”. Em The Machine Volatilidade eu gasto vários capítulos a explicar como criar estruturas de passivo que minimizem choques externos, tornem conformes os interesses dos credores e dos cidadãos, e melhorem a qualidade dos pagamentos aos credores e mostro igualmente  porque é que isto leva a uma reestruturação muito mais bem sucedida para todas as partes interessadas. Mas isto é apenas teoria básica de finanças. O ministro Yanis Varoufakis deve realmente assumir a liderança na concepção de uma forma inteiramente nova de reestruturação da dívida soberana, e não apenas para a Grécia, mas para muitos países, na Europa e noutros lugares, que em breve irão entrar em incumprimento.

O ministro grego deve assumir a liderança na reestruturação, inevitável, da dívida e deve fazê-lo em nome da Grécia e dos outros países igualmente.

Retomando ainda Michael Pettis, diz-nos este:

“Isso significa que ao recusarem-se a negociar o perdão da dívida, não só devem os países periféricos, aqui simbolizados pela Espanha, estarem preparados para viver com uma taxa de desemprego insuportavelmente alta e com um baixo crescimento económico por muitos e bons  anos, o que prejudicaria as instituições sociais, políticas e financeiras que são os reais determinantes de se um país é economicamente avançado ou economicamente atrasado mas, no fim de tudo isto e depois de muitos anos de sofrimento, a Espanha seria obrigada a exigir o perdão da dívida de qualquer maneira, só que agora com uma economia em muito pior estado. Os precedentes históricos sugerem também que, enquanto que as reformas que Madrid tem implementado parecem ter falhado, na verdade, são os constrangimentos da dívida que impedem os seus impactos sobre a produtividade de aparecerem, tal como com o crescimento económico que não existe. (…) Ao longo da história moderna, até as “boas” reformas não conseguiram gerar crescimento em quase todos os casos anteriores de países excessivamente endividados, a não ser, claro, quando essas reformas reduzam drasticamente a dívida pendente.”

Contra o discurso oficial e solidamente apoiado pela análise histórica e por um profundo conhecimento dos mercados, esta é a linha de análise prosseguida por Michael Pettis. Demagogia, dirão alguns colegas meus, professores de economia! Mas olhemos para os gráficos e percebemos claramente que as políticas de austeridade impostas representam um verdadeiro massacre para todos os europeus, e vêm dizer-nos agora que somos um bom exemplo de como o programa funciona bem! Uma falta de vergonha total para quem o diz, para quem afirma que um país completamente destruído e por décadas é um país de sucesso. Uma vergonha para quem se vangloria com esta afirmação quando se pode morrer nas urgências dos hospitais em nome da austeridade e sentado numa cadeira por falta de macas, onde para se resolver a questão dos doentes com hepatite C foi necessário ameaçar violenta e desesperadamente o próprio ministro da saúde. Dois dias depois, tudo resolvido! A falta de vergonha não tem limites, sabemo-lo todos os que têm consciência desta enorme crise, a transformar-se fortemente numa crise civilizacional, e com a eventualidade de mais uma guerra à escala europeia e facilmente transformável numa Terceira Guerra Mundial.

E à medida que deixamos que estes assassinos de luva branca vão arrasando a Europa, destruindo as nações de arcas vazias ou perdidas, acusadas e punidas por serem consideradas cigarras, à medida que os répteis políticos, que são a maioria dos nossos eleitos, vão minando a terra que pisamos, à medida que se não deixam avançar com um necessário Plano Marshall para aplicar na Europa urgentemente, estamos a deixar que a situação se torne cada vez mais explosiva e com a eventualidade de se concluir por uma ou outra saída que a maioria das pessoas, à partida, não quer. Como assinala Michael Pettis:

Haverá muita gente que parece odiar ou temer Syriza e essa gente fará muito poucos esforços para tentar abordar os problemas da Grécia com a imaginação suficiente para dar a uma ou a outra parte o que ele precisa, mas, na verdade, actuar em boa cooperação, com imaginação e compreensão intuitiva da forma  como as estruturas das contas (públicas) alteram a criação do valor global, uma reestruturação da dívida grega poderia claramente deixar ambos os lados em muito melhor situação do que qualquer um dos lados poderia antes imaginar. É claro que se a reestruturação for bem feita isso importa muito mais e o seu impacto vai bem para além do seu impacto sobre a economia grega. Enquanto toda a gente provavelmente concorda que a Grécia simplesmente não pode prosseguir sem o perdão da dívida, menos amplamente aceite, mas não menos óbvio na minha opinião, é admitir que há uma série de outros países europeus que também precisam de perdão da dívida, se é que eles não continuam a aumentar. (…)

 “Dito de outro modo, não há virtude nacional ou vício nacional aqui, e não há nenhuma razão para que a crise europeia faça cair o sistema nas mãos da  extrema-direita ou dos extremismos nacionalistas. A crise financeira na Europa, como todas as crises financeiras, é em última análise, uma luta de sobre quem vão recair os custos do ajustamento, para os trabalhadores e aforradores da classe média ou para os banqueiros, para os donos dos  activos reais e financeiros e para a elite empresarial. Porque os grandes partidos se recusaram a reconhecer a natureza deste processo de distribuição dos custos de ajustamento e transformaram a situação numa luta entre o credor, a Alemanha, por um lado, e os países europeus periféricos endividados por outro lado, eu era capaz de fazer em 2010-11 uma das previsões mais fáceis que já fiz na minha carreira – quaisquer que sejam os partidos extremistas, sejam de direita ou de esquerda, quem tomasse a dianteira na ofensiva contra a Alemanha, contra os banqueiros e os burocratas monetaristas, foi o que então afirmei, apareceria com popularidade eleitoral e acabaria por reformular o debate.

É por isso que a questão do perdão da dívida deve ser primeiramente reformulado pelos partidos centristas.

(…) É da responsabilidade dos principais partidos do centro do espectro político reconhecer explicitamente as opções a tomar. Se o não fizerem, serão os partidos extremistas, de direita ou de esquerda, que assumirão o controle do debate, e converterão o que é um conflito entre sectores económicos diferentes ou num conflito entre nações ou num conflito de classes. Se estes vencerem, eles irão determinar e declarar o fim da Grande experiência que é o projecto da União Económica e Monetária.

É tempo de parar a máquina que a todos está a levar ao inferno, e Syriza indica-nos o caminho. Saibamos pois segui-lo.

Tem também razão João Freitas Branco quando escreve no seu blog e com esta citação concluímos a nossa apresentação do texto de Michael Pettis:

QUARTA-FEIRA, 18 DE FEVEREIRO DE 2015

O meu ministro das finanças

Nunca pensei que a leitura de um texto redigido por um ministro das finanças me pudesse despertar sentimento de verdadeira felicidade, me pudesse empolgar e até comover. Mas aconteceu. Foi quando há poucos instantes li o artigo de Yanis Varoufakis publicado no New York Times e que me foi enviado, já traduzido, pelo meu esplêndido Amigo António Gomes Marques. Aqui o deixo agora aos meus amigos do Facebook na esperança que sintam o que eu senti: satisfação, entusiasmo, comoção, admiração. Sinto-me cada vez mais SYRIZA. Será que um cidadão português se pode inscrever neste partido grego? Sugiro à Direcção do Syriza que crie a possibilidade estatutária de acolher a inscrição de membros-simpatizantes de todas as nacionalidades, com cotização voluntária. Julgo que seria uma boa forma de financiamento. Estou em crer que, como eu, existam milhares de cidadãos europeus desejosos de acudir ao Syriza, porque ajudar essa audaz força política é ajudar a salvar a Europa, a União Europeia solidária, progressista, civilizadora. É a solução racional do grande Imannuel Kant!, tão oportunamente referenciado por Yanis Varoufakis, cujo artigo total e entusiasticamente subscrevo. Quando é que na minha Pátria poderei aplaudir um ministro das finanças com o entusiasmo com que hoje aplaudo este lúcido grego? Um ministro das finanças com cultura filosófica, que lê e admira o Kant! Obrigado Yanis, e coragem!

Viva o SYRIZA!

João Maria de Freitas-Branco

18 de Fevereiro de 2015

 

Boa leitura, portanto.

Coimbra, 19 de Fevereiro de 2015.

Júlio Marques Mota

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