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SALAZAR E A I REPÚBLICA – 60 – por José Brandão

1925 – Salazar a caminho do principio

No início deste ano (1925) já ninguém tem dúvidas quanto à intervenção definitiva de Salazar nos domínios da política. No horizonte já se antevê o professor de Coimbra como predestinado para a subida aos céus da grande política nacional. Por seu lado, o Centro Católico, aproveitando a barafunda geral, alargava o âmbito da sua intervenção doutrinária e invadia sem rebuço a esfera da política.

Os católicos atreviam-se agora para acções que os inibiram durante largo tempo. Vinham à luz do dia, como que saídos de uma qualquer catacumba.

A propósito de católicos, Raul Brandão escreve no final das suas Memorias:

«O melhor que encontrei na vida foram os tipos religiosos. O melhor e o pior. O mais extraordinário e o mais absurdo. Sinceramente crentes – confessando-se todas as manhãs e enriquecendo, à tarde, no negócio, sem escrúpulos nenhuns Homens com vários compartimentos, uns para a religião e outros para a vida prática. Vi a um morrer-lhe a filha única e levantar as mãos para Deus, de joelhos, dizendo: – Faça-se a tua vontade! – Conheci um padre que morreu de fome, mulheres admiráveis e autênticos malandros, comungando todas as sextas-feiras com a maior devoção. Lidei com muitos. Lidei algum tempo com A…, que passa a vida a rezar e a pensar na manobra dum banco.

Preconceitos não tem nenhuns – tanto conspira na Biblioteca com as esquerdas como no Centro Católico com as direitas. – O que nós queremos é um general e uma conspirata para deitar a mão a isto… – dizia-me ele quando andava nos meios avançados. E sempre a rezar. Escreve espantosamente linguados atrás de linguados sobre finanças – escreve infatigavelmente versos sobre versos. Escreve o que quiserem. Naturalmente aquilo não está certo – eu não sei… – mas como ninguém lê o que ele escreve, A… impõe-se e aterra. Sabe muito – diz-se. É um homem muito comprido – é uma estopada infinita, Já escreveu um poema, quatrocentas páginas a escorrer versos medíocres. Versos e finanças, é tudo a mesma coisa. O que ele quer é ser ministro. O que ele quer é dinheiro. Para isso conspira com Deus ou com o Diabo. Já esteve com a Seara – agora está com Salazar, lamenta os que passam fome por causa dum ideal. Lamenta e reza – ele, a mulher e os filhos, tudo de mãos postas e dezassete contos por mês no Banco Ultramarino.» *

* Raul Brandão, Memórias, III, Perspectivas e Realidades, Lisboa, s.d., p. 131.

O ano de 1925 encontra um Salazar politicamente activo como chefe e doutrinador do Centro Católico. Corresponde-se intensamente com os seus amigos de Coimbra, apela à participação eleitoral. Em 31 Janeiro, no Correio de Coimbra, semanário diocesano, abre uma série de sete artigos incitando os católicos à participação no próximo acto eleitoral.

Por iniciativa do Centro Católico, vai ao Funchal onde, a 4 e 6 de Abril, tem vários contactos políticos e profere duas conferências marcadamente doutrinárias : «Laicismo e liberdade» e «O bolchevismo e a Congregação».

Na sua primeira conferência o assunto não era apenas religioso. Era também político:

«Às imaginações do nosso tempo não as embriaga propriamente já a Liberdade: a nobreza antiga manteve sempre a sua desconfiança desta nova deusa; a burguesia enriqueceu loucamente á sua sombra e despreza-a no fundo como maquinismo fora de uso; a massa operária que não quer servir a Deus atende os falsos profetas, crê na revolução social, e espera, gritando-o aos ouvidos liberais, a ditadura do proletariado.»

Subordinava-se a segunda conferência de Salazar no Funchal ao título «O Bolchevismo e a Congregação». Logo de início situa as coordenadas do tema: «Eu só desejava surpreender no bolchevismo os seus princípios fundamentais, o seu programa de reforma, os seus processos de realização, e deduzir deles as secretas razões por que o bolchevismo não resolve o seu problema de reforma social. Visto que incorrigíveis ideólogos vêem nele a realização generalizada dos conselhos evangélicos ou lhe encontram uma flagrante parecença, desejava também mostrar-vos os princípios em que se baseia a Congregação e as condições em que se torna possível a sua organização comunista.» (…)

Conclusão desta conferência de Salazar: «Ensinai aos vossos filhos o trabalho, ensinai às vossas filhas a modéstia, ensinai a todos a virtude da economia. E se não poderdes fazer deles santos, fazei ao menos deles cristãos». Salazar não pára. De 14 a 19 de Junho, participa no X Congresso da Associação Luso-Espanhola para o Progresso das Ciências, realizado em Coimbra, e onde, no discurso inaugural, Salazar disserta sobre «Aconfessionalismo do Estado», em favor de um Estado forte e esclarecido por um querer doutrinário. É agora, notoriamente, o ideólogo e chefe de fila do catolicismo conservador, com estreitos contactos com a hierarquia da Igreja, mas sempre com uma postura que se pretendia suprapartidária, algo mais do que uma simples fracção política.

Em boa verdade a vida não lhe podia estar a correr mais de feição. Sem preocupações de custos apoiava financeiramente a família e – como refere Franco Nogueira: «Cuidava de si também. Mandou fazer uma casaca, no Damião, por 1 300$00, e ainda um fraque por 750$00; e para o peitilho da camisa de goma comprou uma abotoadura de ouro branco e brilhantes por 1 100$00. Cuidava do apetrechamento da sua casa do Vimieiro: melhorava as mobílias, adquiria serviços de porcelana e de cristais. Encomendou um capelo novo. E no final daquele mês de Setembro de 1925 fechara as suas contas com um saldo positivo de 18 650$53. Vivia com relativo desafogo, e confortavelmente.» *

*Franco Nogueira, ob. cit., p. 295.

No âmbito das amizades mais chegadas, Salazar permanecia na fidelidade a Cerejeira mas contava agora com a governanta Maria de Jesus, ainda conforme palavras de Franco Nogueira: «Único verdadeiramente íntimo – refere Franco Nogueira – continuava a ser o padre Cerejeira. Havia dez anos que habitavam os Grilos. Mas agora dera-se uma modificação doméstica, naquele Outono de 1925. Salazar despedira as duas criadas: a Maria da Encarnação e a Bárbara. Para as substituir, Cerejeira contratara uma governanta, a Maria de Jesus, indicada pelo Bispo de Lamego.».

No campo académico mantinha-se activo com tarefas para que era solicitada a sua competência. A 7 de Novembro: – Anotação a um acórdão do Tribunal Superior do Contencioso das Contribuições e Impostos – Na «Revista de Legislação e de Jurisprudência», n.º 2 287, Coimbra, 1925. – Anotação de «jurisprudência crítica» – No «Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra», n.º 71a 80, Coimbra, 1923-1925.

Menos bem na intervenção directa partidária, em 8 de Novembro de 1925 candidata-se às eleições para a VII legislatura pelo Centro Católico ao círculo de Arganil, voltando a não ser eleito. Mas agora não desiste. Assume até a vice-presidência da Comissão Diocesana de Coimbra do Centro.

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