Salazar prossegue na sua tese:
«Possuir a riqueza e usá-la em harmonia com os fins do homem e o progresso moral da humanidade; tê-la como um encargo confiado à nossa inteligência e à nossa iniciativa, para que façamos frutificar em benefício de todos; sujeitá-la a nós para que nos sirva e sirva os nossos irmãos mas não nos escravizarmos a ela, para que o Senhor nos veja pobres em espírito, – que enormíssima revolução! É a produção assegurada dos bens necessários à sustentação de todos, é consumo como aproveitamento e não é como utilização de bens; é o luxo reduzido a uma função de beleza; é a miséria vencida, é a tranquilidade na segurança do futuro.
Tomar o trabalho próprio e alheio com amor, desempenhá-lo com zelo, aceitá-lo com alegria; ter o orgulho da profissão, pela consciência da sua utilidade e pela perfeição própria do trabalho executado; sentir a nobre honra de contribuir com um esforço útil para a colectividade e sentir o vexame duma ociosidade parasitária, – que revolução prodigiosa! É o rendimento do trabalho humano mais elevado, é uma quota mais elevada da riqueza distribuída a cada um, é uma mais equitativa repartição do trabalho no mundo, é um avanço enorme no caminho moral da humanidade, mais desembaraçada de preocupações materiais para a cultura do espírito.»
É esta a tese defendida por Salazar aquando da realização do Congresso Eucarístico Nacional. Como já era normal acontecer com os trabalhos de Salazar, esta «Paz de Cristo» era mais um sucesso a juntar aos que marcavam a sua actividade política durante a I República. Cimentado num saber de inflexibilidade quase total, António de Oliveira Salazar ia-se chegando à frente na vida pública portuguesa.
Por parte dos amigos mais próximos havia a incitação a uma intervenção mais activa na
vida política, sugerindo-lhe que se candidatasse a deputado por Viana do Castelo.
Domingo, 6 de Julho de 1924. Constituição do gabinete Rodrigues Gaspar, composto por membros do Partido Democrático e da Acção Republicana. Era composto por Rodrigues Gaspar com a Presidência e Interior; Catanho de Meneses, na Justiça; Daniel José Rodrigues, nas Finanças; Vieira da Rocha, na Guerra; Pereira da Silva, na Marinha; Vitorino Godinho, nos Negócios Estrangeiros; Henrique Sátiro Lopes Pires Monteiro, no Comércio; Álvaro António Bulhão Pato, nas Colónias; Abranches Ferrão, na Instrução; Xavier da Silva, no Trabalho; Torres Garcia, na Agricultura.
Em Outubro e Novembro reacende-se o conflito entre os católicos, com o Novidades, afecto ao Centro Católico Português, a polemizar com A Época, de Fernando de Sousa.
1925 – A República a caminho do fim
O ano de 1925 é particularmente intenso em acções golpistas. Em Março ocorre uma tentativa de golpe militar, por três oficiais monárquicos, que tentaram ocupar o Quartel-general de Lisboa. Em Abril eclode um pronunciamento militar das forças conservadoras apoiado por integralistas e monárquicos mas também pelo Partido Nacionalista, de Cunha Leal.
No País, chegava-se ao limite e esgotavam-se todas as soluções de governo; falava-se de
revolta militar. No dia 18 de Abril essa revolta tornou-se realidade e as tropas revoltosas
instalaram-se na Rotunda. Presidente da República e Governo instalaram-se no Quartel
do Carmo; é porta-voz do movimento, Sinel de Cordes que é encerrado nas águas-furtadas, ficando a dúvida se para ser protegido ou como prisioneiro.
«Queremos reorganizar a administração pública, restabelecer a justiça, libertar as classes oprimidas pela miséria». «Basta de crimes impunes, de latrocínios, de roubos e de infâmias». «Que a República seja um regime honrado e não capa de bandidos e gatunos.» Eram palavras de ordem da proclamação dos amotinados de 18 de Abril.
O estado de sítio é declarado em todo o país, suspendendo-se todas as garantias constitucionais.
Tudo terminaria na manhã dia seguinte com a rendição dos sublevados.
A 19 de Julho novo levantamento encabeçado pelo capitão Jaime Baptista e pelo comandante Mendes Cabeçadas. Tal como no anterior, os revoltosos foram dominados. E os governos sucediam-se!
Demitia-se, entretanto o Presidente da República, Manuel Teixeira Gomes, em
Dezembro, após quinze anos de mandato. O Governo tentava desesperadamente conter
as finanças ao mesmo tempo que o clima geral nem ao destino era previsível. O estado
de espírito nacional era de desespero; em tudo, o aspecto era o de dissolução da nação.
Era de efectiva degradação o ambiente no país.
15 de Maio – Duplo atentado a tiro contra o comandante da polícia Ferreira do Amaral, organizado pela Legião Vermelha.
3 de Junho – Tentativa de greve geral de protesto contra as deportações sem julgamento de presos por delitos sociais..
30 de Junho – Queda do governo Vitorino Guimarães, após uma tumultuosa sessão parlamentar que durou 19 horas.
As Instituições estavam feridas de morte, a Câmara era palco de cenas vergonhosas que iam até ao insulto e ao pugilato, a censura era exercida ferozmente, os magistrados mortos a tiro, era a falência da dignidade, da moral, da sociedade. O Exército pela voz do General Gomes da Costa dava conta ao Ministro da Guerra do estado de indisciplina e de rotura que, a todos os níveis, grassava entre os militares.
