SALAZAR E A I REPÚBLICA – 50– por José Brandão

1922 – Salazar e o Centro Católico

Em 1922, enquanto a vida da Nação continuava de governo em governo, a Igreja organizava em Lisboa, nos dias 29 e 30 do mês de Abril, o II Congresso do

Centro Católico Português. Oliveira Salazar apresenta-se como principal orador com o tema «Centro Católico Português – Princípios e Organização», que servia para lançar as bases das quais partisse a acção política dos católicos.

Neste Congresso de 1922 começou a revelar-se um certo anti-monarquismo dentro do Centro Católico quando vinga a tese de Salazar de que o Centro deveria aceitar o regime republicano «sem pensamento reservado». Monárquicos católicos, com destaque, entre outros, para Fernando de Sousa (Nemo), Alberto Pinheiro Torres, Pacheco de Amorim, abandonaram então o Centro Católico.

Porém, esta posição defendida por Salazar era meramente táctica.

Na sua tese, Salazar argumentava que «as necessidades e realidades políticas mostram que a defesa religiosa não pode ser a única acção dos parlamentares do Centro». Salazar admitia que o Centro evolucionasse até ao ponto de vir a constituir-se em partido, integrado neste ou noutro regime. Para ele tudo dependia de estar ou não definitivamente resolvida em Portugal a questão política do regime.

Firme na sua tese, Salazar ia ao ponto de afirmar que «como o poder não é um meio suficiente mas certamente um poderosíssimo elemento para satisfazer com providências justas a consciência católica, e influir na solução dos problemas nacionais, segundo os princípios cristãos, o poder não repugna ao Centro, nem ele o evita». Mais: «não repugnam ao Centro por si mesmas as combinações possíveis no sentido de valorizar a sua força eleitoral e a sua representação parlamentar». Já a finalizar a sua exposição, Salazar sublinha que se estava numa altura da evolução de um partido político porque «o homem isolado é uma abstracção, uma ficção, criada sobretudo sob a influência dominante de princípios errados mas correntes no último século», sublinhando, a seguir, que «a inutilização prática do indivíduo como indivíduo na engrenagem política e económica, levou à associação dos mesmos indivíduos, sobre bases que melhor lhes permitissem a defesa dos seus interesses». No final da sua exposição, Salazar entregou na mesa uma proposta, em que defendia que o Centro Católico, reunido em congresso, aprovava «a absoluta necessidade de organização católica para a defesa imediata dos interesses da Igreja, com o sacrifício, não propriamente das opiniões políticas dos católicos, mas de uma acção política julgada prejudicial de momento, à defesa dos interesses religiosos».

A proposta foi aprovada. Conforme opinava a imprensa ligada ao Centro Católico, com este seu trabalho, o jovem professor coimbrão afirmara-se como «um dos elementos católicos mais representativos, pelo seu talento profundo, pela sua cultura invulgar, pela nobreza do seu carácter, pela modéstia que envolvia toda a sua vida de cultor apaixonado da ciência e, nomeadamente, da especialidade da sua cadeira de Finanças», em que era «autoridade». António de Oliveira Salazar continuava a somar pontos ao seu já bem evidente prestígio profissional e político.

A par com a administração da Santa Casa, Salazar teve que acumular as cadeiras de Economia Política e de Finanças e os cursos semestrais de Economia Social e de Estatística. Manteve a colaboração com várias publicações e acede ao convite para participar no corpo redactorial da Revista de Legislação e Jurisprudência a partir de 13 de Maio.

17 de Abril. Acordo de Paris. Acordo entre representantes monárquicos liberais e legitimistas (Aires de Ornelas e Lourenço Vaz de Almada). Duarte Nuno reconhece D. Manuel II. No entanto, os integralistas e os legitimistas não aceitam este acordo.

Entretanto, pelo país fora a miséria avançava, levando a Igreja a desenvolver obras de beneficência. Porém, as acções da Igreja não eram muito estimadas por parte da classe política dirigente, que se sentia estar a ser ultrapassada. Numa análise ao que se estava a passar, com o título «tudo isto tem descido de mais», um respeitado republicano, Ribeiro de Carvalho, escrevia, em 18 de Agosto de 1922,  no jornal República:

«Ora, isto entre nós tem descido muito. Tem descido demais. Tem descido assustadoramente.

Têm ascendido a ministros, a chefes de governo, a presidentes do ministério, criaturas que dentro da Monarquia não teriam passado, nunca, de amanuenses de qualquer repartição.

Ostentam por aí, hoje, ao peito, grande-cruzes das nossas ordens militares mais representativas, criaturas que na Monarquia nem o arrojo teriam de aspirar ao mais simples grau das mesmas ordens.

Têm sobraçado pastas, das mais importantes, criaturas que nem com gramática sabem escrever, redigindo despachos que envergonhariam o mais estúpido aluno da instrução primária.».

Em 26 Setembro, A Época, do Centro Católico Português, publica o primeiro de uma série de oito artigos – «Sobre o Centro Católico» – em resposta aos ataques dos monárquicos descontentes com as conclusões do II Congresso do CCP e em que discute duramente com os integralistas, que não perdoaram aos católicos o «deixar cair» da reivindicação restauracionista.

Seguro da justeza das suas posições, durante algum tempo, no jornal A Época, Salazar prosseguiu na defesa das suas ideias, e no desfazer das afirmações que os seus detractores faziam.

«O futuro do Centro Católico obrigaria os bispos a dirigirem-se ao clero e aos seus fiéis através de uma pastoral que a imprensa publicou no dia 29 de Setembro. Preocupados com as desinteligências que ameaçavam dividir o campo católico, «quando as leis santas da caridade e as necessidades do momento» tornavam necessárias «a união e a concórdia de todos, para a defesa do património comum de crenças e liberdades cristãs», os prelados aconselhavam os fiéis a acatar a República e a defender a orientação do Centro, a quem a Igreja, no seu entender, devia já incontáveis serviços.

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