Entre a força assassina de um Golias (a Alemanha) e a rectidão moral de um David (a Grécia de Syriza)… – A propósito de um texto de Michael Pettis sobre Syriza, sobre a Alemanha (parte 1). Por Júlio Marques Mota

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A propósito de um texto de Michael Pettis sobre Syriza, sobre a Alemanha (parte 1).

Por Júlio Marques Mota julio-marques-mota

Reedição revista do artigo publicado em 21 de fevereiro de 2015 (https://aviagemdosargonautas.net/2015/02/21/entre-a-forca-assassina-de-um-golias-a-alemanha-e-a-rectidao-moral-de-um-david-a-grecia-de-syriza-a-proposito-de-um-texto-de-michael-pettis-sobre-o-syriza-sobre-a-alemanha-por-julio-marques/)

Carta de Júlio Marques Mota de 21 de fevereiro de 2015

Meus caros,

Iremos apresentar em A Viagem dos Argonautas um texto notável, que reputo de leitura quase que obrigatória para quem quiser perceber o que anda a acontecer na Europa. Um texto de Michael Pettis sobre Syriza e a Alemanha. Um texto demasiado longo para me atrever a enviá-lo a alguém. Sugiro, pois, a consulta do blog a partir de segunda feira para uma leitura do mesmo.

Daqui vos anvio um texto em que teço algumas considerações sobre o momento que passa, tomando como referência o texto de Pettis e os dados do Eurostat da semana passada. Um texto escrito esta quinta-feira, não abordando sequer os acontecimentos de ontem.

Como sempre o meu pedido de desculpas pela liberdade tomada, mas se o tema não lhe interessa não se irrite, porque tem sempre a tecla DEL ao seu dispor. E siga em frente.

JMota

Entre a força assassina de um Golias ( a Alemanha) e a rectidão moral de um David (a Grécia de Syriza), entre a ganância dos senhores da Europa e a dignidade de um povo que se recusa a ser um dos seus escravos, entre a reptilização dos  políticos europeus (de que como exemplos maiores podemos citar Cameron, Valls e Renzi) e a dignidade assumida pelos líderes políticos do Syriza, a Europa vive dramaticamente um ponto de viragem entre a desesperança da sua destruição (pelos graves  defeitos de construção da UEM e pela responsabilidade maior da Alemanha) e a alegria da sua reconstrução (pela dinâmica imposta pela recusa grega da política suicida que tem sido imposta), entre tudo isto aqui vos deixo um texto de Michael Pettis, Syriza e a indemnização francesa de 1871-73 à Alemanha [Prússia], cuja leitura é uma verdadeira viagem ao mundo da crise e da irresponsabilidade dos políticos que a criaram e a aprofundaram depois desta ter rebentado.

Um texto de Michael Pettis que é também uma lição magistral sobre a história, mostrando que a criação da situação actual é a réplica de outras situações semelhantes, também elas duramente sofridas, por outros tantos erros igualmente cometidos, como as entradas massivas de ouro vindo da França por indemnização de guerra em que a Prússia de Bismarck venceu os Franceses e nada perdoou, como com os empréstimos massivos dos Estados Unidos no final da década dos anos 20, a gerar a falência da banca na Europa e a ter efeitos de contágio tais que geraram a crise dos anos 30 nos Estados Unidos e deram origem à ascensão de Hitler. Ignorando tudo isto, mostra-se até por aqui a ignorância, para além da maldade claro está, que campeia nos nossos políticos, de que podemos tomar como muito bons exemplos em Portugal, Passos Coelho, Cavaco Silva ou ainda candidatos a Leopardos como Francisco Assis e António Vitorino entre tantos outros, para não falarmos do servilismo da imprensa na sua campanha contra a Grécia, país onde parece só haver piscinas, ou de textos insultuosos como os de Vasco Pulido Valente a quem até a forma de vestir dos lideres gregos o incomoda. Tudo isto, a bem servir o senhor, a Alemanha.

A lógica do senhor e do escravo, magistralmente descrita por Hegel na Fenomenologia do Espírito, parece estar actualmente instalada na Europa e hoje parece um dado adquirido para muita gente que esta lógica só é possível se o agente que exerce o papel de escravo tiver medo de quebrar as correntes de ferro que o amarram ao senhor, sendo certo igualmente que o senhor só tem historicamente esse papel porque é a presença dos escravos que lho confere. Syriza vem agora dizer ao mundo que quer romper as cadeias que o prendem ao senhor, neste caso a Alemanha, uma vez que a Europa se subsumiu face ao poder germânico a quem serve basicamente de instrumento e de tapete para a satisfação das ambições de Frau Angela Merkel e do senhor Wolfgang Schäuble. Michael Pettis coloca este problema de uma forma bem mais delicada mas altamente corrosiva:

Eu preocupo-me assustadoramente com o baixo nível de sofisticação entre os decisores dirigentes e os economistas que os aconselham quando se trata de compreender a dinâmica dos saldos orçamentais e da reestruturação da dívida.”

Se tivermos em conta que temos como Presidente da República um doutorado em Economia, se tivermos em conta a sua análise sobre as políticas da Troika e sobre as posições assumidas pelo governo grego, deveremos reconhecer que o que Michael Pettis considera sobre Cavaco Silva, economista de profissão é, pura e simplesmente, que ele é de uma incompetência absoluta, ele como os ministros das Finanças da zona euro e a corte dos seus assessores, todos eles genericamente pagos a peso de ouro pelos contribuintes. Da invenção dos multiplicadores negativos, à invenção de que a austeridade premeia de imediato, à invenção dos multiplicadores positivos mas menores do que 1, a garantir que a dor imposta pela austeridade é menor do que o beneficio a usufruir com ela e, portanto é bom sofrer, desde a invenção de que todos teremos ou deveremos ter balanças excedentárias, desde a  invenção de que a desvalorização interna é motor de crescimento quando todos estão a fazer o mesmo ou se o não fazem estão em recessão, toda a panóplia de mentiras e de demagogia foi utilizada para esconder que os nossos eleitos em vez de estarem ao serviço dos povos que os elegeram estão ao serviço daqueles que nos levaram à ruína, os países credores. 

 Como assinala Michael Pettis:

À excepção da Grécia, na Europa os principais partidos políticos de ambos os lados do espectro político têm até agora optado por manter o valor da moeda e proteger os interesses dos credores. Têm sido os partidos extremistas, seja à direita ou à esquerda, que atacam a união monetária e os interesses dos credores. Em muitos casos, esses partidos são nacionalistas extremistas e opõem-se à existência da União Europeia. Se tiverem sucesso em tomar o controlo do debate, a União Europeia será forçada, quase que obrigatoriamente, a entrar em colapso, e vai demorar décadas, se alguma vez isso voltará a acontecer, a recriar de novo a União Europeia.”

Desta ideia da Europa do senhor e dos escravos, agora imposta por Syriza, uma simples imagem:

A propósito de um texto de Michael Pettis sobre Syriza, sobre a Alemanha (parte 1) 1

 

Abaixo apresenta-se um quadro exemplar produzido por Eurostat que mostra o peso das responsabilidades financeiras de cada Estado registadas fora do orçamento e dá-nos uma outra perspectiva da crise europeia: os grandes trapaceiros são os alemães o que vem a estar de acordo com as teses de Michael Pettis:

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A este quadro juntemos um outro de Eurostat sobre a dívida pública em vários países da zona euro, publicado a 15 de Fevereiro de 2015 e do qual obtivemos o seguinte gráfico:

A propósito de um texto de Michael Pettis sobre Syriza, sobre a Alemanha (parte 1) 3

Os dados em conjunto dos dois quadros são evidentes agora: a dívida global da Alemanha, a visível e a invisível é de (126,6+76,4) do PIB= 203% do PIB; enquanto a correspondente dívida dos países ditos periféricos, os apanhadores de azeitonas ou ainda os países do Club Mediterranée, os países altamente endividados, é de:

- Grécia é de (6,82+174,7) do PIB =    181,52 % do PIB
- Espanha é de (12,46+91,6) do PIB =   104,06 % do PIB
- Itália é de (45,46%+127,8%) do PIB=  173,26 % do PIB
- França é de (46,9+91,1) do PIB =     138,00 % do PIB
- Portugal é de (51,79+124,9) do PIB = 176,69 % do PIB

Estes são os resultados oficiais que nos mostram que temos andado a ser sujeitos a uma pura mistificação, quanto aos níveis de endividamento. E isto não entrando ainda em linha de conta com um facto espantoso: por ser considerado porto de abrigo e no quadro da mobilidade absoluta dos capitais que é regra de ouro na UEM, a Alemanha terá beneficiado de juros mais baixos que os que existiriam se a crise não se tivesse instalado e da forma que o foi, o que lhe terá  proporcionado uma economia de  120 mil milhões de euros na despesa pública, a demonstrar que a própria União Monetária é uma verdadeira ficção pela qual se quer que todos nós nos sacrifiquemos agora. Que nos sacrifiquemos, a favor dos alemães, claro! Como noticiava o jornal Handelsblatt (o equivalente alemão do Financial Times) de 10 de Agosto de 2014:

Desde 2007, as taxas de juro têm sido muito baixas na Alemanha. As poupanças em termos de despesa pública com o serviço da dívida vão-se adicionando e, segundo o Bundesbank, atingiriam já a cifra de 120 mil milhões de euros”.

Na verdade, há um senhor e há os escravos, a provar a tese de Hegel explicada naquela que para é para nós uma das obras mais fundamentais na filosofia, a Fenomenologia do Espirito. Os alemães, assumidos então como os senhores, na dialéctica do senhor e do escravo, conforme nos mostram os tristes dados macroeconómicos do tipo dos dados acima apresentados e que, neste caso, dizem respeito ao ano de 2013, os últimos disponibilizados por Eurostat! A sua força resulta, então e sobretudo, da fraqueza dos outros como se constata olhando atentamente para os números acima apresentados! Dá que pensar que raios de espinha dorsal têm os nossos políticos para construírem esta força do poder dominante, a Alemanha, dos poderes dominados, os países ditos em dificuldade. Que espinha dorsal, perguntamos. E a resposta parece óbvia: a dos répteis talvez.

A tese do filósofo de Iena demonstrada mais de 200 anos depois, a partir do seu próprio país, a Alemanha, e na base de uma verdadeira ficção como mostram os números acima, todos eles do Eurostat. A falsa robustez de uns a gerar a falsa fragilidade dos outros, custa a acreditar! Uma vez aceite esta ficção, esta transformou-se em realidade pensada, vivida, usufruída pelos alemães, sofrida pelos países em dificuldade. Produz-se a ideia de que são os senhores da Europa, os menos endividados porque os mais virtuosos e, a partir daí, assumem-se como os decisores desta Europa onde se passeiam, sobre os corpos dos que passaram a ser os seus escravos. Deste modo, e por esta razão de fundo, são eles que decidem sobre os nossos próprios destinos e em nome de todos nós como se lhe tivéssemos cedido numa salva de prata a nossa soberania. Foi-se a salva de prata, foi-se a soberania. Com efeito, a Europa fala agora a uma só voz, a voz da Alemanha, ou seja este país fala pela Europa, e isso só foi possível porque houve dirigentes políticos que num dramático concurso de reptilização do poder e de destruição real da democracia se assumiram como os seus escravos, sacrificando por essa via os respetivos povos. Corrijo o que acabo de escrever. Foi assim até agora, até que David recusou aceitar como verdade o que sabe ser ficção, se empertigou e está disposto a lutar também por todos nós! Essa é a tarefa que Syriza está assumir por todos os povos europeus, talvez também à espera que despertemos da hibernação de répteis em que nos transformámos, e os ajudemos a eles no seu esforço titânico para salvar a Europa.

(continua)

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