CONCLUSÃO
1926 – Salazar. O começo
Era a hora de Salazar.
O seu perfil de homem de poucos sorrisos, mas de seriedade impoluta, levavam as elites e algum povo, a rever-se em alguém que era o contrário da imagem do político parlamentar da I República. Porque era inegavelmente recto, inteligente, competente, rigoroso, cumpridor, exigente com todos a começar por si próprio, António de Oliveira Salazar era o Desejado, qual D. Sebastião do século XX.
Francisco Pinto da Cunha Leal, que foi reitor da Universidade de Coimbra entre 1924 e 1925, conheceu Salazar quando este era professor de Economia e Finanças em Coimbra, descreve-o nestes termos:
«Nascido em 1889 começou a cursar a Universidade de Coimbra com 21 anos e meio de idade, isto é com maturidade espiritual superior à da generalidade dos restantes caloiros. Esta circunstância, aliada à inferiorização material decorrente duma honesta e sadia pobreza, à origem pouco correntia da sua escolaridade, a um ingénito ensimesmamento anímico, a acentuadas dificuldades de expressionismo oratório e à imensidade do orgulho a que são atreitos certos solitários, afastou-o, radicalmente, das doces leviandades da boémia estudantil tradicional e acabou por transformá-lo num ser hipocondríaco e taciturno, aferrado ao estudo como única tábua para navegar num oceano de desconsolo íntimo.»
[…]
«Bisonho, avesso às fáceis relações com os contemporâneos de escola, naturalmente misógino, refugiado dentro do seu orgulho como um cágado dentro da concha protectora, conservou-se sempre um quase isolado, calcando, implacavelmente, os seus próprios sonhos com o cilindro de uma alma fria, tristemente despida das ilusões fagueiras da mocidade.
«Foi sempre assim: poucas amizades e nenhuns amores; exagero inconsciente do seu próprio valor; insensibilidade devida ao isolamento; desprezo absoluto por uma humanidade que o não compreendia e que nem sequer soubera atirar-lhe para os braços, num gesto espontâneo, a companheira com que, apesar de tudo, deve, às vezes, ter sonhado – a eleita do Senhor, descrita por Salomão no «Cântico dos Cânticos», com seus dois seios virginais, como duas cabrinhas saltitantes dos montes de Galaad.
[…]
«Era um homem hermético, metido consigo, mas com susceptibilidade de se abrir um pouco, não muito, quando conversávamos os dois. Meticuloso como professor, exigente, com tendência antes para a severidade austera do que para a benevolência temperada pela necessidade de elevação cultural do escol português, poderia talvez ser classificado como modelo de bons professores nos tempos ultrapassados do magister dixit.
[…]
«Faltava-lhe calor humano e, por isso, confinava a sua actividade docente dentro do conceito dum distanciamento altaneiro entre mestres e discípulos, como se aqueles prefigurassem deuses, vagamente desdenhosos, a descerem do alto do Olimpo até às planuras em que se andavam agitando uns míseros e mesquinhos mortais.» *
* Cunha Leal, As Minhas Memórias, volume III, Lisboa, 1968, pp.173-176.
Assim escrevia Cunha Leal nas suas Memórias em 1968. Falava sobre Salazar que tivera oportunidade de conhecer nos primeiros tempos da sua actividade governativa e que acompanhara durante anos. Era uma apreciação marcada pela visão de quem fora um opositor renhido de Salazar.
Navegando noutras águas, Franco Nogueira vem trazer um outro juízo sobre Salazar de quem fora ministro. Em 1971 publicou na revista Política, de que era director Jaime Nogueira Pinto, um breve texto onde transmitiu a sua visão de Salazar, como pessoa e como governante. Dizia: «Na sua extrema complexidade, Salazar foi acima de tudo uma vontade inquebrantável, com domínio constante e absoluto sobre todo o seu ser. Da sua energia íntima retirava toda a sua força. Sensível, nervoso, emotivo, permanecia contudo sempre sereno, frio, sem cóleras, desapaixonado, sem pressas, sem excitação, em particular quando em torno de si todos se mostravam incertos e perplexos. Nunca o abandonava a sua lucidez, que usava como método de penetração e conhecimento da realidade, nem jamais se obscurecia ou enfraquecia a sua capacidade de análise demorada, lenta, minuciosa, de que extraía conclusões e sínteses, arquivava-as de forma sistemática, e dava depois a sensação de haver reflectido durante séculos sobre cada assunto ou situação. Aderia e entregava-se a tudo quanto o cercasse em cada instante; cuidava de cada problema com uma absorção exclusiva e intensa, como se nenhum outro existisse e como se, para encontrar a melhor solução, tivesse à sua frente a eternidade. Criador da lei, era o seu primeiro escravo, e submetia-se-lhe como seu mais humilde servo. Defensor do Estado, não subordinava essa defesa a quaisquer outros critérios ou considerações; era glacial no tratamento e condução dos negócios públicos; e por acto de vontade calcava gostos pessoais, vencia emoções, suprimia ressentimentos, desconhecia ofensas. Escutava sem interromper, com atenção concentrada, e retinha com fidelidade quanto se lhe dizia; não se sentia afrontado com objecções ou ideias opostas; não era impressionável, nem influenciável; mas factos e argumentos alteravam a sua posição. Era intransigente nos princípios, mesmo que pudesse correr risco de destruição; mas era flexível na táctica e subtil na mudança de rumo; e dava à nova linha que prosseguisse uma nova construção lógica, de modo a não se contradizer nem desmentir. Considerava-se emanação genuína do povo, de cujos interesses se sentia universitário, e cujos sentimentos misteriosamente compreendia e avaliava. Era céptico e indiferente perante as elites. Delegava autoridade, e aguardava que cada um cumprisse o seu dever; mas não tinha no íntimo a segurança de que o fizessem. Não pedia favores, e não aceitava obséquios que lhe criassem dependências ou familiaridades. Interessava-se por tudo, e informava-se nos mínimos pormenores; e sabia em cada momento qual a posição política e pessoal de cada homem que contasse no País. Tinha acima de tudo um ângulo de visão só nacional.»
Cunha Leal e Franco Nogueira falam do mesmo homem. Do homem para quem a 1.ª República pouco ou nada valia. Do homem que vai ser convidado a transformar Portugal numa República sem republicanos de 5 de Outubro de 1910.
Desses republicanos, Salazar nada quer. Eles cansaram. Ninguém os quer. Eles mudaram o regime mas não mudaram o país. A Monarquia tinha sido confusa. A 1.ª República foi a confusão.
A nova República de António de Oliveira Salazar prometia ser diferente. E foi…
Durante quase meio século, tudo foi diferente no Portugal salazarista. Bem diferente…
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